####CAPÍTULO 20

CALEB

A sala de reuniões da Mobility & Energy Harris Group continuava no mesmo lugar, mas, para mim, o chão parecia ter saído do eixo.

Enquanto Hadasha caminhava em direção ao painel central e conectava seu notebook ao sistema da sala, tentei me agarrar ao papel de presidente. Apoiei os cotovelos na mesa de madeira polida, entrelacei os dedos e forcei os olhos a acompanharem a projeção dos gráficos. Eu precisava prestar atenção. Afinal, a diretoria inteira estava ali e o licenciamento daquele projeto representava uma virada de chave brutal para as nossas operações globais.

Mas ver Hadasha de pé, dominando a sala com uma autoridade natural e inabalável, simplesmente paralisou a minha capacidade de pensar apenas como executivo.

Meus olhos percorreram cada detalhe da figura dela, incapazes de desviar. O contraste entre a mulher diante de mim e a garota do meu passado era nada menos que avassalador. Na época da escola e da faculdade, Hadasha vivia escondida. Era a menina tímida, insegura, que parecia querer se invisibilizar atrás das armações pesadas dos óculos, do aparelho nos dentes e daqueles moletons três vezes maiores que o seu tamanho.

Agora, a realidade me atingia como um soco no estômago.

Os óculos sofisticados emolduravam um rosto de traços marcantes, maquiado com uma elegância impecável. O terno de alfaiataria perfeitamente ajustado não deixava dúvidas: o tempo havia transformado aquela garota em uma mulher deslumbrante, madura e dona de uma presença magnética. Pela linha bem cortada da calça, era impossível não notar a postura firme, as pernas torneadas, a cintura fina e os seios fartos desenhados sob o tecido fino da camisa.

A lembrança daquela nossa primeira e única noite juntos veio à tona com a força de um choque elétrico. Naquela madrugada de formatura, quando a vi sem as camadas de jeans e moletons, enxerguei a beleza delicada de uma jovem prestes a desabrochar. Mas o que estava diante de mim hoje era o ápice absoluto dessa evolução. Uma mulher com curvas exuberantes, segura de si, exalando uma inteligência arrebatadora.

E eu perdi tudo isso, o pensamento amargo martelou na minha mente, trazendo um nó insuportável para a minha garganta. Eu perdi a mulher da minha vida por causa da futilidade e das chantagens da Lívia.

O remorso e a culpa me sufocaram de imediato. Quando Lívia descobrir que Hadasha está trabalhando no mesmo prédio, ocupando um cargo de gerência estratégica no meu império, o meu mundo vai se transformar num verdadeiro inferno. Lívia sempre foi insegura, possessiva e egoísta. Ela vai farejar a ameaça no ar e criar crises insuportáveis. Mas, pela primeira vez na vida, não dei a mínima para o que Lívia pensaria ou faria. A minha única preocupação, o meu único martírio, era a mulher de standing impecável no centro daquela sala.

A voz de Hadasha preenchia o ambiente com uma clareza hipnotizante. Ela explicava a arquitetura do software, detalhando os módulos de integração entre finanças, logística e RH, e demonstrando a blindagem do protocolo de criptografia para a nossa expansão internacional.

Eu sabia que aquele contrato era vantajoso, mas escutando a lógica brilhante por trás de cada linha de código, cheguei a uma conclusão imediata: o salário fixo que a minha diretoria ofereceu a ela para o cargo de gerência não era absolutamente nada perto do valor real do seu trabalho.

Com os royalties do licenciamento exclusivo e a porcentagem sobre a economia de insumos que o sistema geraria para a Harris Group — sem contar as futuras implementações que viriam —, Hadasha se tornaria milionária por mérito próprio muito em breve. Ela não dependia de favor de ninguém. Ela construiu o próprio império intelectual.

Eu sempre soube que ela era um gênio. Sempre soube que a mente dela funcionava num nível acima da média. Mas ver a forma como ela respondia à minha pergunta sobre seu percurso acadêmico trouxe a peça que faltava no quebra-cabeça.

— Fui diagnosticada com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade... — a voz dela ecoou firme, ao explicar como o hiperfoco seletivo a fazia mergulhar por dias no seu próprio mundo, ignorando ruídos externos.

Tudo fez sentido. Uma onda de clareza e empatia me atingiu no peito. O TDAH explicava a razão de ela ter sido tão reclusa, tão focada nos livros e tão distante das trivialidades sociais durante a nossa juventude. Aquilo que as pessoas erradamente viam como timidez excessiva era, na verdade, uma mente brilhante e hiperativa canalizando toda a sua energia para criar e inovar.

E então veio o golpe final.

— Não tenho tempo nem interesse para desperdiçar energia com amizades superficiais ou trivialidades da vida... — ela declarou, fixando aqueles olhos profundos diretamente nos meus.

A frase veio acompanhada de um olhar tão gélido que sentia a minha pele arder. Foi um tapa de luva de pelica sem descer do salto. Ao colocar as amizades do passado no mesmo prateleira das "trivialidades dispensáveis", Hadasha deixou cristalino que a nossa história não passava de uma poeira incômoda que ela já havia varrido da memória.

— O senhor pode ter certeza absoluta de uma coisa, senhor Wilson: estou aqui para trabalhar, agregar valor e somar ao crescimento desta empresa. Nunca para dividir ou criar problemas.

Senhor Wilson.

O tratamento cortante ressoou na minha cabeça como o bater de um martelo num julgamento onde eu já havia sido condenado. Não existia mais o Caleb. Não existia o melhor amigo que dividia fones de ouvido e conversas até a madrugada. Existia apenas o CEO da empresa que contratou o seu projeto.

Enquanto a diretoria a aplaudia entusiasmada e ela agradecia com uma leve inclinação de cabeça, mantive a postura de pedra, mas por dentro eu estava completamente despedaçado.

Olhando para Hadasha recolhendo suas coisas com uma elegância inabalável, engoli a seco e aceitei a verdade mais dolorosa da minha vida: o tempo não tinha amenizado a dor dela. O jeito frio e distante com que me tratava era a prova viva de que a ferida que deixei naquela noite de formatura continuava aberta. Eu a magoei no nível mais profundo da sua alma.

E a pior parte de todas era saber que, talvez, a distância que ela colocou entre nós dois fosse exatamente o que ela precisava para se proteger de mim.

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