####CAPÍTULO 38

HADASHA

A segunda-feira nasce com um céu límpido, mas o ar da manhã carrega uma densidade difícil de explicar. Chego à empresa exatamente às sete e cinquenta. Caminho pelos corredores murmurando cumprimentos cordiais aos colegas que cruzam o meu caminho, tentando manter a postura ereta e a passos firmes que a minha posição de executiva exige. Dentro da minha bolsa de couro, contudo, trago algo que ultrapassa qualquer relatório de gestão ou planilha orçamentária.

Ao abrir a porta da minha sala, o silêncio do escritório me acolhe. Mantenho este espaço, há semanas, sob uma neutralidade quase cirúrgica: pastas suspensas perfeitamente alinhadas, o computador, canetas organizadas, livros de direito corporativo e logística. Nada que denuncie quem eu sou longe das reuniões.

Hoje, decido que não preciso mais me esconder.

Aproximo-me do aparador de madeira clara e posiciono um vaso com flores delicadas que comprei na feira do último domingo. O cheiro fresco de terra e pétalas vivas imediatamente toma conta do ar. Em seguida, tiro da caixa o primeiro porta-retrato. Passo os dedos pelo contorno do vidro antes de apoiá-lo na mesa de trabalho, exatamente ao lado do meu notebook. Na foto, estou abraçada aos meus dois pequenos. Zara sorri com aquela covinha rasgada na bochecha, idêntica à da minha mãe, enquanto Owen envolve meu pescoço com os braços gordinhos, naquele abraço apertado que costuma me tirar o ar nos finais de tarde.

— Bom dia, meus amores... — murmuro em voz baixa, sentindo um calor discreto no peito.

Pego a segunda moldura, maior e mais pesada. É um registro nosso durante um piquenique na grama, sob a luz dourada do sol. Com o devido consentimento da diretoria, utilizo a estante lateral para organizar a literatura técnica da empresa. Afasto dois volumes grossos de estratégia empresarial e encaixo o retrato bem no centro da prateleira.

Aço passo para trás e contemplo o ambiente. Até a semana passada, eu acreditava firmemente que manter a vida pessoal longe do ambiente corporativo era uma forma de profissionalismo. Mas depois do encontro no shopping, depois de ver o passado colidir de frente com o meu presente, compreendi que não posso fracionar a minha existência. Meus filhos são a minha espinha dorsal. Eles não são um segredo nem uma vergonha a ser ocultada; são a razão de cada gota de suor, de cada noite mal dormida e de tudo o que construí até aqui.

Duas batidas secas na porta interrompem meus pensamentos.

— Pode entrar — digo, ajustando a postura imediatamente.

A maçaneta gira devagar. Quando a porta se abre, a figura de Caleb surge sob o batente.

A visão dele faz o meu coração falhar uma batida. Mas não é apenas a surpresa de vê-lo ali tão cedo. É o estado dele. Caleb não ostenta o porte altivo, impecável e inabalável do "Senhor Wilson", o executivo implacável. Ele parece fisicamente desgastado. Suas roupas estão alinhadas, mas os ombros carregam uma curvatura sutil, as olheiras fundas denunciam uma noite inteira em claro, e seus olhos... os olhos dele estão opacos, desprovidos daquela altivez habitual. Há uma fragilidade crua nele, uma insegurança tão visível que o ar na sala parece instantaneamente mais pesado.

Tranco a minha própria perplexidade no fundo da garganta. Ergo o meu escudo invisível, vestindo a armadura da polidez profissional.

— Bom dia, senhor Wilson.

Caleb entra, fechando a porta com uma lentidão quase hesitante. Ele segura a pasta de couro com uma das mãos, mas seus dedos tremem discretamente.

— Bom dia, Hadasha.

Seu olhar vasculha o ambiente e paralisa sobre as flores. Depois, desce para o porta-retrato na minha mesa e, finalmente, fixa-se na fotografia maior, posicionada entre os livros da estante. Ele dá dois passos lentos em direção à imagem, como se estivesse diante de um mistério sagrado.

— Hoje você trouxe a sua família para o trabalho? — a voz dele sai baixa, rouca, sem o tom de comando de costume.

— Sim, senhor Wilson — respondo, mantendo o tom de voz sereno e distante. — Antes eu preferia manter uma linha rígida entre a minha vida pessoal e o trabalho. Mas mudei de ideia. Quero meus filhos presentes na minha rotina, mesmo que seja através de uma fotografia.

Ele não responde de imediato. Fica parado diante da estante, engolindo em seco. Consigo notar a rigidez do seu maxilar, o tremor contido na sua respiração. Há uma dor viva nele, algo que vai muito além desta sala, mas que ele luta desesperadamente para conter.

— Posso... posso fazer uma pergunta a você? — ele se vira para mim. O olhar dele não exige, implora.

— Claro, senhor Wilson. No que posso ajudá-lo?

Ele se aproxima da mesa, mas não se senta. Apoia as duas mãos sobre a borda de madeira, inclinando o corpo levemente para a frente.

— Quero que me responda com a absoluta, a mais profunda sinceridade — ele sussurra, os olhos cravados nos meus, desnudados de qualquer orgulho. — Quem é o pai das crianças, Hadasha?

Um golpe frio atinge o meu estômago. Mantenho o rosto impassível, a coluna ereta, o olhar fixo no dele. O escudo não pode ceder.

— Eles não têm pai, senhor Wilson.

A resposta cai entre nós como uma pedra de gelo. Caleb pisca lentamente, desorientado.

— Como não têm pai?

— O pai biológico deles foi apenas um equívoco, um momento da minha juventude que terminou antes mesmo que eu soubesse da gravidez — digo, medindo cada sílaba com uma frieza calibrada. — Quando descobri que esperava os gêmeos, ele já não fazia parte da minha vida. Foi uma ilusão da minha parte acreditar que aquilo significava alguma coisa.

Caleb fecha os olhos por um segundo longo, deixando escapar o ar dos pulmões como se tivesse levado um soco nas costelas. A fragilidade dele se expõe por inteiro. Ele parece um homem naufragado buscando qualquer tábua de salvação.

— Posso me sentar? — a voz dele falha.

— Por favor. Desculpe-me, sente-se.

Ele desaba na cadeira estofada à minha frente. Apoia os cotovelos nos joelhos e esconde o rosto nas mãos por alguns segundos. A cena é devastadora, mas recuso-me a ceder à compaixão. Eu me lembro de quem eu era aos dezoito anos. Eu me lembro do choro no escuro.

— Posso saber o motivo dessa pergunta, senhor Wilson? — pergunto, acomodando-me na minha cadeira.

Caleb ergue o rosto. Há um vermelho doloroso no canto dos seus olhos.

— Porque eu passei o final de semana inteiro revirando o nosso passado — ele diz, a voz embargada. — Passei dias pensando na última vez em que nos vimos antes de você vir trabalhar aqui. Na noite da sua formatura. Eu fui o seu acompanhante...

Um sorriso amargo e involuntário surge nos meus lábios.

— Não exatamente, senhor Wilson.

ele me encara, desarmado.

— O senhor teve a gentileza de me dar um vestido lindo e me levar de carro até o salão — continuo, mantendo a voz pausada, cirúrgica. — Mas assim que pisou lá, o senhor se tornou o acompanhante de outra pessoa. Fiquei sentada em uma mesa no canto a noite inteira, vendo o senhor dançar com a Livi, vendo o senhor ser coroado rei do baile sem nem ser aluno daquela escola... e, no final, vi vocês se beijando. Naquela noite, entendi perfeitamente o meu lugar. Entendi que o que tinha acontecido entre nós na noite anterior, quando o senhor disse que queria ser o meu primeiro homem, não passou de um momento sem importância para o senhor.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP