Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mansão erguia-se no topo da colina como uma fortaleza silenciosa, cercada por muros imponentes e portões de ferro que se fechavam atrás do carro com um estrondo metálico.
A iluminação discreta realçava a imponência do lugar, em contraste com o caos que Carmen carregava consigo. — No banco de trás, seu corpo frágil repousava sob o paletó de Giovanni, inconsciente, enquanto o motorista conduzia em silêncio absoluto. Assim que o carro parou diante da entrada principal, Giovanni desceu com passos firmes. —Sua voz ecoou pelo vasto saguão: — Francesca. — Sim, senhor — respondeu ela. Giovanni indicou a jovem desmaiada. — Cuide dela agora, não lhe deixe faltar nada. — Sim senhor. —Leve-a ao quarto de hóspedes. Um banho, roupas limpas. Ele hesitou por um instante, avaliando. — Deve ter um corpo semelhante ao da Antonella… minha prima, ainda há roupas dela aqui? Francesca assentiu. — Sim, senhor, deixou várias coisas na última visita. — Use o que for adequado, seu olhar desceu para Carmen — dê um banho caprichado, ela passou por muito. — Giovanni afrouxou o colarinho da camisa, sentindo o cheiro da rua, da chuva e do desespero impregnado em sua pele. — Vou me limpar também, o doutor está a caminho. Enquanto Francesca e outra funcionária levavam Carmen cuidadosamente escada acima, Luca se aproximou do irmão, voz baixa e olhar desconfiado: — Não acha tudo isso conveniente demais? Uma mulher surgindo do nada, se jogando na frente do seu carro… pode ser coisa do Rivera. Giovanni demorou a responder, mas sua voz saiu seca: — Ninguém representa o desespero daquele jeito. Aquilo não foi teatro, se fosse uma armadilha, não seria tão… cru. Luca não insistiu, mas manteve-se alerta. Giovanni subiu, tomou um banho rápido, deixando a água quente escorrer como se pudesse lavar o peso daquela noite. —Vestiu um terno escuro impecável e desceu no momento exato em que o médico chegava. No quarto de hóspedes, Carmen já estava acordada. — Os cabelos úmidos caíam sobre os ombros, a camisola clara realçava sua fragilidade. Sentada na cama, segurava uma tigela de caldo quente. — O rosto pálido, os olhos verdes atentos e assustados — como um animal acuado prestes a fugir. O médico se aproximou com delicadeza. — Pode me contar o que aconteceu? A voz de Carmen saiu baixa, entrecortada: — Faz… dois dias que fugi, meu pai morreu… eu enterrei meu pai… e quando voltamos para casa… eles estavam lá, minha madrasta… me vendeu. O médico anotava enquanto examinava seus pés — feridos, cobertos de cortes e bolhas. — Fugiu descalça — explicou Francesca. — Os sapatos ficaram na casa. — Está subnutrida e desidratada — murmurou o médico. Giovanni entrou, o som de seus passos fez Carmen erguer os olhos, olhar dele encontrou o dela — firme, avaliador, mas sem dureza. — Qual é o seu nome? — Carmen Rivera senhor— respondeu, quase em sussurro. — O que aconteceu com você? O médico interveio: — Senhor, não pressione, ela está muito nervosa vou dar um calmante leve, e os pés estão em estado crítico. Giovanni observou os curativos improvisados. — Francesca, traga pantufas, nada deve tocar nesses pés. Providencie tudo o que for necessário. Carmen respirou fundo, mãos trêmulas. — Eu… não posso ficar aqui, eles vão vir atrás de mim e não quero prejudicar o senhor. Giovanni cruzou os braços, voz controlada: — E vai se esconder onde, nas ruas novamente? Do jeito que estava, foi pega em dois dias, e agora não vai durar um dia! — Só preciso… me recuperar um pouco, e depois vou embora, voltarei a me esconder. As lágrimas escorreram quando ela continuou: — Minha madrasta… Elizabeth, simplesmente quando voltamos do cemitério, mandou que eu fosse arrumar minhas coisas, pois meus patrões tinham vindo me buscar. E foi aí que ouvi quando ela perguntou se eles tinham trazido o dinheiro dela, o "pagamento". — Vinte mil dólares, disse que eu ia render bem, garantiu minha pureza, porque ela nunca tinha me dado folga. Giovanni fechou os olhos, murmurando em italiano: — Maledetta… O silêncio pesou no quarto, Carmen soluçava. — Nem tive tempo de chorar pelo meu pai. Giovanni se aproximou, voz grave: — Você não vai a lugar nenhum. Vai ficar aqui. E eu vou resolver isso. — Por favor… não quero que se prejudique por minha causa. Ele inclinou-se, firme: — Eu sei exatamente quem eram aqueles homens. Sei o que pretendiam. Por isso, agora o seu problema também é meu. O médico preparava a injeção. Carmen tentou protestar, mas Giovanni foi calmo e implacável: — Você vai dormir. Precisa. Está à beira de um colapso. A respiração dela foi ficando lenta, os olhos pesados até se fecharem. O quarto mergulhou em silêncio. Giovanni voltou-se para o médico. — Eles chegaram a tocar nela? — Não. Mas se tivessem… o futuro dessa menina seria devastador. Está profundamente traumatizada. Giovanni assentiu, maxilar rígido. — Isso não vai ficar assim. E, pela primeira vez naquela noite, alguém estava realmente disposto a cumprir essa promessa.






