Mundo de ficçãoIniciar sessãoLeonardo Gutiérrez
Dizem que uma empresa é feita de pessoas, mas a verdade é que a maioria delas só quer sobreviver. Eu aprendi cedo que o mundo dos negócios é uma arena. Quem hesita, perde. Quem sente, cai. E eu não caio. Não há espaço para fragilidade no topo e eu construí meu império com sangue-frio, estratégia e a distância necessária para não me apegar a ninguém. Luciana Moreno é o tipo de pessoa que passa despercebida. Silenciosa, organizada, nunca fala mais do que o necessário. Usa roupas simples, quase sempre em tons neutros, o cabelo preso num coque baixo. É eficiente, isso ninguém pode negar, mas há algo nela que foge ao padrão. Algo contido demais. Ela nunca me encara. Nunca! Pode me entregar relatórios, discutir orçamentos, revisar cronogramas, mas sempre com o olhar fixo nos papéis. Não há um segundo contato direto, e isso me intriga mais do que eu gostaria de admitir. Hoje, por exemplo, quando entrei na sala de reuniões, ela já estava lá, ajustando a apresentação no projetor. —Bom dia, senhor Gutiérrez. Disse, sem levantar os olhos. Respondi com um aceno seco e deixei o casaco sobre a cadeira. Não era um homem que se importava com gentilezas, mas algo na rigidez do corpo dela me incomodava. Às vezes, o silêncio diz mais do que qualquer palavra. Há algo nela que eu ainda não compreendo. Ela é discreta demais, pontual demais, eficiente demais. E ainda assim, por trás da expressão serena e dos gestos contidos, há uma tristeza tão profunda que chega a doer. Observo-a digitar enquanto reviso o relatório do mês. Ela evita meus olhos, como sempre faz. Nunca me encara por mais de dois segundos. Não é timidez é medo! Um tipo de medo que parece antigo, pesado, como se tivesse se enraizado dentro dela. “Luci”, chamo, a voz firme, tentando não demonstrar que algo nela me desestabiliza. Ela se levanta de imediato. —Sim, senhor Gutiérrez. O formalismo me irrita. Não por arrogância, mas porque quero quebrar essa barreira. Quero ouvir minha voz misturada à dela sem essa distância absurda. —Pode me chamar de Leo. Todos chamam. Ela hesita, os lábios tremendo quase imperceptivelmente. —Prefiro manter a formalidade, senhor. —É mais... —Adequado. Adequado! Essa palavra me fere mais do que deveria. Havia tensão demais. Como se ela estivesse em constante alerta, pronta para fugir. Enquanto os diretores falavam, percebi que ela se afastava da mesa sempre que eu me movia. Como se minha presença fosse uma ameaça. Não era pessoal, ao menos não poderia ser. Eu quase não falava com ela além do estritamente profissional. Mas aquele comportamento me atravessava de uma forma estranha, quase ofensiva. Passo os olhos pelo envelope sobre a mesa, o resultado da licitação que vai me garantir mais um ano de contratos milionários. Quando a reunião terminou, pedi que ficasse. —Senhor? —Preciso revisar alguns números antes do almoço. –Claro! Ela se sentou à minha frente, o laptop equilibrado nas pernas, os dedos ágeis no teclado. Eu falava sobre porcentagens, lucros e contratos, mas minha mente vagava. Observei a pele pálida, as olheiras profundas, o modo como ela prendia a respiração antes de responder. —Está tudo certo com você, Moreno? Perguntei, sem pensar. Ela congelou. O som das teclas parou. —Sim, senhor. Por quê? —Tem trabalhado demais. Parece exausta. —Estou bem! Mentira óbvia. Mas ela disse isso com tanta firmeza que eu não insisti. O silêncio voltou, e por um instante, o som da chuva batendo nos vidros pareceu preencher o espaço entre nós. A cada segundo, eu sentia mais forte uma sensação incômoda, um tipo de culpa que não fazia sentido. Não era problema meu se uma funcionária tinha dificuldades pessoais. Ainda assim, quando o telefone dela vibrou e ela correu para atender, percebi a urgência na voz: —Oi, meu amor... sim, a mamãe já vai... calma, Sofía... O tom mudou. Tinha algo de ternura ali, algo que eu não via em lugar nenhum desse prédio de concreto e lucro. Ela se afastou, falando baixo, o rosto contraído de preocupação. Depois desligou e ficou imóvel por um momento, como se o chão tivesse desaparecido sob os pés. —Está tudo bem? Ela respirou fundo, tentando parecer firme. —Sim, senhor. Luciana mordeu o lábio. —Nada grave. Outra mentira. E dessa vez, eu soube. Não era da minha conta. Mas havia algo de cruel em fingir que não vi. No fim do expediente, fiquei observando pela janela de vidro da minha sala. A maioria dos funcionários já tinha ido embora, o estacionamento quase vazio. Então a vi. Luciana, sentada dentro do próprio carro, um modelo antigo, maltratado, as mãos segurando o volante com força. Ela chorava. Chorava em silêncio, com o rosto escondido entre os braços, como alguém que não pode mais fingir força. Senti um aperto no peito. Uma reação que eu não reconhecia. Não sei quanto tempo fiquei ali, observando, mas foi o suficiente para perceber algo: Ela não era só uma funcionária eficiente. Era uma mulher sozinha, no limite do desespero. Naquela noite, em casa, tentei apagar aquela imagem. Bebi, revisei contratos, respondi e-mails. Mas a mente voltava sempre para o mesmo ponto: A curva frágil dos ombros dela tremendo, o modo como o corpo parecia encolher de dor. O que estava acontecendo com ela? Por que parecia carregar o mundo inteiro nas costas? Na manhã seguinte, pedi ao meu assistente que trouxesse o dossiê de Luciana. Eu precisava entender com quem estava lidando. Filha única. Universidade incompleta, abandonou o curso de Administração no último semestre. Solteira. Uma filha, quatro anos. Endereço simples, no subúrbio. Salário básico. Nenhum parente próximo. E um histórico de afastamentos médicos relacionados à criança. Folheei o relatório em silêncio. Não deveria me envolver. Mas o nome “Sofía” começou a ecoar dentro de mim de um jeito que eu não esperava. À tarde, ela chegou atrasada pela primeira vez desde que trabalha aqui. Trânsito desculpe. Falou A interrompi brusco — Não repita. Senti um impulso quase instintivo de tocar o ombro dela, mas me contive. Algo em seu olhar me deteve. O medo, um medo puro, físico, quase palpável. Ela afastou-se um passo antes mesmo que eu me movesse. E, naquele instante, compreendi: O problema não era comigo. Era ela! Era com o toque. De repente, tudo fez sentido, a distância, o olhar baixo, o corpo rígido. Mas que tipo de dor fazia alguém reagir assim? —Luciana, falei, com a voz mais calma do que imaginei ter. —Se precisar de um dia para resolver as coisas, pode tirar. Ela pareceu confusa. —Sem desconto? —Sem desconto! Quase sorriu, mas logo se conteve. —Obrigada, senhor Gutiérrez. Quando ela saiu, fiquei encarando a porta fechada. Há pessoas que atravessam sua vida sem deixar marcas. Outras, mal aparecem e já mudam tudo. Luciana Moreno não fazia ideia, mas naquele dia, algo dentro de mim começou a se mover. Algo que nem o dinheiro, nem o poder, nem o orgulho podiam controlar. Eu ainda não sabia o nome disso. Mas saberia em breve.






