“Nem todo silêncio é rendição; às vezes, é apenas a cor sendo preparada.”
Silvia desviava o olhar, depois voltava. Sentia-se diminuída, deslocada.
Cássio observava tudo sem conseguir evitar. Cada gesto de Helena parecia confirmar algo que ele relutava em aceitar: ela estava bem. Inteira. Viva.
O que mais o corroía não era vê-la feliz — era perceber que aquela felicidade não precisava mais dele para existir. Ela ria sem olhar em sua direção, comia com prazer, tocava e era tocada com uma intimidade tranquila. Santiago, ao seu lado, a observava com pertencimento.
Mas, no fundo, uma ideia doentia insistia: “Ela era dele. Como Santiago ousava?”
Cássio sentiu o maxilar endurecer, os dedos se fecharem involuntariamente sobre a mesa. O orgulho tentou reagir, mas foi abafado por um incômodo surdo e persistente, que crescia a cada gargalhada vinda da mesa à frente.
Quando Helena se levantou e passou por ele, não conseguiu mais se conter. As palavras escaparam antes mesmo que ele pudesse pensar.