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CAPÍTULO 3 - SANGUE NO CORREDOR

As escadas eram estreitas, o metal frio sob os pés descalços de Aria. Cada degrau ecoava, mesmo com os híbridos tentando se mover em silêncio. O som das botas dos guardas crescia atrás deles, acompanhado por gritos abafados e o zumbido eletrônico de drones sendo ativados.

Aria corria na frente, o coração batendo tão forte que ela mal conseguia ouvir seus próprios pensamentos. Atrás dela, Kael liderava os outros, a presença dele como uma sombra massiva que engolia o corredor.

— Quantos níveis até o térreo? — A voz de Lira cortou o ar, ofegante mas controlada.

— Sete. — Aria olhou para cima, vendo a espiral de metal que parecia não ter fim. — Mas tem saídas intermediárias. Podemos tentar—

— Não. — Kael a interrompeu, a voz grave reverberando nas paredes. — Vamos direto. Qualquer desvio nos deixa presos.

— Mas se eles bloquearem o térreo—

— Então a gente quebra o bloqueio. — Ele passou por ela em dois passos largos, assumindo a frente. — Fiquem perto. Se alguém ficar para trás, não espero.

Tor bufou atrás deles.

— Que líder gentil você é, Kael.

— Não sou líder. — Kael nem olhou para trás. — Sou sobrevivente. E vocês também vão ser, se fizerem o que eu digo.

Aria engoliu seco, forçando as pernas a acompanharem o ritmo brutal. Os músculos queimavam, os pulmões ardiam, mas ela não podia parar. Não agora.

Eles desceram três níveis em minutos que pareciam horas. O som dos alarmes era ensurdecedor, as luzes vermelhas piscando em um ritmo que fazia os olhos doerem. E então—

Uma porta se abriu no patamar abaixo.

Três guardas surgiram, uniformes pretos, armas erguidas.

— Alto! — O primeiro gritou, o rifle apontado direto para Kael. — No chão! Todos!

Kael não parou.

Ele acelerou.

O guarda disparou.

A bala ricocheteou no corrimão de metal, faíscas explodindo no ar. Aria gritou, se jogando contra a parede. Mas Kael? Ele saltou.

Foi um movimento impossível — ele pulou sobre o corrimão, os músculos flexionando enquanto o corpo girava no ar. Ele caiu sobre o primeiro guarda com a força de um martelo, os dois desabando no chão em um emaranhado de membros.

O segundo guarda girou, tentando mirar, mas Lira já estava em movimento. Ela deslizou entre as pernas dele, ágil como sombra, e chutou a parte de trás dos joelhos. O homem caiu, a arma voando de suas mãos.

O terceiro hesitou — erro fatal.

Tor avançou como um trem desgovernado, o ombro colidindo com o peito do guarda. O som de ossos quebrando ecoou no corredor, e o homem caiu, inconsciente antes de tocar o chão.

Tudo aconteceu em segundos.

Quando Aria conseguiu descer os degraus, tremendo, os três guardas estavam no chão. Um inconsciente. Outro gemendo, o braço em um ângulo estranho. O terceiro—

Kael estava sobre ele, uma das mãos no pescoço do homem, a outra erguida, os dedos curvados como garras prontas para rasgar.

— Kael, não! — A voz de Lira cortou o silêncio, aguda e urgente.

Ele parou, os olhos âmbar brilhando com algo selvagem, quase fora de controle.

— Por que não? — A voz dele era um rosnado. — Eles teriam nos matado.

— Eu sei. — Lira se aproximou devagar, as mãos erguidas. — Mas você não é como eles. Não é uma arma. Não mais.

Kael olhou para ela, então para o guarda sob ele. O homem estava aterrorizado, os olhos arregalados, a respiração rápida e superficial.

Por um longo momento, ninguém se moveu.

Então Kael soltou o guarda, empurrando-o para o lado com um grunhido de desgosto. O homem rastejou para longe, ofegante, e Kael virou-se, limpando as mãos na calça rasgada como se o toque tivesse sido contaminante.

— Peguem as armas. — Ele apontou para os rifles no chão. — Vamos precisar.

Tor pegou um, verificando o carregador com movimentos práticos. Lira pegou outro, o peso da arma familiar em suas mãos. Um terceiro híbrido — um macho magro com olhos nervosos que Aria ainda não conhecia o nome — hesitou antes de pegar o último rifle.

Aria ficou parada, as mãos vazias.

— Você não sabe atirar? — Tor perguntou, o tom zombeteiro.

— Não. — Ela encontrou o olhar dele, recusando-se a desviar. — Nunca precisei aprender.

— Claro. — Ele cuspiu no chão. — Cientistas não sujam as mãos. Só assistem enquanto outros fazem o trabalho sujo.

As palavras cortaram, mas Aria não respondeu. Não havia nada que ela pudesse dizer que mudasse a verdade.

Kael pegou uma faca do cinto de um dos guardas, testando o peso na mão. Então a estendeu para Aria.

— Pegue.

Ela olhou para a lâmina, então para ele.

— Eu não sei usar isso.

— Então aprenda rápido. — Ele forçou a faca na mão dela, os dedos dele roçando os dela por um segundo. O toque era quente, áspero, e Aria sentiu um arrepio que não era só de medo. — Se alguém vier, você enfia isso em qualquer lugar macio. Pescoço, barriga, olhos. Não hesite.

Aria engoliu seco, os dedos fechando ao redor do cabo.

— Eu vou tentar.

— Não tente. — Os olhos âmbar dele a prenderam. — Faça. Porque se você hesitar, você morre. E eu não vou estar lá para te salvar toda vez.

Antes que ela pudesse responder, o som de mais botas ecoou acima deles. Muitas. Vindo rápido.

— Movam-se! — Kael virou-se, descendo as escadas em passadas largas.

Eles correram.

Quatro níveis. Três. Dois.

O som dos perseguidores nunca diminuía. Se algo, ficava mais perto. E então Aria ouviu outro som — mecânico, agudo, familiar.

Drones.

— Eles mandaram os drones! — Ela gritou, olhando para cima. As pequenas máquinas voadoras desciam pela abertura central da escada, luzes vermelhas piscando, câmeras focadas.

— Quantos? — Kael não parou de correr.

— Três— não, quatro!

— Merda. — Lira ergueu o rifle, mirando enquanto corria. O primeiro tiro errou, o segundo acertou um drone de raspão, fazendo-o girar descontroladamente antes de se estabilizar.

Tor parou, plantou os pés, e disparou três vezes. O primeiro drone explodiu em faíscas e fumaça. O segundo caiu, a hélice danificada. Mas o terceiro e o quarto continuaram descendo, agora com armas próprias se estendendo de compartimentos ocultos.

— Cobertura! — Kael empurrou Aria para trás de um pilar de sustentação no momento em que os drones abriram fogo.

Balas ricochetearam no metal, o som ensurdecedor. Aria se encolheu, as mãos cobrindo a cabeça, o corpo tremendo. Kael estava à sua frente, o corpo dele servindo de escudo, os ombros largos bloqueando qualquer linha de tiro.

— Fica baixa. — Ele rosnou, depois saltou.

Foi suicida. Rápido. E absolutamente letal.

Ele agarrou o corrimão, balançou o corpo, e se lançou no ar. As mãos dele fecharam ao redor do drone mais próximo, arrancando-o do ar com força bruta. Ele o esmagou contra a parede, metal rangendo e quebrando sob os dedos dele.

O último drone hesitou — erro fatal.

Lira disparou, o tiro preciso acertando o centro. A máquina caiu como pedra, desabando nos degraus abaixo.

Silêncio.

Apenas por um segundo.

— Vamos! — Kael já estava descendo novamente, Aria tropeçando atrás dele.

Um nível. Então o térreo.

A porta era pesada, reforçada, mas não trancada. Kael a abriu com um chute, e eles saíram para um corredor largo que Aria reconheceu — o acesso ao estacionamento de veículos de carga.

— Por ali. — Ela apontou para a esquerda. — Tem uma saída que leva direto para fora do complexo.

— Guardas? — Kael perguntou enquanto corriam.

— Provavelmente. Mas menos que em qualquer outro lugar.

Eles viraram a esquina—

E pararam.

No fim do corredor, bloqueando a única saída, havia algo que fez o sangue de Aria congelar.

Não eram guardas.

Eram Caçadores.

Três deles. Altos, cobertos por armaduras pretas que reluziam sob as luzes de emergência. Os olhos brilhavam em vermelho artificial, e armas estavam integradas nos braços — canhões que podiam despedaçar carne e osso em um segundo.

Híbridos. Mas desprovidos de alma. Programados apenas para matar.

— Filhos da puta. — Tor cuspiu, erguendo o rifle.

— Não atirem. — Kael ergueu a mão, a voz baixa mas firme. — Balas não funcionam neles. Eu sei. Já tentei.

— Então o que fazemos? — Lira sussurrou, os olhos fixos nos Caçadores que começavam a avançar, os passos pesados e mecânicos.

Kael olhou para os lados. Não havia outra saída. Não havia cobertura. Apenas o corredor, os Caçadores, e a promessa de violência.

Ele virou-se para Aria, e pela primeira vez, ela viu algo nos olhos dele que não era raiva.

Era uma ordem.

— Você disse que sabe como sair daqui. — A voz dele era baixa, urgente. — Então quando eu disser, você corre. Não olha para trás. Não espera. Só corre.

— Mas—

— Não discuta. — Ele a agarrou pelos ombros, os dedos apertando com força. — Você nos tirou daquelas celas. Agora deixa a gente fazer o que fomos criados para fazer.

Aria olhou para os outros híbridos. Lira assentiu, o rifle firme nas mãos. Tor bateu os punhos, o maxilar apertado. Até o híbrido magro e nervoso parecia preparado, os olhos brilhando com determinação.

E Kael? Ele a soltou, virou-se para os Caçadores, e rugiu.

Foi um som que fez as paredes tremerem. Um desafio. Uma declaração.

Os Caçadores aceleraram, os canhões carregando com um zunido elétrico.

— Agora!— Kael gritou.

E o corredor explodiu em caos.

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