O trânsito de Nova York já começa a ganhar intensidade quando estaciono o meu carro na vaga reservada aos novos colaboradores da Mobility & Energy Harris Group. Desligo o motor, mas permaneço alguns segundos segurando o volante com as duas mãos, sentindo a textura do couro sob meus dedos. Meu coração b**e mais rápido do que o normal, e não é por medo ou dúvida de não estar preparada.
Passei anos me preparando para este exato momento.
Foram noites sem fim claro estudando depois que Zara e Owen adormecida, equilibrando mamadeiras, tarefas domésticas e pilhas de livros acadêmicos. Finais de semana inteiros dedicados a pesquisas exaustivas, trabalhos complexos, apresentações impecáveis e estágios puxados. Houve dias em que pensei genuinamente que meu corpo simplesmente não suportaria mais uma madrugada em claro, mas bastava caminhar até o quarto dos meus filhos, olhar para aqueles dois rostinhos calmos dormindo, para encontrar uma força renovada que eu nem sabia que possuía.
Hoje, finalmente, todo aquele esforço silencioso começa a dar fruto.
Respiro profundamente, sentindo o ar condicionado do carro acalmar meu peito. Pego minha bolsa estruturada sobre o banco do passageiro, ajeito o blazer café com leite e desço do veículo, pisando com firmeza no pavimento do subsolo executivo.
O edifício da empresa é ainda mais imponente visto de perto do que nas fotos institucionais. A fachada colossal de vidro espelhado reflete a claridade limpa daquela manhã nova-iorquina, enquanto a enorme logomarca metálica da Mobility & Energy Harris Group ocupa boa parte da estrutura da entrada principal, reluzindo sob o sol.
Funcionários entram e saem em um ritmo constante e frenético, todos impecavelmente vestidos em trajes sociais, carregando notebooks, pastas de couro e copos térmicos de café. A movimentação contínua transmite exatamente a imagem e a energia que eu esperava de uma multinacional daquele porte: um gigante corporativo onde cada peça funciona com extrema precisão e rigor.
Endireito discretamente as lapelas do meu blazer, ajeito a alça da bolsa no ombro, dou um toque leve na ponte dos meus óculos novos e caminho em direção à entrada principal.
Assim que atravesso as portas automáticas de vidro, sou recebida por um amplo saguão com pé-direito altíssimo, totalmente revestido em mármore claro e polido. Lustres modernos de design minimalista iluminam o ambiente com elegância e sem excessos, enquanto grandes jardins internos com vegetação preservada trazem um contraste agradável e sofisticado entre o concreto, o vidro e o verde.
A recepcionista por trás do balcão de granito me observa aproximar e oferece um sorriso estritamente profissional.
— Bom dia. Posso ajudá-la?
Retribuo o sorriso com calma e postura.
— Bom dia. Meu nome é Hadasha Johnson Smith. Hoje é o meu primeiro dia de trabalho.
Ela imediatamente digita meu nome no sistema do computador, acompanhando as informações na tela com o olhar atento.
— Seja muito bem-vinda, senhorita Johnson Smith. Estávamos aguardando sua chegada — ela diz, a expressão tornando-se mais solícita. Em seguida, estende a mão com um crachá provisório de identificação. — O senhor Andrew Collins, do Recursos Humanos, já foi avisado da sua presença no saguão. Em poucos instantes ele virá recebê-la pessoalmente.
— Muito obrigada.
Apanho o crachá, prendo-o discretamente no bolso do meu blazer e me sento em um dos sofás de couro da recepção. Enquanto aguardo, observo a dinâmica dos executivos e analistas que circulam pelo ambiente. Ninguém ali parece caminhar sem destino ou hesitação; cada funcionário tem um propósito claro e sabe exatamente para onde deve ir e o que precisa entregar.
Antes mesmo que eu consiga terminar de absorver a arquitetura e o ritmo do lugar, um homem de aproximadamente cinquenta anos, vestindo um terno cinza perfeitamente ajustado e ostentando um postura simpática, aproxima-se com um sorriso sincero.
— Senhorita Hadasha?
Levanto-me imediatamente, ajustando minha altura e estendendo a mão.
— Sim, sou eu.
Ele segura minha mão em um aperto firme e respeitoso.
— Andrew Collins. Diretor de Recursos Humanos. É um enorme prazer conhecê-la pessoalmente.
— O prazer é todo meu, senhor Collins.
— Quero dizer que toda a equipe de seleção ficou bastante impressionada com seu currículo e, principalmente, com o projeto apresentado durante o concurso universitário — ele comenta, indicando o caminho dos elevadores com um gesto cordial. — Confesso que fazia muito tempo que eu não via uma banca técnica tão exigente e rigorosa ser tão unânime em relação a uma candidata.
Sinto minhas bochechas aquecerem levemente, mas mantenho o sorriso seguro.
— Fico muito feliz e honrada em saber disso.
— Não há motivo algum para modéstia, Hadasha. Seu projeto de inteligência financeira chamou a atenção da alta presidência praticamente no mesmo dia em que recebemos a documentação oficial da universidade.
Começamos a caminhar lado a lado pelos extensos corredores do andar térreo. Tudo ao redor é extremamente organizado e limpo. Salas envidraçadas com isolamento acústico permitem visualizar equipes inteiras reunidas ao redor de telas, enquanto enormes painéis eletrônicos fixados nas paredes exibem indicadores financeiros em tempo real, gráficos de desempenho global e resultados operacionais de diversas unidades da empresa espalhadas pelo mundo.
Andrew continua explicando a estrutura macro da companhia enquanto caminhamos.
— Nossa companhia atua em dezenas de países e continentes. Temos operações consolidadas nas áreas de mobilidade urbana, energia limpa e renovável, logística internacional e tecnologia industrial avançada. O setor administrativo e financeiro trabalha em conjunto direto com praticamente todas essas divisões globais.
Assinto atentamente, absorvendo cada detalhe da sua explicação.
— Imagino que a integração precisa entre esses departamentos seja o pilar fundamental para manter uma operação desse porte funcionando sem gargalos.
— Exatamente — ele sorri, olhando-me de lado com aprovação. — E foi justamente essa sua visão sistêmica e integrada que mais chamou a atenção do conselho no seu projeto.
Chegamos à área restrita dos elevadores e entramos em uma cabine privativa de aço escovado. Assim que as portas automáticas se fecham, Andrew encosta o crachá magnético no leitor e aperta o botão do último andar.
— Hoje você não começará diretamente a rotina do seu departamento — ele avisa, mantendo o tom profissional e tranquilo.
Olho para ele com uma ponta de curiosidade.
— Não?
— Não. A presidência fez questão de apresentá-la oficialmente à diretoria executiva antes do início prático das suas atividades operacionais.
A informação faz meu estômago dar uma leve volta. A expectativa de me apresentar ao topo da hierarquia no meu primeiro dia intensifica a ansiedade, mas me esforço para manter a compostura externa impecável.
— Admito que não esperava por essa recepção logo no primeiro dia.
— É perfeitamente natural sentir essa pressão — ele percebe meu pequeno sobressalto e sorri de maneira calorosa e tranquilizadora. — Fique calma. Será uma apresentação formal e muito positiva.
O elevador panorâmico reduz a velocidade até parar suavemente. As portas de vidro e metal se abrem para um pavimento visivelmente diferenciado e muito mais reservado do que os anteriores.
O ambiente exala uma elegância sóbria, sem qualquer traço de ostentação vulgar. Corredores amplos e silenciosos, revestidos por carpetes densos que abafam o som dos passos, obras de arte contemporânea estrategicamente posicionadas, iluminação indireta e salas de reuniões grandiosas deixam claro que aquele pavimento é ocupado exclusivamente pelos principais executivos da multinacional.
Andrew conduz-me pelo corredor até uma recepção privativa, onde uma assistente executiva nos recebe prontamente.
— Bom dia, senhor Collins.
— Bom dia, Emma. A sala de reuniões principal já está pronta para o conselho?
— Sim, totalmente. Alguns diretores já chegaram e estão se acomodando — ela responde, antes de voltar seu olhar cortês para mim. — Seja muito bem-vinda à empresa, senhorita Johnson Smith.
— Muito obrigada, Emma.
Andrew faz um gesto sutil para que eu o acompanhe até o final da galeria. Enquanto caminhamos a passos ritmados, ele aproveita os últimos momentos a sós para alinhar as expectativas comigo.
— Dentro de alguns minutos apresentarei você oficialmente ao conselho executivo e aos diretores de área.
Faço um discreto movimento afirmativo com a cabeça, assimilando a instrução.
— Sua contratação não foi apenas aprovada, Hadasha. Ela foi aprovada por unanimidade por todos os membros da mesa técnica.
Meu olhar demonstra uma surpresa genuína.
— Por unanimidade?
— Sim. Além da sua formação acadêmica impecável com honras e da sua proficiência em idiomas, o projeto de inteligência financeira e automação logística que você desenvolveu na faculdade foi considerado uma solução extremamente inovadora para os gargalos que enfrentamos hoje. Inclusive, a empresa já alinhou os termos do contrato de licenciamento para utilizar o seu sistema em nossas operações globais, preservando integralmente a patente e a propriedade intelectual registradas em seu nome.
Um sorriso sincero e aliviado surge em meus lábios. Essa era, sem dúvida, uma das minhas maiores preocupações desde que aceitei o convite para a entrevista. Eu havia trabalhado arduamente em cada linha de código e em cada modelo matemático daquele projeto; nunca quis vender minha criação ou abrir mão do seu controle. Queria que o mérito e a propriedade permanecessem vinculados ao meu nome.
— Fico imensamente feliz e tranquila em saber que o conselho respeitou essa condição contratual.
— Não apenas respeitamos, como fizemos questão de blindar isso — Andrew reforça, parando de frente para a grande porta dupla. — A propriedade intelectual continua sendo exclusivamente sua. Nós estamos apenas adquirindo o licenciamento corporativo para uso interno. Caso futuramente outras corporações do mercado desejem utilizar o seu modelo, essa negociação dependerá única e exclusivamente de você e da sua assinatura.
Respiro fundo, sentindo um peso enorme sair dos meus ombros. Era exatamente a garantia que eu precisava para entrar naquela sala com a cabeça erguida.
Paramos diante da porta de madeira nobre e escura. Andrew ajusta o relógio de pulso e olha a hora com precisão.
— Ainda faltam alguns poucos minutos para o presidente da empresa chegar do heliponto. Os demais diretores de finanças, logística e operações já estão reunidos e aguardando.
Ele segura a maçaneta pesada de metal polido e empurra a porta devagar.
Uma enorme mesa oval de madeira maciça ocupa o centro da imponente sala de reuniões, cercada por paredes de vidro que oferecem uma vista panorâmica de toda a cidade de Nova York. Homens e mulheres de negócios, elegantemente vestidos em ternos e tailleurs impecáveis, conversam em tons baixos enquanto analisam relatórios e dados em seus tablets e notebooks.
Ao notar nossa presença, Andrew dá um passo à frente, cumprimenta os colegas mais próximos com um aceno e pede a atenção de todos.
— Senhores, antes da chegada do nosso presidente, gostaria de apresentar oficialmente a mais nova integrante do nosso time executivo: nossa gerente de Inteligência Financeira e Planejamento Estratégico.
O burburinho na sala cessa imediatamente. Todos os diretores presentes interrompem suas conversas e voltam a atenção diretamente para a entrada, fazendo com que dezenas de olhares atentos e analíticos caiam sobre mim ao mesmo tempo.
Andrew sorri com orgulho profissional e completa:
— Esta é Hadasha Johnson Smith.