Mundo ficciónIniciar sesiónCALEB
A porta da minha sala no último andar do edifício-sede da Mobility & Energy Harris Group se abre sem qualquer aviso prévio, interrompendo minha leitura concentrada do relatório financeiro do terceiro trimestre. Nem preciso erguer os olhos imediatamente para saber de quem se trata; o som arrastado dos saltos altos no piso de mármore e o aroma impregnante de perfume importado entregam a visitante antes mesmo que ela alcance a minha mesa. Liv caminha com passos estudados, ostentando um par de óculos escuros de grife em um ambiente fechado e segurando uma bolsa de couro sintético de estilista que custou mais do que o salário mensal de metade do meu departamento técnico. Ela remove os óculos com um gesto dramático e abre um sorriso ensaiado, aguardando a minha reação habitual. — Oi, meu amor. Vim buscar você para almoçarmos juntos naquele restaurante francês novo no centro. Mantenho minha expressão neutra, encostando as costas na poltrona de couro e checando as horas no meu relógio de pulso antes de encará-la. — Você acha que todo mundo vive com a mesma disponibilidade de tempo que você, não é, Liv? — pergunto, sem disfarçar o tom exusto na voz. — Você acha que a vida real se resume a viajar, tirar fotos para redes sociais e gastar dinheiro? Eu tenho uma empresa inteira para gerenciar. Não vai dar para almoçar fora hoje. Liv cruza os braços e solta um suspiro de impaciência, apoiando uma das mãos na borda da minha mesa de madeira nobre. — Pelo amor de Deus, Caleb! Você poderia parar por pelo menos uma hora. Não vai acontecer nenhuma tragédia se o grande empresário do ano tirar um tempo para dar atenção à própria namorada. — Se você quisesse almoçar comigo, deveria ter ligado para a minha secretária para agendar um horário com antecedência — aviso, mantendo o tom estritamente profissional. — Se quiser marcar qualquer coisa comigo durante a semana, precisa me avisar antes. Você não pode simplesmente aparecer no meu escritório no meio do expediente e esperar que eu largue reuniões e diretrizes para satisfazer suas vontades do nada. Ela revira os olhos, estalando a língua com irritação. — Você continua exatamente o mesmo chato de sempre. Nós estamos namorando há um ano inteiro e você continua com essa mentalidade quadrada de quando era só o filho do dono. Fecho a pasta de documentos à minha frente e apoio os antebraços sobre a mesa, encarando-a fixamente. — Antes eu trabalhava sob a supervisão do meu pai e compartilhava as decisões com a diretoria. Hoje a presidência da Mobility & Energy é minha, as ações majoritárias são minhas e a responsabilidade por milhares de famílias empregadas cai diretamente sobre os meus ombros. Eu não posso e não vou agir com a irresponsabilidade que você espera só para acompanhar a sua rotina fútil. Liv bufa, ajeitando a postura com um ar desdenhoso. — Maravilha. Então nós marcamos alguma coisa para este final de semana. — Podemos fazer isso. Que tal um jantar no sábado? Ela inclina a cabeça para o lado, como se estivesse fazendo um esforço enorme para puxar pela memória. — Ah, no sábado não vai dar. Eu viajo para Milão na sexta à noite. Tenho a abertura da semana de moda por lá e vários ensaios fotográficos agendados. Sinto um riso amargo escapar pelos meus lábios diante da ironia flagrante. — E como exatamente você quer cobrar presença e compromisso em um relacionamento, Liv, se você passa três semanas por mês viajando pelo mundo a trabalho e a lazer? — Nós damos um jeito, Caleb! — ela retruca, elevando o tom de voz. — Você é o dono dessa multinacional, você é podre de rico! Pode pegar o seu jato e ir para Milão comigo passar o final de semana. — Ser o presidente da empresa é exatamente a razão pela qual eu não posso pegar um avião a hora que bem entender e fingir que meus compromissos em Nova York não existem — respondo de forma cortante, abrindo o relatório novamente para sinalizar que o assunto está encerrado. — Agora, se me dá licença, eu tenho trabalho de verdade para fazer. Liv me encara por longos segundos, nitidamente contrariada por não ter conseguido me manipular. Nosso relacionamento de um ano é exatamente isso: uma casca vazia mantida por conveniência social, um arranjo morno onde cada um segue sua vida sem qualquer profundidade emocional. Eu sei disso, e ela também sabe. — Você é um homem insuportável — ela murmura, recolocando os óculos escuros sobre o rosto com rispidez. — Tchau. Estou indo para o salão de beleza me preparar para a viagem. Não me dou ao trabalho de responder. O som da porta se fechando com força traz de volta o silêncio para a minha sala. Corro os olhos pelas folhas do relatório de expansão internacional. A Mobility & Energy cresceu exponencialmente sob a minha gestão nos últimos anos; consolidamos a liderança no mercado de motores elétricos, baterias de alta duração e fazendas de energia limpa. Para o próximo trimestre, selecionei pessoalmente o perfil dos novos gestores que assumirão a ponte entre a nossa sede e os mercados da Europa e América Latina. Um currículo em especial chamou a atenção da diretoria de RH: uma candidata de Michigan, graduada com honras máximas, fluente em quatro idiomas e com pontuação impecável nos testes de lógica e administração. Ainda não me detive para analisar a fundo o nome ou a foto anexada ao cadastro final; deixei a validação para a reunião presencial que farei nos próximos dias. Volto a focar nos gráficos, empurrando para o fundo da mente aquele aperto sutil no peito que surge toda vez que penso no passado ou na cidade de Michigan. Cinco anos se passaram, e eu continuo tentando me convencer de que aquela história ficou definitivamente para trás.






