Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som das risadas ainda zumbia nos meus ouvidos como um enxame de abelhas raivosas, picando cada terminação nervosa do meu corpo. Meus pés descalços batiam contra o cascalho frio do caminho que levava para fora do altar, mas eu mal sentia a dor. O gelo da rejeição pública anestesiava tudo, transformando minhas pernas em molas frouxas que ameaçavam ceder a qualquer segundo.
Minha respiração saía em baforadas trêmulas, cortando minha garganta como cacos de vidro. O vestido de noiva, antes símbolo de um sonho acalentado por anos, agora se arrastava na lama e nas folhas podres da floresta, rasgado e pesado. O tecido vermelho escuro — que eu escolhi achando que representava paixão — parecia agora um lembrete sangrento da minha própria estupidez. Como fui tão cega? A voz de Chloe ecoava na minha mente, misturada ao sorriso cínico de Caleb. Anos. Anos dedicados a cuidar daquela alcateia, a apoiar Caleb nas disputas de território, a engolir os comentários secos que ele fazia quando estava estressado, acreditando que era apenas o peso da liderança. E a minha "melhor amiga", a garota que dividia meus segredos mais íntimos, estava enfiada na cama dele por trás das minhas costas, arquitetando cada detalhe da minha humilhação. — Desgraçados... — sussurrei para a noite escura, sentindo uma lágrima quente rasgar a poeira e o suor na minha bochecha. Uma pontada aguda estalou no centro do meu peito, exatamente onde a marca da ligação com Caleb havia sido rompida à força. A ruptura da fita invisível que nos unia deixava um vazio corrosivo, um buraco negro que tentava sugar o resto das minhas forças. Minha loba interior, acuada no fundo da minha mente, choramingava em desespero, ferida e tonta com o choque da expulsão. O céu despencou em uma chuva torrencial bem na hora em que adentrei os limites da Floresta das Sombras. Aquela parte do território era evitada por todos na Lua Prateada. Os velhos contavam histórias de terror sobre árvores que sussurravam e monstros que vagavam na neblina, criaturas antigas que não respondiam às leis dos Alfas comuns. Mas, naquele momento, a morte nas garras de um monstro parecia infinitamente mais misericordiosa do que voltar para enfrentar os olhares de zombaria da minha antiga matilha. O vento uivava entre os galhos retorcidos, chicoteando meus cabelos ruivos contra o meu rosto. A lama engolia meus tornozelos, e o frio cortante da tempestade começou a congelar a pele molhada dos meus braços. Cada passo exigia uma força que eu já não tinha. — Vamos, Valerie... Não pare agora... — murmurei para mim mesma, os dentes batendo enquanto tropeçava em uma raiz grossa e caía de joelhos no chão lamacento. O impacto arrancou o pouco de ar que me restava. Fechei os olhos com força, permitindo que a frustração e a raiva explodissem em um soluço sufocado. Bati com os punhos fechados contra a terra úmida, sentindo a lama fria sob as minhas unhas. A humilhação queimava mais do que qualquer ferida física. Eles queriam que eu me arrastasse. Queriam que eu virasse motivo de piada, uma loba exilada e quebrada que morreria esquecida na lama. Eu não vou morrer aqui. O pensamento surgiu subitamente no fundo da minha mente, não como um sussurro meu, mas como um eco antigo, feroz, que sacudiu meus ossos. Uma onda de calor repentina, estranha e desconhecida, irradiou da base da minha espinha, aquecendo meu sangue gelado em questão de segundos. Meus olhos, normalmente castanhos, arderam com uma intensidade incomum, brilhando na penumbra da floresta como brasa viva. Forcei meu corpo a se erguer, apoiando-me no tronco grosso de um carvalho centenário. Foi então que eu ouvi. Não era o som do vento. Era um rosnado baixo, profundo, que parecia vibrar diretamente nas pedras sob meus pés. Um som magnético, carregado de uma autoridade tão brutal e avassaladora que fez os pelos dos meus braços arrepiarem instantaneamente. A neblina densa à minha frente começou a se dissipar, revelando a silhueta colossal de um lobo de pelagem escura como a noite, com olhos que queimavam com um brilho dourado intenso. Ele estava parado a poucos metros de mim, bloqueando o único caminho viável na ravina. E o pior: o cheiro dele — pinho queimado, fumaça e algo terroso e primitivo — preencheu o ar de uma forma tão avassaladora que paralisou cada músculo do meu corpo. Não era um batedor comum da Lua Prateada. Aquela presença exibia um poder infinitamente superior a qualquer coisa que Caleb jamais ousara sonhar em ter. O monstro deu um passo à frente, a musculatura poderosa contida sob o pelo escuro ondulando com a respiração. Minha garganta travou. Com as forças esgotadas e sem para onde correr, encarei os olhos dourados daquela criatura, sabendo que a minha fuga mal havia começado, e eu acabava de entrar direto na cova do verdadeiro predador.






