O som seco do despertador nem sequer chegou a tocar. Caroline simplesmente decidiu que o meu primeiro dia de trabalho exigi um protocolo de emergência, e a claridade que invadiu o quarto veio acompanhada pelo barulho de cabides sendo arrastados sem paciência dentro do meu armário.
Quando abro os olhos e me sento na cama, ainda tentando espantar o cansaço da noite anterior, encontro minha amiga de pé no meio do quarto. Ela segura três opções de conjuntos nos braços, cruzando e descruzando as sobrancelhas em um julgamento silencioso sobre cada costura.
— Cara, você acordou hoje mais cedo só para me infernizar? — pergunto, passando as mãos pelos olhos e soltando um bocejo longo.
— Evidentemente — ela responde sem parar o escrutínio das peças. — Você achou mesmo que eu deixaria o seu primeiro dia à mercê da sua falta de vaidade? Conhecendo você, apareceria na recepção de uma das maiores multinacionais do país vestindo um jeans largo, tênis surrado e o moletom cinza de sempre.
— Meu moletom é extremamente digno — murmuro, mas não perco tempo me defendendo. Sério, não adianta discutir com a Caroline quando ela coloca uma ideia na cabeça.
Depois de um banho rápido, sento-me diante da penteadeira. Ela assume a retaguarda com pente e grampos em mãos, puxando meus fios longos com uma destreza quase cirúrgica. Com alguns movimentos ágeis, reúne o cabelo no topo da minha cabeça, prendendo um coque levemente desestruturado que deixa meu pescoço livre e algumas mechas finas caindo com naturalidade ao redor do meu rosto.
Olho para o espelho e, por um segundo, preciso de alguns batimentos cardíacos a mais para reconhecer a imagem refletida.
Sem a armação pesada que cobria metade das minhas bochechas e sem o freio metálico que acompanhou meu sorriso por anos devido ao problema de ATM, meu rosto parece ter ganhado espaço para respirar. Os óculos novos, de estrutura fina e moderna, apenas emolduram os meus olhos sem me esconder atrás deles.
— Pronto — Caroline decreta, batendo as mãos para tirar os fios soltos. — Agora, a armadura.
Ela me entrega o tailleur de três peças que escolhemos na Target. A calça de alfaiataria em tom café com leite cai com um caimento impecável, acentuando minha altura sem marcar nada além do necessário. A blusa off-white de seda sintética traz um laço discreto na gola, cobrindo o colo com uma elegância sóbria, exatamente do jeito que pedi. Visto o colete ajustado por baixo do blazer estruturado e calço os sapatos de salto médio do mesmo tom da blusa.
Pego a bolsa estruturada sobre a cama e abro a caixinha de veludo onde guardo meu colar e meus brincos de pérolas clássicas. Prendo a correntinha fina ao redor do pescoço, encaixo os brincos e ajusto as lapelas do casaco diante do espelho.
Caroline cruza os braços, encostando no batente da porta, com um sorriso de pura satisfação estampado no rosto.
— Viu só? Eu disse que daria para te transformar em uma executiva de alto nível sem precisar apelá para decotes ou fendas escandalosas. Você está impecável, Hadasha.
Aliso o tecido do blazer, sentindo uma pontada boa de confiança que há muito tempo não visitava meu peito.
— Ficou perfeito, Carol. Tenho que dar o braço a torcer.
— Perfeito é pouco. Agora, cadê as lentes de contato? Vamos colocar.
Viro-me de frente para ela, ajeitando a ponte dos óculos novos sobre o nariz.
— Hoje não. Vou de óculos.
O sorriso dela murcha na hora.
— Como assim "hoje não"? Nós passamos no médico e compramos as lentes exatamente para você estear hoje!
— Eu sei, mas é meu primeiro dia, Carol — explico, mantendo o tom calmo. — Fiquei anos sem usar lentes. Se meu olho ressecar ou incomodar no meio da integração da empresa, vou passar o dia piscando e me desconcentrando. Preciso do meu foco 100% no trabalho, não na minha vaidade.
Ela solta um suspiro dramático e j**a as mãos para o alto.
— Meu Deus, você é a pessoa mais resistente desse planeta!
— Não é resistência, é praticidade. E esses óculos são lindos, você mesma disse.
— Bonitos eles são. Pelo menos não parecem dois fundos de garrafa de refrigerante como os antigos.