Mundo de ficçãoIniciar sessãoCALEB
Largo o copo sobre a mesa de centro da biblioteca, pego o celular no bolso e discagem rápida. Caminho de um lado para o outro sobre o tapete, ouvindo o toque prolongado ressoar até que a voz suave e familiar da minha mãe atende ao segundo toque. — Caleb? Aconteceu alguma coisa, meu filho? Você raramente me liga a esta hora do fim de semana. — Não aconteceu nada grave, mãe. Só precisava falar com a senhora — começo, respirando fundo e passando a mão pela nuca para aliviar a tensão. — Liguei para dizer que rompi com a Livi. Definitivamente. O silêncio do outro lado da linha dura alguns segundos, pesado e carregado de surpresa. — Como assim, Caleb? Vocês pareciam tão bem... A Livi é uma moça de boa família, elegante, os pais dela são nossos amigos. Tem certeza de que não foi apenas um desentendimento passageiro? — Absoluta, mãe. Por favor, não insista — interrompo, mantendo o tom firme, mas respeitoso. — Vocês sempre acharam que a Livi era a pessoa certa para estar ao meu lado, mas a verdade é que ela não tem cultura nenhuma. A Livi é apenas uma casca, um verniz bonito que serve de adorno quando eu apareço nos eventos sociais. Por dentro, é uma mulher fútil e fútil. Eu não aguento mais essa superficialidade. — Mas, meu filho... — Não, mamãe. Me responda uma coisa com sinceridade: quando a senhora casou com o papai, foi um relacionamento arranjado pela conveniência social ou a senhora se casou por amor? Porque eu vejo amor verdadeiro entre vocês todos os dias. Eu vejo cumplicidade, não uma fachada para a sociedade. O que seria de mim casado com a Livi? Um casamento de aparências para depois encararmos um divórcio doloroso? Não tem condições. Eu quero algo real. Ouço um suspiro resignado da minha mãe antes de ela responder, a voz visivelmente mais amena. — Você tem razão, Caleb. Eu e seu pai nos casamos por amor. Se é assim que você se sente, eu respeito a sua decisão. Só quero a sua felicidade. — Obrigado, mãe — digo, aliviado por ter encerrado esse assunto. Caminho até a janela, observando a noite lá fora enquanto engato o assunto que realmente não sai da minha cabeça desde a tarde no shopping. — E, por falar nisso... a senhora sabia que a Hadasha tem filhos? — Sim, claro que sei — ela responde imediatamente, com uma leveza e um afeto genuínos na voz. — Ela tem um casal de gêmeos lindos, o Owen e a Zara. São crianças extremamente educadas e adoráveis. Inclusive, eles estiveram aqui em casa durante as férias de verão. A informação me pega de surpresa. — E vocês conhecem as crianças? — Mas é claro que conhecemos, meu filho! Você sabe muito bem que nós somos amigos íntimos dos pais da Hadasha, do Thomas e da Sarah. A Hadasha é uma boa menina, criada com excelentes valores. Onde foi que você a encontrou? — Ela trabalha na minha empresa, mãe. Ela criou um projeto inovador para a Harris Group que está nos fazendo economizar 60% dos custos operacionais. Eu sempre soube que ela era inteligente, mas o que ela fez na empresa é genial. — Que orgulho! Eu sempre soube que aquela menina iria longe. Ela sempre foi muito dedicada, embora no colégio fosse um pouco estranha no jeito de se trajar, sempre se escondendo atrás daqueles casacos largos e dos livros... — Estranha? — interrompo, quase dando uma risada irônica. — Mãe, se a senhora chama a Hadasha de estranha hoje, é sinal de que faz muito tempo que não a vê pessoalmente, não é? — Não frequentemente, meu filho. Geralmente quem vem nos visitar aqui em casa são as crianças com o Thomas e a Sarah. E quando nos encontramos nos finais de semana, no shopping ou no clube, os pais dela sempre estão acompanhando. Eles ajudam muito a filha. — E as crianças são impressionantes, mãe. Extremamente inteligentes, educadas, com uma maturidade surreal para quatro anos. — Ah, sim! Eles são prodígios. Eu acho que puxaram totalmente à mãe. A inteligência da Hadasha sempre foi fora do comum. — E como puxaram... — murmuro, encarando meu próprio reflexo no vidro antes de soltar a pergunta que está me corroendo por dentro. — Mãe, a Hadasha está linda. Mas... quem é o pai dessas crianças? A minha mãe hesita por um instante, e o tom de sua voz fica mais baixo e compadecido. — Ela não diz o nome dele para ninguém, meu filho. Segundo o Thomas e a Sarah me contaram na época, a Hadasha apenas disse que foi um envolvimento que ela teve e que não deu certo. O pai das crianças não quis saber de assumir a responsabilidade, e ela, com toda a coragem do mundo, decidiu assumir a gestação e os filhos sozinha. Ela sofreu muito durante o tempo em que esteve na faculdade em Michigan, criando dois bebês e estudando ao mesmo tempo, mas nunca se curvou.






