“Há coisas que não se encontram. São construídas. Camada sobre camada,
até se tornarem raras.”
Na manhã de terça-feira, Cássio foi até a clínica para retirar o curativo do rosto. O médico trabalhou em silêncio, removendo a tala e as bandagens com cuidado, até que, por fim, estendeu-lhe um espelho.
Cássio encarou o próprio reflexo. Ainda havia sombras arroxeadas sob a pele, mas o rosto já parecia melhor do que ele esperava.
O nariz, porém, não era mais o mesmo.
Helena o atingira com precisão — e força suficiente para deixar marcas que não se apagariam tão facilmente. O septo apresentava agora uma leve inclinação para a direita, discreta, mas impossível de ignorar para quem conhecia o próprio rosto.
— Ainda vai desinchar um pouco mais — explicou o médico, num tom técnico. — Quanto a essa pequena curvatura, um bom cirurgião plástico consegue corrigir depois, sem grandes dificuldades.
Cássio assentiu, sem tirar os olhos do espelho.
Não era a assimetria que o incomodava.
Era a lembrança cr