Irina
Quando Viktor saiu do quarto, o silêncio tomou conta do hospital. Assim que a porta se fechou, senti as lágrimas voltarem. Eu sabia que não deveria chorar por um homem que havia me agredido, mas eram muitos anos ao lado dele.
Sete anos.
Eu lembrava do nosso primeiro beijo, da primeira vez que dissemos que nos amávamos, das noites em que ficávamos acordados fazendo planos para o futuro. Lembrava do dia em que conseguimos comprar a casa onde iríamos viver juntos. Era pequena, quase em ruínas, mas nós dois passamos meses reformando tudo.
Cada parede daquela casa tinha um pedaço da nossa história.
Eu lembrava de Viktor pintando a sala enquanto eu reclamava do cheiro da tinta. Lembrava dele rindo quando a tinta caiu no meu cabelo e de como passamos o resto da tarde tentando limpar aquilo.
Naquela época, tudo parecia simples.
Nós dois contra o mundo.
E agora…
agora eu mal conseguia reconhecer o homem que havia estado ao meu lado durante todos aqueles anos.
Essa era a parte mais assustadora.
Eu não sabia mais se as palavras dele eram sinceras ou apenas mais uma mentira.
Eu já estava me preparando para tentar dormir quando meu telefone tocou.
Era Victoria.
Atendi imediatamente.
Victoria:
— Irina, falei com o motorista que leva as roupas do hospital para a lavanderia. Ele concordou em ajudar. Vai buscar você amanhã às seis da manhã.
Meu coração acelerou.
Irina:
— Amanhã? Tão rápido assim?
Por alguns segundos ela ficou em silêncio.
Victoria:
— Você não está pensando em desistir, está?
Respirei fundo antes de responder.
Irina:
— Não… só estou tentando entender tudo isso.
Victoria continuou falando, agora com um tom que parecia ainda mais preocupado.
Victoria:
— Irina… preciso te contar uma coisa.
Meu corpo inteiro se enrijeceu.
Irina:
— O que foi?
Victoria:
— Algumas pessoas viram Viktor com Lorena novamente hoje.
As palavras me atingiram como um golpe.
As lágrimas voltaram imediatamente.
Algumas horas antes ele estava ali naquele quarto, dizendo que iria mudar. Pedindo outra chance. E, enquanto eu ainda pensava se deveria acreditar nele…
ele já estava novamente com aquela mulher.
Meu coração parecia se partir em silêncio dentro do peito.
Victoria:
— Amiga…
Respirei fundo, tentando manter a voz firme.
Irina:
— Avise o motorista que estarei esperando. Amanhã, às seis horas, nos fundos do hospital.
Victoria:
— Tem certeza?
Irina:
— Tenho.
Victoria suspirou do outro lado da linha.
Victoria:
— É a melhor decisão que você pode tomar. Você e seu bebê merecem uma vida longe de tudo isso.
Senti um nó apertar minha garganta.
Irina:
— Obrigada por me ajudar.
Victoria:
— A única coisa que quero é ver você feliz, mesmo que seja longe daqui.
Depois de mais alguns minutos, encerramos a ligação.
Fiquei olhando para o telefone por um longo tempo.
Eu sabia que não poderia levar nada comigo que permitisse que Viktor me encontrasse.
Antes de desligar o aparelho, abri nossa última conversa e comecei a escrever uma mensagem.
Uma despedida.
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Mensagem
Viktor,
Houve um momento em que eu realmente acreditei que nós dois ficaríamos juntos para sempre.
Nós crescemos lado a lado, construímos uma vida juntos e eu entreguei a você tudo o que tinha.
Ontem você veio até mim pedindo perdão e prometendo que mudaria. Eu quis acreditar. Mesmo depois de tudo que aconteceu, uma parte de mim ainda pensava em dar outra chance.
Mas hoje descobri que você estava novamente com Lorena.
Isso me fez entender que o homem que eu amei não existe mais.
Apesar de tudo, sou grata pelos anos que passamos juntos. Foram anos reais, cheios de sonhos e lembranças que sempre levarei comigo.
Nosso filho nascerá longe de tudo isso.
Eu prometo que ele terá uma vida feliz.
Talvez um dia eu conte a ele sobre o homem que você já foi — aquele rapaz que um dia me fez acreditar no futuro.
Mas ele nunca conhecerá o homem em que você se tornou.
Não me procure.
Irina.
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Quando terminei de escrever, salvei a mensagem para enviar pela manhã, pouco antes de desaparecer.
Coloquei o telefone sobre a mesa.
Meu coração ainda doía, mas pela primeira vez senti que estava tomando uma decisão por mim… e pelo meu filho.
Eu precisava recomeçar.
Mesmo que isso significasse deixar meu país para trás.
Enquanto pensava nisso, a porta do quarto se abriu suavemente.
A médica entrou.
Médica:
— Ainda está acordada?
Irina:
— Estou com dificuldade para dormir.
Ela observou meu rosto cansado por alguns segundos.
Médica:
— Vou trazer um medicamento para ajudar na dor. Talvez assim você consiga descansar um pouco.
Assenti lentamente.
Irina:
— Obrigada.
A médica saiu novamente do quarto.
Alguns minutos depois ela voltou com o medicamento e me entregou um copo de água.
Depois que ela saiu, apaguei a luz do quarto e me deitei novamente.
Fechei os olhos, tentando me preparar para o que viria pela manhã.
Porque, quando o sol nascesse…
eu deixaria aquele país para sempre.
E começaria uma nova vida longe de Viktor.