A sensação de estar sendo observada não me abandonou ao longo do dia. Não era paranoia; era instinto. Algo dentro de mim — talvez o mesmo algo que eu vinha ignorando há anos — insistia em dizer que o cerco estava se fechando.
Meu marido saiu cedo naquela manhã, sem dizer para onde ia. Deixou para trás a casa em silêncio, mas não o tipo de silêncio pacífico. Era um silêncio armado, carregado de intenção. Caminhei pelos cômodos tentando manter a rotina, mas cada objeto parecia fora do lugar, como se a própria casa tivesse percebido a mudança.
Meu corpo também parecia diferente. O cansaço não passava com o café, e um enjoo leve surgia e desaparecia sem aviso. Ignorei de novo. Eu vinha ignorando tantas coisas ultimamente que essa parecia apenas mais uma.
No meio da manhã, o celular vibrou.
Miguel.
“Ele voltou.”
Meu coração acelerou.
“Onde?”
“Aqui. De novo.”
Sentei-me devagar, sentindo o peso daquela insistência. Meu marido não era mais apenas desconfiado. Estava obcecado.
“O que ele quer?