Mundo ficciónIniciar sesiónO DESENCONTRO
No dia seguinte, passo a manhã inteira tentando me concentrar no escritório, mas a tarefa se mostra absolutamente impossível. —Meu pai deixou uma pilha de documentos sobre a mesa para que eu começasse a me inteirar dos negócios da família antes de ir para Harvard, mas as linhas impressas se transformam em um borrão incompreensível diante dos meus olhos. Cada vez que tento focar na leitura, a imagem de Hadasha caminhando sozinha até a saída do clube — e o brilho vermelho das lanternas do carro se afastando na noite — invade meus pensamentos com uma violência sufocante. A sensação de culpa corrói meu peito a cada minuto que passa. Logo após o almoço, não suporto mais a angústia de ficar parado. Pego as chaves do carro e saio de casa determinado a colocar um ponto final naquele mal-entendido de uma vez por todas. — Durante todo o percurso até a residência dela, minha mente se transforma em um ensaio ininterrupto: repito mentalmente cada frase, cada pedido de desculpas e cada explicação. — Vou contar a verdade, explicar que Liv me puxou para dançar, que aquele beijo foi um ato desrespeitoso e unilateral que não significou nada para mim, e que minha intenção real sempre foi apresentá-la formalmente como minha namorada diante de todo o colégio. Estaciono na calçada em frente à casa dela. O motor do carro morre, mas meu coração dispara em um ritmo descontrolado. — Apoio as mãos no volante por um instante, respiro fundo para tentar reunir alguma firmeza e caminho até a varanda. Quando aperto a campainha, sinto minhas mãos levemente trêmulas. Esperar por aqueles segundos parece uma eternidade. A porta finalmente se abre, revelando dona Kelly. — Oi, Caleb — cumprimenta ela, mantendo um tom contido. Forço um pequeno sorriso de cortesia, tentando disfarçar o nervosismo que me domina. — Boa tarde, dona Kelly. A Hadasha está? Eu gostaria muito de conversar com ela, por favor. Observo o sorriso gentil e acolhedor que ela sempre teve desaparecer gradualmente de seu rosto. —A expressão de dona Kelly se torna grave, carregada de uma serenidade triste que faz meu estômago despencar antes mesmo de ela pronunciar a primeira palavra. — Não vai ser possível, Caleb — responde ela, com a voz suave, porém inflexível. Franzo a testa, sentindo uma pontada de ansiedade atravessar meu peito. — Ela saiu? Foi ao mercado ou ao salão? Dona Kelly solta um suspiro profundo, cruzando os braços de forma protetora antes de me dar a notícia. — Ela viajou hoje, ao meio-dia. A confirmação cai sobre mim como um golpe físico. O ar parece faltar por alguns segundos enquanto tento processar a informação. — Viajou? — repito, desacreditado, sentindo a voz falhar. — Sim — confirma ela com um leve movimento de cabeça. — A Hadasha decidiu antecipar a ida para organizar o apartamento onde vai morar, conhecer o campus da faculdade e resolver toda a documentação necessária antes do início das aulas. Ela quis ir logo. Permaneço em silêncio, encarando dona Kelly enquanto a ficha tenta cair. Tudo aconteceu rápido demais. Algumas horas atrás nós estávamos juntos, e agora ela simplesmente não estava mais na cidade. — A senhora pode me dizer para onde ela foi? — pergunto, tentando manter o controle. — Michigan — responde ela, direta e serena. Engulo em seco, sentindo a distância geográfica se transformar em uma barreira gigante entre nós. — A senhora pode me passar o número do telefone dela? Ou o endereço exato de onde ela vai ficar? Eu preciso muito falar com ela, dona Kelly... preciso explicar o que aconteceu. Dona Kelly balança a cabeça negativamente, negando o pedido sem hesitação. — Sinto muito, Caleb. A Hadasha me pediu expressamente que não desse nem o telefone e nem o endereço dela a você. A recusa atinge meu peito com a força de uma lâmina. A dor de saber que ela ergueu essa parede entre nós é quase insuportável. — Por quê? — questiono em um sussurro, tentando buscar algum sentido. Ela me encara com uma mistura de compaixão e firmeza de mãe. — Porque ela viu você e a Liv se beijando naquele corredor. Baixo os olhos para o chão da varanda, incapaz de sustentar o olhar dela. A confirmação de que Hadasha presenciou aquela cena dói muito mais do que qualquer especulação que fiz durante a madrugada. — Dona Kelly... não foi o que pareceu. Eu não... Ela ergue delicadamente a mão no ar, interrompendo minha tentativa de justificativa antes que eu possa terminar a frase. — Caleb... a Hadasha entendeu a mensagem. Ela compreendeu que vocês são apenas amigos de famílias conhecidas e que ela acabou criando expectativas românticas onde não deveria. Portanto, você não precisa se justificar ou se culpar. Ela tomou a decisão dela e escolheu seguir em frente com a vida dela. Passo a mão pela nuca, pressionando a pele em uma tentativa desesperada de conter a frustração que ameaça me sufocar. — Mas não foi isso que aconteceu! A Liv me pegou de surpresa, eu a empurrei... eu amo a sua filha! Dona Kelly oferece um sorriso triste e compreensivo. — Não se preocupe com a Hadasha. Ela é uma garota forte e vai ficar bem. Agora você precisa seguir o seu caminho. Eu sei que você está de partida para Harvard para fazer o seu doutorado, e sei também o quanto o seu pai conta com você para começar a assumir a responsabilidade pelas empresas da família. Sua rotina vai ser extremamente exigente. Quem sabe, no futuro, durante alguma pausa de férias, vocês não acabem se reencontrando por acaso? Meu coração se aperta ainda mais. A ideia de aceitar o afastamento como algo inevitável parece absurda. — Eu realmente queria muito conversar com ela... só precisava de cinco minutos. Dona Kelly solta um suspiro longo, encarando o jardim antes de voltar os olhos para mim. — O sonho de adolescente da Hadasha acabou ontem à noite, Caleb. Aquelas palavras entram no meu peito com o impacto de um soco. O peso da realidade começa a se impor de forma devastadora. — O Cole e eu sempre soubemos que você era o grande ideal da nossa filha — continua ela, mantendo o tom calmo. — Sempre percebemos a forma diferente como ela olhava para você ao longo dos anos. O nosso maior receio sempre foi ver a Hadasha sofrer por causa dessa ilusão. Ao mesmo tempo, justo ser honesta: nós sempre reconhecemos que você a tratou com muito carinho e respeito. Sinto a culpa pesar toneladas sobre meus ombros. Não consigo encarar a mãe da garota cuja confiança acabei de estraçalhar. — Dona Kelly... eu juro pela minha vida que nunca quis machucá-la. Ela sorri com uma compaixão genuína. — Eu sei, meu querido. Eu realmente me dou ao luxo de acreditar em você. Levanto a cabeça imediatamente, buscando qualquer brecha de esperança no olhar dela. — Acredita? — Sim, eu acredito — afirma ela. — Mas, infelizmente, na vida adulta, as consequências dolorosas acontecem independentemente de quais eram as nossas melhores intenções. Talvez esse choque de realidade tenha sido um passo necessário para o amadurecimento dela. A Hadasha vai viver novas experiências em Michigan, vai conhecer outras pessoas, descobrir o próprio valor e construir a história dela longe das sombras do passado. Respiro profundamente, tentando engolir o nó que trava minha garganta e o vazio congelante que se espalha dentro de mim. Dona Kelly dá um passo à frente e coloca delicadamente a mão sobre o meu braço. — Viva a sua vida, Caleb. Deixe a Hadasha viver a dela. Fecho os olhos por um segundo, ouvindo exatamente o oposto de tudo o que desejava escutar quando saí de casa. — Eu sinto muito... — murmuro. — Eu também sinto, filho — responde ela com tristeza. O silêncio volta a se instalar na varanda por alguns instantes, pesado e definitivo. Quando penso em me despedir, dona Kelly completa com a voz serena, me desferindo o golpe final: — Obrigada por ter tido a consideração de levá-la ao baile ontem. Se você não tivesse feito aquele convite, ela teria ido sozinha ou até mesmo desistido de ir. Mas, infelizmente, no final das contas, ela acabou ficando sozinha do mesmo jeito. A Liv monopolizou todo o seu tempo no salão, e você acabou se esquecendo da minha filha lá fora. Sinto meu rosto queimar de vergonha. A verdade crua daquelas palavras desfaz qualquer defesa que eu pudesse tentar articular. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu, o véu da minha própria arrogância se desfaz: não me enxergo mais como o rapaz bem-intencionado tentando desfazer um mal-entendido, mas como um homem imaturo que falhou miseravelmente em proteger a única mulher que realmente importava. Abaixo a cabeça, completamente derrotado. — Me desculpe. Dona Kelly apenas faz um leve gesto de concordância com a cabeça, aceitando minhas desculpas sem fazer promessas. Sem forças para dizer mais nada, agradeço pela conversa, dou meia-volta e caminho lentamente até o carro. Entro no veículo e ligo o motor, encarando o parabrisa enquanto uma única e amarga certeza se consolida na minha mente: eu cheguei tarde demais.






