Ares
Eu já tinha problemas suficientes para resolver naquela manhã, e ainda surgiu mais um.
Um devedor.
Sempre existe um.
Homens que compram mercadoria sem ter como pagar são o tipo de gente que mais me irrita. Todos conhecem as regras.
Aqui ninguém recebe uma segunda chance.
Se alguém compra e não paga, o erro não é apenas de quem consumiu.
Também é de quem autorizou a venda.
Eu estava sentado atrás da mesa, no escritório, quando Giovani entrou.
— Já mandei trazer os dois — disse ele. — Mas tente manter a calma desta vez.
Soltei um riso curto.
— Manter a calma? Eles ignoraram uma ordem direta minha. Já deixei claro que ninguém entrega mercadoria a homens incapazes de pagar. Agora eu tenho um prejuízo de dez mil euros. O que você espera que eu faça? Finja que nada aconteceu?
Giovani cruzou os braços.
— Estou apenas dizendo para pensar antes de agir.
— Eu já pensei.
Poucos minutos depois, dois homens foram empurrados para dentro da sala.
O primeiro era o responsável pela entrega.
O segundo, o homem que havia recebido a mercadoria e não pagado.
Ambos estavam pálidos.
Nervosos.
Assustados.
Levantei devagar da cadeira.
O silêncio dentro da sala ficou pesado.
— Algum de vocês tem o meu dinheiro?
O homem encarregado da entrega apontou imediatamente para o outro.
— O problema é dele.
O devedor engoliu em seco.
— Consigo o dinheiro em dois dias.
Não respondi.
Apenas puxei a arma da cintura.
Dois tiros ecoaram pela sala.
Os corpos caíram no chão.
Guardei a arma.
— Problema resolvido.
Giovani passou a mão pelo rosto.
— Mais dois corpos para desaparecer.
— Livrem-se deles fora da cidade — respondi. — Não precisamos perder tempo enterrando lixo.
Ele me observou por alguns segundos.
— Às vezes eu me pergunto por que você é assim.
— Porque alguém precisa ser.
Eu tinha vinte e seis anos e estava no comando desde os dezoito.
Meu pai decidiu que estava cansado dessa vida e desapareceu para aproveitar o resto do mundo.
Talvez tenha sido melhor assim.
Se ele tivesse permanecido por perto, provavelmente teríamos acabado nos matando.
Eu ainda analisava alguns números quando a porta do escritório se abriu com violência.
Iolanda entrou como uma tempestade.
Minha mãe.
Os homens que estavam do lado de fora tentaram impedi-la, mas ninguém consegue parar Iolanda Marino quando ela decide entrar em algum lugar.
Ela olhou para o chão.
Viu os corpos.
Suspirou.
Iolanda:
— Ares… você matou o filho do comerciante da rua abaixo?
Suspirei.
Ares:
— Ele entregou mercadoria a um homem que não podia pagar. Conhecia as regras.
Ela me encarou.
Iolanda:
— Você poderia ter dado um prazo.
Ares:
— Mãe, não se envolva nos assuntos da organização.
Ela continuou me olhando por alguns segundos.
Então tirou o sapato e bateu com ele na minha cabeça.
Iolanda:
— Fale comigo com respeito.
Giovani virou o rosto para esconder o riso.
Ares:
— Isso realmente era necessário?
Iolanda:
— No dia em que você me vir de fato furiosa, vai desejar que tivesse sido só isso.
Ela se virou para Giovani.
Iolanda:
— E você? Por que não me avisou?
Giovani levantou as mãos.
Giovani:
— Porque eu não pretendia ficar na linha de fogo.
Ela apontou o dedo para mim.
Iolanda:
— Ele pode dar ordens a todos esses homens, mas a mim não dá.
Passei a mão pelo rosto.
Ares:
— O que veio fazer aqui?
Iolanda:
— Tentar salvar o rapaz.
Ela olhou novamente para os corpos no chão.
— Mas, como sempre, você foi mais rápido.
Ares:
— Ele conhecia as regras.
Iolanda:
— A cada dia você se parece mais com seu pai.
Giovani levantou as mãos, tentando aliviar a tensão.
Giovani:
— Que tal irmos almoçar?
Ares:
— Perdi o apetite.
Minha mãe cruzou os braços.
Iolanda:
— Não perdeu nada. Você vai se sentar à mesa comigo agora.
Ares:
— Mãe...
Iolanda:
— E vai pagar o funeral do rapaz. A família dele não tem recursos.
Soltei um suspiro contido.
Ares:
— Está bem.
Ela assentiu, satisfeita.
Iolanda:
— Ótimo. Então venha antes que eu precise usar o outro pé.
Giovani começou a rir enquanto saíamos da sala.
E, naquele momento, lembrei de uma coisa curiosa.
Eu podia comandar homens armados, territórios e negócios que movimentavam milhões.
Mas a única pessoa no mundo que ainda conseguia mandar em mim...
era minha mãe.