####CAPÍTULO 03

A mansão erguia-se no topo da colina como uma fortaleza silenciosa, cercada por muros imponentes e portões de ferro que se fechavam atrás do carro com um estrondo metálico.

A iluminação discreta realçava a imponência do lugar, em contraste com o caos que Carmen carregava consigo.

— No banco de trás, seu corpo frágil repousava sob o paletó de Giovanni, inconsciente, enquanto o motorista conduzia em silêncio absoluto.

Assim que o carro parou diante da entrada principal, Giovanni desceu com passos firmes.

—Sua voz ecoou pelo vasto saguão:

— Francesca.

— Sim, senhor — respondeu ela.

Giovanni indicou a jovem desmaiada.

— Cuide dela agora, não lhe deixe faltar nada.

— Sim senhor.

—Leve-a ao quarto de hóspedes. Um banho, roupas limpas.

Ele hesitou por um instante, avaliando.

— Deve ter um corpo semelhante ao da Antonella… minha prima, ainda há roupas dela aqui?

Francesca assentiu.

— Sim, senhor, deixou várias coisas na última visita.

— Use o que for adequado, seu olhar desceu para Carmen — dê um banho caprichado, ela passou por muito.

— Giovanni afrouxou o colarinho da camisa, sentindo o cheiro da rua, da chuva e do desespero impregnado em sua pele.

— Vou me limpar também, o doutor está a caminho.

Enquanto Francesca e outra funcionária levavam Carmen cuidadosamente escada acima, Luca se aproximou do irmão, voz baixa e olhar desconfiado:

— Não acha tudo isso conveniente demais? Uma mulher surgindo do nada, se jogando na frente do seu carro… pode ser coisa do Rivera.

Giovanni demorou a responder, mas sua voz saiu seca:

— Ninguém representa o desespero daquele jeito. Aquilo não foi teatro, se fosse uma armadilha, não seria tão… cru.

Luca não insistiu, mas manteve-se alerta.

Giovanni subiu, tomou um banho rápido, deixando a água quente escorrer como se pudesse lavar o peso daquela noite.

—Vestiu um terno escuro impecável e desceu no momento exato em que o médico chegava.

No quarto de hóspedes, Carmen já estava acordada.

— Os cabelos úmidos caíam sobre os ombros, a camisola clara realçava sua fragilidade.

Sentada na cama, segurava uma tigela de caldo quente.

— O rosto pálido, os olhos verdes atentos e assustados — como um animal acuado prestes a fugir.

O médico se aproximou com delicadeza.

— Pode me contar o que aconteceu?

A voz de Carmen saiu baixa, entrecortada:

— Faz… dois dias que fugi, meu pai morreu… eu enterrei meu pai… e quando voltamos para casa… eles estavam lá, minha madrasta… me vendeu.

O médico anotava enquanto examinava seus pés — feridos, cobertos de cortes e bolhas.

— Fugiu descalça — explicou Francesca.

— Os sapatos ficaram na casa.

— Está subnutrida e desidratada — murmurou o médico.

Giovanni entrou, o som de seus passos fez Carmen erguer os olhos, olhar dele encontrou o dela — firme, avaliador, mas sem dureza.

— Qual é o seu nome?

— Carmen Rivera senhor— respondeu, quase em sussurro.

— O que aconteceu com você?

O médico interveio:

— Senhor, não pressione, ela está muito nervosa vou dar um calmante leve, e os pés estão em estado crítico.

Giovanni observou os curativos improvisados.

— Francesca, traga pantufas, nada deve tocar nesses pés. Providencie tudo o que for necessário.

Carmen respirou fundo, mãos trêmulas.

— Eu… não posso ficar aqui, eles vão vir atrás de mim e não quero prejudicar o senhor.

Giovanni cruzou os braços, voz controlada:

— E vai se esconder onde, nas ruas novamente? Do jeito que estava, foi pega em dois dias, e agora não vai durar um dia!

— Só preciso… me recuperar um pouco, e depois vou embora, voltarei a me esconder.

As lágrimas escorreram quando ela continuou:

— Minha madrasta… Elizabeth, simplesmente quando voltamos do cemitério, mandou que eu fosse arrumar minhas coisas, pois meus patrões tinham vindo me buscar.

E foi aí que ouvi quando ela perguntou se eles tinham trazido o dinheiro dela, o "pagamento".

— Vinte mil dólares, disse que eu ia render bem, garantiu minha pureza, porque ela nunca tinha me dado folga.

Giovanni fechou os olhos, murmurando em italiano:

— Maledetta…

O silêncio pesou no quarto, Carmen soluçava.

— Nem tive tempo de chorar pelo meu pai.

Giovanni se aproximou, voz grave:

— Você não vai a lugar nenhum. Vai ficar aqui. E eu vou resolver isso.

— Por favor… não quero que se prejudique por minha causa.

Ele inclinou-se, firme:

— Eu sei exatamente quem eram aqueles homens. Sei o que pretendiam. Por isso, agora o seu problema também é meu.

O médico preparava a injeção. Carmen tentou protestar, mas Giovanni foi calmo e implacável:

— Você vai dormir. Precisa. Está à beira de um colapso.

A respiração dela foi ficando lenta, os olhos pesados até se fecharem. O quarto mergulhou em silêncio.

Giovanni voltou-se para o médico.

— Eles chegaram a tocar nela?

— Não. Mas se tivessem… o futuro dessa menina seria devastador. Está profundamente traumatizada.

Giovanni assentiu, maxilar rígido.

— Isso não vai ficar assim.

E, pela primeira vez naquela noite, alguém estava realmente disposto a cumprir essa promessa.

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