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Capítulo 3: A Mulher do Passado

POV: Lorenzo De Luca

Sofia Moretti sempre soube exatamente quando aparecer. Naquela noite, quando voltei da Villa Bellini, ela já me esperava no apartamento que eu mantinha no centro de Milão. Aquele lugar não era a minha casa; minha verdadeira casa era a mansão De Luca, um lugar de corredores largos, retratos antigos e paredes pesadas demais para permitir qualquer tipo de paz. Aquele apartamento, por outro lado, era diferente. Era moderno, alto, silencioso e completamente desprovido de quadros de família ou de empregados antigos que me observavam como se estivessem procurando o fantasma do meu pai em mim. Sofia gostava dali; dizia que, naquele espaço, eu parecia menos um Don e mais um homem.

Quando entrei, encontrei-a perto da janela. Ela usava um vestido branco curto e segurava uma taça de vinho. Seus cabelos loiros caíam perfeitamente arrumados sobre um dos ombros, como se ela tivesse acabado de sair de uma sessão de fotos. Ela se virou assim que ouviu o barulho da porta.

— Você demorou — pontuou ela. Não havia uma pergunta em sua voz, apenas cobrança.

Tirei o paletó e o joguei sobre o sofá, exausto. — A reunião foi longa.

Sofia pousou a taça sobre a mesa e caminhou calmamente até mim. O perfume dela era familiar: caro, marcante e sedutor. Durante anos, aquele cheiro significou o meu único alívio em meio ao caos. Naquela noite, porém, algo parecia fora do lugar. Talvez fosse o peso da assinatura ainda fresca no contrato, ou talvez fosse a lembrança do olhar de Bianca Bellini quando me pediu apenas respeito. Sofia parou bem diante de mim, quebrando a distância.

— Então é verdade? — perguntou.

Afrouxei o nó da gravata, sentindo o ar faltar. — O contrato será cumprido.

Os olhos azuis dela se estreitaram imediatamente. — Você vai mesmo se casar com ela.

Não respondi de imediato, e o meu silêncio bastou como confirmação. Sofia soltou uma risada curta e amarga, balançando a cabeça.

— Inacreditável.

— Eu não tive escolha, Sofia.

— Você é Lorenzo De Luca — rebateu ela, elevando o tom. — Desde quando ser quem você é significa não ter escolha?

A frase acertou mais fundo do que deveria, talvez porque quase todo mundo acreditasse nisso: que o meu poder era absoluto, que bastava eu ordenar e o mundo se dobraria aos meus pés. Ninguém entendia que um império como o meu era construído sobre correntes, algumas feitas de ouro, outras forjadas em sangue.

— Existem coisas que são muito maiores do que a nossa própria vontade — respondi, mantendo o tom controlado.

Sofia cruzou os braços e desviou o olhar para a linha do horizonte da cidade.

— Coisas como a tradição?

— Coisas como uma guerra.

— Sempre existe uma desculpa conveniente quando os homens escolhem o poder — alfinetou ela.

Aproximei-me, incomodado com a acusação. — Você realmente acha que eu estou escolhendo isso?

— Você está assinando um contrato de casamento com outra mulher, Lorenzo.

— Estou fazendo isso para impedir que as nossas famílias se destruam mutuamente.

— E eu? — ela questionou, virando-se abruptamente para mim, com os olhos marejados. — Onde é que eu fico nessa sua decisão tão nobre?

Eu quis responder. Quis dizer que ela continuava sendo a única mulher que eu amava, que aquele casamento arranjado não mudaria nada entre nós e que Bianca Bellini seria apenas um nome sem significado em um pedaço de papel. Mas, pela primeira vez na vida, as palavras pareceram pequenas e falsas demais para serem ditas. Mesmo assim, eu insisti:

— Você sabe perfeitamente o que representa para mim.

Sofia me encarou por alguns segundos em silêncio. Depois, aproximou-se e tocou o meu rosto com delicadeza.

— Sei? — Sua voz ficou mais baixa, quase um sussurro perigoso. — Porque, do lugar onde eu estou, parece que outra mulher vai dormir na sua casa, usar o seu sobrenome e se sentar ao seu lado em todos os eventos da família.

Segurei o pulso dela, afastando sua mão com firmeza, mas sem soltá-la. — Ela nunca terá o meu coração.

Sofia sorriu. Não foi um sorriso feliz, mas sim o de uma vitória parcial, como se aquela promessa fosse exatamente o que ela precisava extrair de mim.

— Promete?

Eu deveria ter percebido a armadilha implícita ali. Mas, quando você ama uma ilusão por tempo demais, qualquer exigência disfarça-se de prova de afeto.

— Prometo.

Ela se aproximou e me beijou. O beijo tinha gosto de vinho, urgência e medo. Retribuí porque era muito mais fácil me entregar àquele momento do que parar para pensar; mais fácil do que lembrar do jardim chuvoso da Villa Bellini e muito mais fácil do que ouvir novamente a voz calma de Bianca dizendo: "Não me humilhe em público". Sofia se afastou primeiro, quebrando o contato.

— Quero que ela saiba — disparou.

Franzi a testa, confuso. — Saiba o quê?

— Que esse casamento de vocês não significa absolutamente nada.

Meu maxilar travou instantaneamente. — Eu não vou expor os nossos assuntos privados.

Ela riu, sarcástica. — Agora você se preocupa com a reputação dela?

— Eu me preocupo com a estabilidade das famílias, Sofia.

Sofia deu um passo para trás, visivelmente irritada. — Claro. Sempre a família, sempre o nome, sempre o dever.

Havia raiva nela, mas também algo que eu não consegui decifrar de imediato. Não era apenas ciúme; era orgulho ferido. Sofia gostava de ser a escolhida, gostava de ser o centro do meu universo. E, mesmo que eu não amasse Bianca, o mundo veria outra mulher ao meu lado a partir de agora. Para Sofia, aquilo soava como uma derrota pública.

— O casamento será apenas uma fachada — reiterei.

— Fachadas têm o péssimo hábito de parecerem reais demais para quem está olhando de fora.

— Sofia, por favor...

— Não — ela me cortou enfaticamente. — Eu preciso saber se devo continuar esperando por você ou se estou apenas perdendo o meu tempo.

A pergunta pairou pesadamente no ar entre nós. A parte sensata de mim sabia que eu deveria libertá-la, dizer que ela não deveria esperar por um homem acorrentado a um contrato e que a minha vida era complicada demais para promessas limpas. No entanto, eu fui egoísta. Sempre fui. E, naquela época, eu ainda confundia amor com posse.

— Espere por mim — respondi.

Sofia ficou em silêncio por um instante e, então, sorriu de forma mais suave. — Então me prove.

— Como?

Ela caminhou até a mesa e pegou a taça de vinho novamente. — Depois do casamento, não mude comigo.

— Não vou mudar.

— Leve-me aos mesmos lugares onde sempre me levou. Atenda às minhas ligações. Venha até mim sempre que eu chamar.

Observei-a em silêncio por alguns instantes. A minha racionalidade gritava que aquilo era perigoso, mas o meu orgulho não me permitia admitir o risco.

— Você está me pedindo para tratar a minha futura esposa como uma perfeita estranha.

Sofia inclinou a cabeça, com um olhar cínico. — Mas ela já não é?

A resposta veio fácil e fria na minha mente. — Sim.

E foi exatamente assim que comecei a destruir o meu casamento antes mesmo de ele passar a existir.

Voltei para a mansão De Luca pouco antes do amanhecer. A propriedade estava silenciosa e fria, como sempre. Matteo já me esperava no salão principal, sentado em uma poltrona próxima à lareira apagada. Ele não parecia nem um pouco surpreso com o meu horário.

— Estava com a Sofia — afirmou. Não era uma pergunta.

Passei direto por ele, sem diminuir o passo. — Não tenho tempo para os seus sermões agora, Matteo.

— Então arrume tempo para lidar com as consequências — rebateu ele.

Parei abruptamente no meio do salão e virei-me lentamente para encará-lo. — Cuidado com o tom, Matteo.

Ele se levantou da poltrona, mantendo a postura impecável. — Seu pai me pediu para cuidar desta família. Isso inclui dizer verdades incômodas quando ninguém mais tem coragem de fazer isso.

— O contrato foi devidamente assinado e a paz está preservada — retruquei.

— A paz entre as famílias, talvez. Mas não a paz dentro da sua própria casa.

Soltei uma risada fria e desdenhosa. — A minha casa ficará exatamente da forma que eu determinar.

— Bianca Bellini não tem culpa nenhuma por esse contrato existir.

A simples menção ao nome dela me causou um incômodo inexplicável. — Ela também assinou o documento.

— Porque ela foi criada para obedecer ao pai, Lorenzo. Assim como você foi criado para obedecer aos desejos dos mortos.

Aproximei-me dele de forma intimidadora. Qualquer outro homem teria baixado os olhos diante da minha presença, mas Matteo não recuou um centímetro.

— Você está ultrapassando os limites.

— Estou tentando impedir que você ultrapasse os seus.

O silêncio entre nós tornou-se sufocante. Matteo conhecia o meu pai, conhecia o meu avô e sabia de todos os erros que os homens da linhagem De Luca haviam cometido em nome do orgulho. Talvez fosse por isso que a presença dele me irritasse tanto: ele enxergava longe demais.

— Bianca lhe pediu respeito — disse ele, de repente.

Meus olhos se estreitaram. — Você estava espionando a nossa conversa?

— Eu não precisei ouvir. Ela tem os olhos de quem sabe que vai sofrer e, mesmo assim, decidiu manter a cabeça erguida.

Eu detestei ouvir aquilo. Detestei porque, no fundo, sabia que era a mais pura verdade, e eu sempre odiei quando a verdade vinha de alguém que eu não podia simplesmente mandar calar a boca.

— Ela terá segurança, dinheiro e uma posição de destaque — respondi, tentando justificar a mim mesmo.

— Isso não é respeito, Lorenzo. Isso é apenas manutenção.

— Não me peça para amar uma mulher que eu não escolhi.

— Eu não estou lhe pedindo amor — Matteo concluiu, com a voz grave. — Estou lhe pedindo honra.

Honra. Mais uma palavra pesada. Mais uma corrente dourada para carregar. Virei-me de costas e comecei a subir os degraus da grande escadaria.

— O casamento será em três semanas. Providencie todos os detalhes restantes com os Bellini.

— E quanto à Sofia? — a pergunta dele me travou no lugar.

Parei no primeiro degrau, sem me virar. — O que tem ela?

— Você vai continuar mantendo-a por perto?

A resposta correta deveria ter sido um não categórico. Naquele momento, talvez ainda houvesse uma chance real de minimizar os danos futuros. No entanto, o meu orgulho falou muito mais alto do que a minha consciência.

— A minha vida pessoal não diz respeito à Bianca.

Matteo soltou um suspiro baixo e cansado.

— Um dia, Lorenzo, você vai descobrir que tudo o que um homem faz depois do casamento diz respeito à sua esposa.

Não respondi. Continuei subindo as escadas em silêncio. No corredor do segundo andar, parei por um breve instante diante do retrato do meu pai. Giovanni De Luca olhava para mim de dentro da moldura, com a mesma severidade implacável de sempre.

Durante anos, tentei ser digno daquele olhar severo. Naquela madrugada, porém, pela primeira vez na vida, perguntei-me se a verdadeira dignidade significava cumprir promessas antigas forjadas no sangue ou proteger alguém inocente das garras delas. Mas a dúvida durou pouco dentro de mim. Um Don da linhagem De Luca simplesmente não podia se dar ao luxo de hesitar diante do dever.

Entrei no meu quarto e fechei a porta, tentando deixar o resto do mundo do lado de fora. Foi então que, sobre a cômoda, a tela do meu celular acendeu no escuro, quebrando a penumbra. Era uma nova mensagem de Sofia: "Não deixe que ela tome o meu lugar". Li a frase uma vez. Depois li outra, sentindo o peso daquela cobrança. Respondi de imediato, quase sem pensar, movido por um impulso de posse: "Ela nunca tomará".

Naquela época, eu realmente acreditava piamente nisso. Acreditava, na minha arrogância, que o coração humano era um território fixo e imutável, capaz de ser ocupado uma única vez na vida. Tinha a plena certeza de que Bianca Bellini seria apenas uma obrigação contratual inevitável; uma esposa apenas no nome, uma mulher educada e submissa demais para ousar exigir o calor que eu não estava disposto a dar.

Eu estava redondamente errado. Mas a verdade é que alguns erros fatais não se revelam no exato momento em que são cometidos. Eles esperam pacientemente. Crescem nas sombras e no silêncio dos dias e, quando você menos espera, voltam para cobrar absolutamente tudo.

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