Mundo ficciónIniciar sesiónCALEB
— Que surpresa agradável saber que a Hadasha trabalha na sua empresa, Caleb — a voz da minha mãe soa genuinamente encantada do outro lado da linha. — Sim, mãe. E ela não entrou por baixo, não. Foi indicada diretamente pela faculdade. A nossa empresa teve que disputar a contratação dela com outras multinacionais, e tem sido um sucesso absoluto. — E como foi quando você encontrou os filhos dela hoje no shopping? — Eu comprei dois quebra-cabeças de cinco mil peças para eles. Um para cada um. — Cinco mil peças?! Para crianças de quatro anos de idade, meu filho? — Sim! A Hadasha disse que é exatamente disso que eles gostam, de desafios. E a senhora precisa ver, mãe... os dois falam quase que interligados, um complementando a frase do outro. Em um dado momento, eles começaram uma pequena desavença por causa de um brinquedo. A Hadasha só olhou. Ela só olhou para as crianças, mãe, e eles pararam na hora com o desentendimento. É impressionante a disciplina dela. Do mesmo jeito impecável que ela é no trabalho, ela é na criação dos filhos. — Acho maravilhoso que você tenha reencontrado a sua amiga de adolescência, Caleb. — É, mãe... mas agora ela é só minha funcionária — solto um suspiro pesado, encarando o chão da biblioteca. — Ela criou uma barreira intransponível entre nós. O Caleb não existe mais para ela, é apenas "senhor Wilson". — Como assim, "senhor Wilson"? — minha mãe questiona, surpresa. — Apesar da diferença de seis anos entre vocês, vocês eram tão amigos, conversavam tanto... — É, mãe, mas aconteceu algo no passado. No dia da festa do high school. Lembra que eu comprei um vestido e dei de presente para ela? Eu a levei para a festa, mas quando chegamos lá, a Livi me monopolizou completamente e eu... eu praticamente esqueci a Hadasha sentada numa cadeira. Ela foi embora da festa, eu não falei mais com ela e só fui reencontrá-la agora, cinco anos depois. A minha mãe fica em silêncio por um longo segundo, até que sua voz volta, agora carregada de uma desconfiança séria: — Caleb, vou te fazer uma pergunta e quero que me responda com honestidade. Aconteceu algo mais entre você e a Hadasha no passado para que ela tenha tomado essa atitude tão radical? Dou uma tossida seca para disfarçar o nó que se forma na minha garganta e limpo a voz antes de responder: — Eu ia pedir a Hadasha em namoro no dia do high school. E na véspera da festa, quando eu fui à casa dela entregar o vestido... nós fizemos amor. Eu fui o primeiro homem da vida dela. — Meu filho... — o tom da minha mãe muda drasticamente, tomado por um choque doloroso. — Você cometeu o maior erro da sua vida! Você tem noção de como aquela menina se sentiu? No dia seguinte a um momento tão íntimo entre vocês, ser abandonada daquele jeito numa festa? E os pais dela, sabem disso? — Eu acho que não, mãe. Acho que ela nunca contou para ninguém — respondo, com o remorso queimando no peito. — No outro dia logo cedo, eu fui até a casa dela para procurar por ela, para me desculpar e tentar explicar o que tinha acontecido. Mas a mãe dela me atendeu na porta e disse que eu tinha sido o primeiro crush da Hadasha e também a primeira decepção. Disse que ela ainda teria outras decepções na vida e que era para eu cuidar do meu futuro, dos meus estudos, porque a Hadasha ia seguir a vida dela. A mãe dela me mandou ficar em paz e ir embora. — Quando você deu atenção apenas para a Livi e esqueceu a Hadasha, meu filho, você mostrou para ela que ela tinha sido apenas um brinquedo — a voz da minha mãe vem firme, carregada de uma reprovação dolorosa. — Com certeza foi exatamente isso o que ela entendeu. E se ela criou essa barreira e foi trabalhar na sua empresa, tenho certeza de que ela nem sabia que a empresa era sua. — Não sabia mesmo, mãe. O nome do meu avô está na razão social da Harris Group, ninguém ligaria uma coisa à outra. Foi uma surpresa tanto para mim quanto para ela no primeiro dia de reunião. — Pois é. E agora, Caleb? Como é que você vai consertar isso? — Eu não sei, mãe — confesso, passando a mão pelo rosto, sentindo o peso de toda a minha impotência. — Ela não deixa eu me aproximar de jeito nenhum. A barreira é sólida. Para ela, é estritamente patrão e empregada. O Caleb, o amigo de anos atrás, simplesmente não existe mais. E o pior de tudo... é que eu fiquei completamente apaixonado por aqueles dois meninos. O silêncio do outro lado da linha torna-se subitamente denso. Consigo ouvir a respiração da minha mãe mudar de ritmo, como se engrenagens estivessem girando rapidamente na mente dela. — Caleb... deixa eu te perguntar uma coisa. Quantos anos mesmo têm as crianças? Quatro anos, não é? — Sim, quatro anos. — Faz exatamente cinco anos que vocês não se veem, desde aquela festa — a voz dela vai ganhando um tom solene, quase pausado. — Ela nunca falou para os pais dela quem é o pai dessas crianças. Ela nunca contou para absolutamente ninguém o que aconteceu entre vocês dois naquela noite... Meu filho, me responda com sinceridade: você usou preservativo quando esteve com ela? Sinto meu sangue congelar nas veias. O ar foge dos meus pulmões por um segundo. — Não, mãe. Era a Hadasha... eu nunca pensei em... — Caleb... eu estou achando que as crianças da Hadasha são meus netos. Eu acho que eles são seus filhos. — Não... Não pode ser, mãe! — solto a frase num reflexo quase desesperado, a cabeça girando com a própria possibilidade. — Pode ser sim, meu filho! — a voz dela soa convicta, cortante e tomada por uma certeza absoluta. — Para ela ter guardado esse segredo a sete chaves, a ponto de nem os próprios pais saberem quem é o pai dessas crianças... Caleb, eu tenho certeza absoluta de que os filhos da Hadasha são seus filhos e meus netos. — Mãe, isso é... é uma loucura. Não pode ser. — A minha intuição de mãe e de mulher diz que sim, que é! E agora você vai ter que descobrir a verdade, Caleb. Porque se eles forem meus netos, eu quero exercer meu direito de conviver com eles como avó, da mesma forma que o Thomas e a Sarah convivem. Zara e Owen são crianças maravilhosas, prodígios que qualquer família se orgulharia de ter por perto. Descubra a verdade.






