O casamento civil acontece numa segunda-feira chuvosa, num cartório de subúrbio escolhido por sua discrição e por um juiz de paz que deve favores a Dante. Não há música. Não há flores. O cheiro no ar é de mofo e papel velho.
Estamos os quatro: Dante, eu, Heloísa e o chefe de segurança, Torres, como testemunhas obrigatórias. Heloísa veste um tailleur cinza, seu rosto uma máscara de profissionalismo ácido. Torres olha para a parede, suas mãos grandes penduram inertes ao lado do corpo. Parece mais um escolta do que uma testemunha.
— Lara não está. “Uma gripe forte”. — Minto para ela na manhã anterior, meu coração é um nó de culpa. Ela fica decepcionada, mas aceita.
— “Traga fotos!”, pede, seus olhos ainda brilham com a fábula do nosso amor relâmpago.
O juiz, um homem de meia-idade com um sotaque carregado, lê os artigos da lei com a empolgação de quem recita a lista de compras. Suas palavras ecoam na sala vazia. “Capacidade… livre consentimento… comunhão plena de vida…”
Cada termo é um