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Capítulo 3: Olhos Dourados na Escuridão

​O silêncio que se seguiu ao rosnado foi pesado, cortante, quase palpável. A criatura colossal de pelagem escura estava a poucos metros de mim, bloqueando o único caminho viável na ravina lamacenta. Meus pulmões queimavam pelo esforço da fuga e pelo ar rarefeito daquela floresta maldita. Eu não tinha para onde correr. Minhas pernas tremiam tanto que pareciam feitas de gelo derretido, e a dor no centro do meu peito, onde a marca da rejeição de Caleb havia sido arrancada à força, latejava como uma ferida aberta.

​— Vamos, acaba logo com isso — murmurei para a noite, fechando os olhos por um segundo e esperando o bote inevitável.

​Mas o golpe fatal não veio. Em vez de garras rasgando minha carne, o que senti foi uma mudança abrupta na pressão do ar. O cheiro de pinho queimado, fumaça e terra molhada intensificou-se a ponto de entupir meus sentidos, sufocando o cheiro de lama e chuva podre.

​Abri os olhos devagar. O lobo gigantesco já não estava lá. No lugar dele, envolto pelas sombras espessas da vegetação e pela neblina da tempestade, erguia-se um homem.

​O fôlego sumiu da minha garganta com tanta força que dei um passo instintivo para trás, minhas costas batendo contra o tronco áspero de uma árvore. Ele era avassalador. Devia ter pelo menos 1,93m de altura, com ombros incrivelmente largos que pareciam bloquear o resto do mundo. Os cabelos negros caíam levemente sobre a testa, molhados pela chuva, e seu peito nu exibia músculos definidos, esculpidos como em uma estátua de pedra. O que mais me assustou — e ao mesmo tempo me prendeu no lugar como se eu estivesse enfeitiçada — foram as tatuagens rúnicas escuras que serpenteavam por seus braços e peitoral, brilhando de forma quase imperceptível sob a luz fraca da lua.

​E os olhos dele. Ah, aqueles olhos. Eram de um dourado tão intenso, tão brilhante na penumbra, que pareciam queimar a minha alma.

​Ele não disse uma palavra. Apenas caminhou em minha direção com passos firmes, lentos, exalando um perigo primitivo que fazia cada célula do meu corpo gritar alerta. Mas, estranhamente, nenhuma parte de mim quis correr. Havia algo naquele olhar magnético que me desarmava, um contraste bizarro entre a brutalidade da sua presença e uma curiosidade silenciosa.

​— O que uma loba da Lua Prateada faz sozinha, sangrando e perdida na Floresta das Sombras, bem na noite em que deveria estar comemorando seu casamento? — A voz dele saiu grossa, rouca, raspando no ar como cascalho arrastado. Cada sílaba vibrava diretamente no meu estômago.

​O som daquela voz abriu a comporta de tudo o que eu vinha tentando segurar desde o altar. A traição de Caleb, a risada cínica de Chloe, a humilhação diante de toda a alcateia, o frio, a dor no peito. O veneno da raiva ferveu nas minhas veias, misturando-se à exaustão.

​— Não é da sua conta — cuspi as palavras, erguendo o queixo com o pouco de orgulho que me restava, embora minha voz tenha saído trêmula. — E se veio terminar o serviço, não precisa gastar energia. Já estou meio morta de qualquer jeito.

​O homem parou a poucos centímetros de mim. A proximidade dele era sufocante e quente, irradiando um calor físico que contrastava com a chuva gelada que ainda caía sobre nós. Ele franziu o cenho, os olhos dourados examinando cada centímetro do meu rosto manchado de lama e lágrimas, descendo lentamente pelo vestido de noiva rasgado e ensanguentado, até fixarem-se no centro do meu peito, bem onde a marca rompida pulsava.

​Um rosnado baixo vibrou na garganta dele, tão profundo que fez o chão tremer sob meus pés.

​— Rejeitada — ele murmurou para si mesmo, mais como uma constatação fria do que uma pergunta. O maxilar dele travou, e uma fúria repentina e gélida cruzou seu olhar, transformando o dourado dos olhos em algo ainda mais selvagem. — Aquele imbecil da Lua Prateada teve a audácia de rasgar os laços com você?

​Arregalei os olhos, surpresa por ele adivinhar tão rápido.

​— Você o conhece? — perguntei, a respiração curta.

​— Eu conheço a laia dos Alfas fracos daquela região — respondeu ele com um sorriso irônico e sombrio nos lábios finos, dando mais um passo à frente, fechando o espaço entre nós de vez. O peito dele roçou levemente no meu vestido encharcado. Senti um arrepio violento subir pela minha espinha, um calor estranho que me fez prender a respiração. — Eles não sabem o tesouro que jogam fora. Mas aqui, nas minhas terras, as regras são outras.

​Tentei me afastar, empurrando o peito dele com as duas mãos, mas meus braços fraquejaram contra a muralha de músculos firmes. Ele nem sequer recuou. Apenas ergueu uma das mãos grandes, calejadas, e com uma delicadeza surpreendente para alguém tão bruto, encostou a ponta dos dedos no meu queixo, forçando-me a erguer o rosto para encará-lo.

​— Qual é o seu nome, loba teimosa? — sussurrou ele, a boca perfeitamente próxima da minha, a ponto de eu sentir o calor da sua respiração misturada ao cheiro de pinho e terra.

​O estômago deu uma volta completa. O meu corpo, traído pela própria exaustão e por uma atração magnética inexplicável, começou a responder à presença daquele desconhecido perigoso de forma alarmante.

​— Valerie... — sussurrei, incapaz de desviar o olhar daquelas brasas douradas.

​Um canto da boca dele se curvou em um sorriso predador, misturado a uma promessa silenciosa que eu ainda não era capaz de entender.

​— Bem-vinda ao meu domínio, Valerie — ele disse, antes de me erguer facilmente nos braços como se eu não pesasse nada, ignorando meus protestos fracos. — Sou Dante. E você nunca mais vai precisar se arrastar na lama.

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