Mundo de ficçãoIniciar sessãoDou uma risada curta, pegando o frasco de perfume novo. Borrifo uma névoa suave nos pulsos e na dobra do pescoço, sentindo o aroma delicado de notas florais e amadeiradas. Reviso pela última vez a pasta com meus documentos dentro da bolsa.
— Você quer que eu vá te deixar de carro ou prefere pedir um carro por aplicativo? — ela pergunta, me acompanhando até o corredor. — Vou no meu carro mesmo. Não precisa se preocupar. — Certeza? Eu posso te deixar na porta do prédio e depois sigo para a minha farmácia. — Certeza absoluta, amiga. Você já perdeu um dia inteiro me arrastando de loja em loja, controlando até o tom do meu batom. Pode ir trabalhar tranquila. — E faria tudo de novo — ela pisca para mim. Ajeito o laço da minha blusa diante do espelho da sala. O silêncio do apartamento pesa por um instante. Sem o som de Zara e Owen correndo pelos cômodos ou disputando quem vai usar o banheiro primeiro, a casa parece estranhamente grande. Meus pais vieram buscá-los no final da tarde de ontem para levá-los para Michigan, e embora eu saiba que eles vão ter as férias de verão mais divertidas da vida com os avós, o vazio na minha rotina dói. Caroline nota o meu olhar perdido em direção ao quarto das crianças e para ao meu lado, tirando o celular do bolso para fazer uma conta rápida na tela. — Escuta aqui, dona Hadasha — ela começa, mudando de assunto para afastar minha melancolia. — Vamos focar no que interessa. Você fala cinco idiomas com fluência, tem graduação com honras, pós-graduação concluída e está assumindo a gestão da área administrativa internacional. Seu salário inicial vai bater quase quinze mil dólares por mês. Você tem noção do que é isso? — Tenho — respiro fundo, encarando a sala. — Pela primeira vez desde que descobri que estava grávida, vou conseguir pagar absolutamente tudo do meu bolso. — Como assim? — Vou assumir a mensalidade da escola da Zara e do Owen, o plano de saúde de alto padrão deles, todas as roupas, os cursos... Quero tirar até o último centavo dessas despesas das costas dos meus pais. Caroline me olha com a testa franzida, quase indignada. — Hadasha, desde quando os seus pais acharam que os netos eram um peso nas costas deles? — Eu sei que eles nunca reclamaram, Carol... — Reclamaram? Pelo amor de Deus! Sua mãe quase caiu para trás de choque quando você deu a notícia da gravidez no colégio, é verdade, mas no segundo seguinte os dois te blindaram de um jeito que pouca gente faz. Seu pai te deu todo o suporte financeiro, sua mãe cuidou das crianças como se fossem filhos dela para você poder estudar. Eles são loucos por aqueles gêmeos. — Eu sei, e sou grata a Deus todos os dias pela família que tenho — respondo, sentindo o nó na garganta. — Mas o problema não é o que eles sentem, Carol. Sou eu. Me incomodava passar todos esses anos dependendo do dinheiro do meu pai para pagar o fraldário, a creche e a escola dos meus filhos. Eu precisava me formar, precisava desse trabalho para andar com as minhas próprias pernas e dar o melhor para o Zara e para o Owen com o fruto do meu esforço. Caroline relaxa os ombros, compreendendo o orgulho legítimo que carrego. Ela fica em silêncio por alguns segundos, me observando enquanto ajeito a alça da bolsa sobre o ombro. O olhar dela ganha uma densidade diferente, mais suave e curiosa. — Por falar nisso... você nunca me contou quem é o pai das crianças. Meu corpo congela por um milésimo de segundo. Em cinco anos de uma amizade profunda e visceral, Caroline nunca pressionou esse ponto. Ela me acolheu com dois bebês no colo, me ajudou nas noites de choro e de febre, dividiu aluguel e despesas sem jamais exigir detalhes da ferida que me fez fechar o coração. Desvio os olhos para as minhas chaves sobre o aparador. — Eu não fiquei com ninguém na faculdade — murmuro, mantendo a voz firme. — Foi alguém da sua cidade natal? Do ensino médio? Assinto devagar. — Foi. — Seu namorado na época? — Não — dou um sorriso amargo, sem olhar para ela. — Foi o meu primeiro e único crush de infância. Caroline encosta o quadril no sofá, prestando atenção em cada palavra. — E pelo menos valeu a pena? A lembrança daquela noite de formatura vem à tona com a nitidez de um filme antigo. O cheiro dele, a gentileza com que me tratou no início, o toque cuidadoso que parecia um sonho. — Valeu — admito em um sussurro. — Ele foi extremamente atencioso, respeitoso e carinhoso comigo. — Então o que deu errado, Hadasha? Por que você nunca mais falou com ele? Ele fez você passar por algum vexame? — Não, ele não fez nada cruel de propósito — suspiro, encarando a janela da sala. — O problema é que, no dia seguinte, a minha ficha caiu. Eu percebi que ele gostava de mim como amiga, ou talvez nem isso. Nada do que aconteceu entre nós significava para ele um décimo do que significava para mim. — Como assim? — Ele me levou ao baile de formatura por pena, Carol — desabafo, e colocar aquela dor em palavras depois de tanto tempo traz um alívio doloroso. — Eu era a nerd, a esquisita de óculos grandes, aparelho e moletons dois tamanhos maiores. Ninguém queria me levar ao baile. Ele sabia disso, ficou com dó e se ofereceu para ir comigo. — Ele te disse isso? — Não precisou dizer — balanço a cabeça. — Assim que nós entramos no salão da festa, ele encontrou a garota mais popular da escola. A rainha do baile. Ele dançou com ela a noite inteira, riu com ela e esqueceu que eu existia. Eu passei a noite inteira sentada sozinha em uma mesa num canto escuro, vendo os dois juntos. Até o momento em que vi os dois se beijando na pista de dança. Caroline solta um arfar indignado, mas não me interrompe. — Foi ali que eu caí na realidade. Entendi que eu tinha inventado um conto de fadas na minha cabeça que nunca existiu. Para ele, transar comigo antes da festa ter terminado foi só um momento aleatório de caridade ou impulso. Para mim, foi a primeira e única vez que entreguei meu corpo a alguém. — E você nunca mais viu esse garoto? — Nunca mais. No dia seguinte ele viajou, a vida seguiu, e dois meses depois, quando eu já estava matriculada na faculdade em Michigan, descobri a gravidez dos gêmeos. Minha tia Blair foi a primeira a saber e me deu todo o suporte emocional para eu não surtar. Caroline dá dois passos na minha direção e segura as minhas duas mãos com firmeza. — E você teve a coragem de carregar esse segredo e esses dois bebês no ventre sem procurar o pai para cobrar nada. — Eu não queria a presença de um homem ao meu lado por obrigação ou por pena, Carol. Se ele não me queria por amor, não seria por dois filhos que eu o prenderia a mim. Caroline me puxa para um abraço apertado, e afundo o rosto no ombro dela por alguns segundos, sentindo a força da nossa conexão. — Quando os gêmeos fizeram um ano — continuo, com a voz embargada —, meu pai comprou este apartamento de três quartos para que a gente tivesse um teto seguro em Nova York. E você veio morar comigo, assumindo um quarto e me ajudando a criar meus filhos. — E nós criamos uma família linda e totalmente fora dos padrões — Caroline sorri, limpando o canto dos olhos com cuidado. — Tenho orgulho de você, Hadasha. De verdade. — Eu é que sou grata a você por tudo, amiga. Se não fosse você, eu não teria aguentado o tranco da faculdade. — Amigos de verdade servem para isso. Agora, chega de conversa sentimental porque você vai borrar o corretivo que eu passei no seu rosto! Caio na risada, limpando uma lágrima teimosa antes que escorra. Pego as chaves do carro, dou uma última olhada no meu reflexo no espelho do corredor e ajeito a postura. O nervosismo do primeiro dia continua lá, mas a garota insegura do baile de formatura ficou definitivamente para trás. — Vou nessa — digo, destravando a porta do apartamento. — Quero chegar com meia hora de antecedência na empresa. — Vai lá — Caroline acena da porta, com o olhar brilhando de orgulho. — Vá lá e mostre para aquele 'velho chato' do dono da Mobility & Energy como se trabalha de verdade! Sorrio, aperto as chaves na mão e caminho a passos firmes em direção ao elevador. O meu futuro finalmente começou.






