####CAPÍTULO 07

Caroline arregala os olhos, empalidecendo ao perceber a linha sagrada que acabou de cruzar sem pedir licença.

— Me desculpa, amiga, por favor, eu falei totalmente sem pensar...

Passo por ela e pego o porta-retrato sobre a mesa de cabeceira, cravando a imagem dos meus filhos na direção do rosto dela.

— Olhe bem para o rosto da Zara e do Owen. Olhe bem para esses dois menininhos andando pela nossa sala todos os dias. Você teria a coragem de olhar nos olhos deles e dizer que eles não deveriam existir só porque o pai deles foi um covarde? Você seria capaz de apagar a vida dos meus filhos?

O olhar de Caroline vacila, e vejo os olhos dela brilharem com lágrimas de puro arrependimento.

— Não... meu Deus, não. Jamais. Eles são perfeitos, Hadasha. Perdoe-me, por favor. Eu fui uma idiota.

Respiro fundo, puxando o ar com força para acalmar o tremor das minhas mãos. Coloco o porta-retrato com todo o cuidado de volta ao seu lugar de destaque e fecho os olhos por um segundo para afastar a onda de raiva.

— Cada pessoa faz as escolhas que bem entende para a própria vida, e eu não estou aqui para julgar o mundo — declaro, com a voz recuperando a firmeza serena. — Mas essa nunca seria a minha escolha. Meus filhos foram desejados por mim a partir do segundo em que descobri que eles existiam dentro do meu ventre. Eles nunca foram um fardo ou uma dor de cabeça. Eles são a minha força.

Caroline se aproxima devagar, estendendo a mão para tocar os meus dedos com delicadeza.

— Me desculpe de verdade. Às vezes eu esqueço a dimensão de tudo o que você teve que suportar sozinha desde muito nova.

Solto uma risada curta, desprovida de qualquer humor, lembrando da tempestade que enfrentei.

— Como se fosse possível esquecer... — murmuro, encarando o vazio do corredor.

Ainda consigo ouvir ecoando na minha mente as gargalhadas maldosas pelos corredores da universidade em Michigan nos primeiros meses. Lembro perfeitamente dos cochichos velados quando a minha barriga começou a despontar sob o moletom, dos apelidos cruéis que me deram por conta dos óculos gigantes e do aparelho metálico. As garotas populares e os rapazes babacas do campus disputavam para ver quem fazia a piada mais ácida: "Quem foi o louco desesperado que teve coragem de se deitar com essa assombração?", "Aposto que ele teve que usar uma venda nos olhos", "Venda nada, só se colocou um saco de lixo na cabeça dela para encarar o serviço e ainda deixou dois filhos de presente!"

Olho diretamente para Caroline, deixando que ela veja a cicatriz daquelas memórias nos meus olhos.

— Você estava lá. Você viu como aquelas pessoas me tratavam, ouviu os absurdos que diziam sobre a minha aparência enquanto eu andava de cabeça baixa. O que você queria que eu fizesse? Que eu saísse me rebaixando ao nível delas? Que me vestisse como uma vulgar qualquer e saísse me deitando com meio mundo só para provar para a sociedade que eu era desejável?

— Não... claro que não — ela murmura, envergonhada.

— Eu me valorizo, Carol — ergo o queixo, sentindo o orgulho legítimo da mulher que me tornei florescer no peito. — Eu não precisava provar nada para ninguém daquela faculdade. Então eu fiz o que qualquer mulher inteligente faria: fechei os meus ouvidos, me escondi atrás das minhas roupas largas, vivi exclusivamente para os meus filhos e estudei até ser a primeira da turma. O resultado está aqui. Concluí a faculdade com honras, passei na pós-graduação e fui contratada pela maior empresa do país.

Caroline sorri, um sorriso sincero e cheio de admiração que desfaz qualquer resquício do nosso atrito.

— E você venceu todas elas. Você tem toda a razão. Mas agora, minha querida amada, chega de discursos profundos porque o relógio está correndo contra nós.

Balanço a cabeça, rindo do entusiasmo repentino dela.

— Lá vem você de novo.

— Nós temos exatamente o período em que a Zara e o Owen estão na escola para cumprir a maratona do seu novo começo — ela diz, pegando o celular e repassando a lista mental. — Primeira parada: oftamologista. Você vai fazer os exames atualizados, trocar esse modelo de óculos que cobre o seu rosto inteiro por algo moderno e funcional, e encomenda as lentes de contato.

— Eu já disse que não vou abandonar os meus óculos 100% do tempo — aviso.

— Não precisa abandonar, mas vai usar lentes no seu dia a dia de trabalho para o mundo enxergar o seu rosto de verdade! Segunda parada: o dentista para remover esse aparelho de vez e fazer um clareamento decente. Terceira parada: o salão de beleza para dar vida a esse cabelo. E quarta parada: shopping. Vamos renovar esse guarda-roupa com roupas de mulher executiva.

— Caroline, nada de roupas escandalosas ou apelativas — me imponho, pegando minha bolsa sobre a cadeira. — Você me conhece. Eu sou uma pessoa discreta e continuarei sendo.

ela pisca para mim enquanto abre a porta do apartamento.

— Discreta sim, Hadasha. Invisível nunca mais.

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