Victoria
Meu nome é Victoria. Tenho vinte e dois anos. Durante anos fui considerada a melhor amiga de Irina. Pelo menos era isso que ela acreditava.
A verdade, porém, é bem diferente.
Eu cresci ao lado dela. Sentava na mesma mesa da escola, caminhava pelas mesmas ruas, escutava todos os seus segredos. Irina sempre confiou em mim de um jeito quase ingênuo, como se acreditasse que a amizade entre nós fosse algo puro, inquebrável.
Ela nunca percebeu que, muitas vezes, enquanto falava sobre a vida dela, eu estava prestando atenção em outra coisa.
Em Viktor.
Eu me lembro exatamente da primeira vez que o vi. Ele ainda era apenas um garoto magro, com roupas simples demais para alguém da idade dele. Mas havia algo diferente no jeito como ele andava. Algo duro, frio, como se o mundo já tivesse tentado quebrá-lo várias vezes.
Talvez tenha sido isso que me chamou atenção.
Ou talvez tenha sido o fato de que ele nunca olhava para ninguém… exceto para Irina.
Quando percebi que Viktor estava interessado nela, algo dentro de mim se contorceu.
Irina nunca precisou lutar por nada. As pessoas simplesmente gostavam dela. Professores, colegas, vizinhos. Ela tinha aquele jeito doce, aquela facilidade em fazer os outros acreditarem que tudo ficaria bem.
E Viktor acreditou.
Ele se apaixonou por ela.
Quando começaram a namorar, eu pensei que aquilo não duraria. Pensei que Viktor acabaria percebendo que Irina era fraca demais para a vida que ele estava começando a construir.
Mas o tempo passou… e eles continuaram juntos.
Então eu fiz o que qualquer pessoa inteligente faria.
Esperei.
Continuei sendo a amiga perfeita.
A pessoa que escutava os desabafos dela. A que consolava quando Viktor passava noites fora de casa. A que dizia que tudo iria melhorar.
Irina nunca percebeu que, todas as vezes que falava sobre Viktor, eu escutava cada detalhe com uma atenção que não tinha nada de inocente.
Eu queria saber tudo sobre ele.
Como ele pensava.
Como ele reagia.
Como ele perdia o controle.
Porque, no fundo, eu sempre soube que um dia Viktor deixaria de ser apenas um garoto da escola.
E quando esse dia chegasse…
Eu estaria pronta.
Foi por isso que, quando descobri que Viktor estaria sozinho naquela noite em um dos clubes da organização, tomei uma decisão.
Liguei para Lorena.
Lorena era conhecida por todos os homens daquele mundo. Bonita, ambiciosa e completamente sem escrúpulos. Ela sempre se aproximava de quem tinha poder.
Eu sabia exatamente o tipo de mulher que ela era.
E sabia exatamente o que aconteceria se ela encontrasse Viktor sozinho.
Contei a ela onde ele estaria.
Contei a hora.
E depois desliguei o telefone.
Eu não precisei dizer mais nada.
Lorena faria o resto.
O que eu não imaginei era que Viktor perderia o controle daquela forma.
Quando Irina me ligou naquela noite, a voz dela estava quebrada.
Desesperada.
Eu reconheceria aquele tom em qualquer lugar.
Irina:
— Victoria… eu preciso de ajuda.
Fingi preocupação imediatamente.
— O que aconteceu?
Ela contou tudo entre soluços. Falou sobre Viktor, sobre Lorena, sobre o que havia visto no clube.
E depois disse as palavras que eu esperava ouvir há anos.
Ela queria fugir.
Enquanto Irina falava, fiz questão de manter a voz calma, preocupada, como qualquer amiga faria.
Mas, por dentro, algo dentro de mim sorria.
Quando desliguei o telefone, um sorriso escapou dos meus lábios sem que eu percebesse.
Irina finalmente estava saindo do caminho.
Peguei meu telefone novamente e procurei o contato de um homem que conhecia há algum tempo. Ele trabalhava transportando roupas sujas do hospital para uma lavanderia da cidade.
Se alguém quisesse sair de um hospital sem chamar atenção…
aquele seria o jeito mais fácil.
Ele atendeu depois de alguns toques.
— Alô?
— Preciso de um favor.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Depende do favor.
Expliquei que uma amiga estava em perigo. Disse que ela estava grávida e precisava sair discretamente da cidade. Inventei a história de um marido violento que poderia encontrá-la a qualquer momento.
Não era exatamente mentira.
Mas também não era a verdade completa.
Depois de alguns segundos pensando, ele suspirou.
— Amanhã cedo passo pelo hospital. Se ela estiver pronta, eu a levo.
— Obrigada.
Desliguei o telefone lentamente.
Caminhei até a janela do meu apartamento e observei as luzes da cidade.
Moscou parecia calma naquela noite.
Mas eu sabia que as coisas estavam mudando.
Irina desapareceria.
E Viktor…
ficaria sozinho.
E quando um homem poderoso fica sozinho, ele sempre procura alguém ao lado.
Eu apenas precisava ter paciência.
Viktor
Algumas horas depois, quando a médica finalmente decidiu avisar que Irina havia despertado, recebi a ligação do hospital.
O som do telefone parecia ecoar dentro da casa silenciosa.
Atendi imediatamente.
Quando ouvi a notícia, um peso enorme saiu do meu peito.
Irina estava viva.
Passei alguns minutos parado, olhando para o vazio da sala. A culpa ainda parecia esmagar meu peito, mas havia também um sentimento estranho de alívio.
Subi para o banheiro e liguei o chuveiro.
A água quente caiu sobre meus ombros enquanto eu tentava organizar os pensamentos.
Eu precisava vê-la.
Mas também precisava me controlar.
Irina não podia me ver como o homem que havia perdido o controle naquela noite.
Quando terminei o banho, vesti uma camisa limpa e peguei as chaves do carro.
O caminho até o hospital pareceu muito mais longo do que realmente era.
Quando finalmente cheguei, caminhei pelos corredores silenciosos até encontrar o quarto.
Respirei fundo antes de abrir a porta.
Irina estava acordada.
Sentada na cama.
O olhar dela era completamente diferente.
Frio.
Distante.
Irina:
— O que você está fazendo aqui?
A forma como ela falou fez algo apertar dentro do meu peito.
Viktor:
— Vim ver você.
Ela soltou uma pequena risada amarga.
Irina:
— Veio terminar o que começou naquela noite?
A culpa atravessou meu peito como uma lâmina.
Viktor:
— Aquela é a nossa casa… a nossa vida.
Irina balançou a cabeça lentamente.
Irina:
— Não existe mais “nós”, Viktor.
Aquelas palavras me atingiram com força.
Por um instante, fiquei sem saber o que dizer.
Viktor:
— Eu cometi um erro. Mas você sabe tudo o que já passamos juntos. Isso não pode simplesmente acabar assim.
Ela respirou fundo antes de responder.
Irina:
— Você me bateu.
A voz dela estava firme.
Irina:
— Eu fiquei uma semana inconsciente. Eu poderia ter perdido meu filho.
Meu filho.
O peso daquela palavra caiu sobre mim como uma pedra.
Passei a mão pelo rosto.
Viktor:
— Eu estava fora de mim. Eu não lembrava direito do que estava fazendo.
Dei um passo mais perto.
— Por favor… me dê uma chance de consertar tudo.
Irina me encarou em silêncio.
Não havia mais confiança naquele olhar.
Irina:
— Eu não confio mais em você.
Aquilo doeu mais do que qualquer coisa.
Mais do que qualquer inimigo.
Mais do que qualquer ameaça.
Viktor:
— Pense com calma. Eu volto amanhã para conversarmos.
Ela permaneceu quieta por alguns segundos.
Depois respondeu com a voz fria.
Irina:
— Faça o que quiser.
Fiquei parado por um momento.
Observando ela.
Observando a barriga dela.
Ali estava o meu filho.
Uma vida que ainda não havia começado… e que já estava marcada pelos meus erros.
Aproximei-me lentamente.
Olhei para a barriga dela.
Uma mistura de culpa, medo e esperança apertava meu peito.
Apesar de tudo o que eu havia feito…
Eu ainda amava Irina mais do que qualquer coisa.