####CAPÍTULO 06

CINCO ANOS DEPOIS

HADASHA

Fecho a tampa do notebook com um estalo seco que ecoa pelo quarto silencioso e solto o ar que nem percebia estar prendendo nos pulmões. Meus olhos queimam pelo excesso de tela, mas a sensação de dever cumprido traz um alívio imediato ao meu peito. Envio os últimos documentos pelo portal de admissão da empresa e encosto a cabeça na cadeira de escritório, encarando o teto por alguns segundos. Meu currículo completo, os certificados de conclusão da faculdade de Administração Internacional, os comprovantes das extensões, as cartas de recomendação dos antigos estágios em Michigan... está tudo oficialmente entregue.

Ainda sinto um nó apertado na garganta ao tentar assimilar essa conquista. Cinco anos. Cinco anos exatos se passaram desde o dia em que arrumei duas malas com o que tinha de mais essencial e deixei minha cidade natal com a promessa silenciosa de jamais olhar para trás ou permitir que a dor da rejeição ditasse o meu futuro.

— Você ainda está congelada nessa mesma posição? — a voz da Caroline surge da porta do meu quarto, interrompendo o fluxo das minhas memórias.

Viro o rosto devagar e encontro minha melhor amiga e colega de apartamento apoiada no batente. Ela segura uma xícara de café fumegante, cruzando os braços com aquela postura de quem está prestes a aplicar um sermão meticulosamente planejado.

— Estou apenas absorvendo o momento — respondo, abrindo um pequeno sorriso e ajeitando a armação grossa e pesada dos meus óculos sobre a ponte do nariz. — Acabei de enviar os formulários finais.

Caroline dá alguns passos para dentro do ambiente, balançando a cabeça com uma mistura de orgulho e impaciência que já conheço de cor desde os nossos primeiros dias na faculdade.

— Pois absorva rápido, minha cara, porque você tem exatamente três dias antes de atravessar a recepção da Mobility & Energy Harris Group como a nova contratada do setor internacional. Três dias.

Meu coração dá um salto violento dentro do peito só de ouvir o nome da multinacional. A disputa por essa vaga específica de gestão e logística internacional foi uma das mais sangrentas e concorridas do mercado neste semestre. Quando o e-mail de aprovação chegou na minha caixa de entrada confirmando que meu perfil havia sido o escolhido entre centenas de candidatos, chorei abraçada à minha mãe até ficar sem forças. Não chorei apenas por mim ou pela conquista acadêmica em si, mas por Zara, por Owen, e por todo o sacrifício que meus pais fizeram para que eu não precisasse abandonar meus sonhos no meio do caminho.

— Eu sei do prazo, Carol — digo, soltando um suspiro leve enquanto me espreguiço.

— Não, você definitivamente não sabe — ela retruca, apontando o indicador para mim, cobrindo todo o meu corpo em um gesto acusatório. — Olhe para você, Hadasha. Você vai se apresentar no departamento executivo da maior empresa de tecnologia, mobilidade e energia limpa do país parecendo uma caloura assustada do primeiro semestre de graduação.

Baixo os olhos para o meu corpo, ajustando o tecido felpudo do moletom cinza três vezes maior do que o meu tamanho real que estou usando.

— Qual é o problema com o meu moletom? Ele está limpo e é extremamente confortável.

— O problema é que você usa essa mesma blindagem de pano desde que nos conhecemos no campus em Michigan! — ela exclama, colocando a xícara sobre a minha escrivaninha e cruzando as mãos na cintura. — Hoje começa oficialmente a operação para tirar você dessa caverna.

Solto uma risada genuína, balançando a cabeça diante do drama dela.

— Carol, por favor. Eu fiz a faculdade inteira, passei por dois estágios extremamente exigentes e alcancei a nota máxima no meu TCC usando exatamente este mesmo estilo. Meu moletom e meus óculos nunca me impediram de ser a melhor da turma ou de conquistar o meu espaço pelo meu cérebro.

— Não impediram você de tirar dez em tudo, é verdade, mas espantaram absolutamente todos os homens em um raio de dez quilômetros do campus — ela rebate sem um pingo de hesitação, sentando-se na ponta da minha cama. — Você parecia uma mistura de Betty, a Feia com um monge recluso.

Reviro os olhos, embora precise admitir internamente que ela não está totalmente errada.

— Obrigada pela parte que me toca, mas você sabe muito bem que isso nunca foi um acidente ou falta de opção.

— Eu sei — o tom dela finalmente suaviza, e o olhar da minha amiga se torna compreensivo. — Nós duas sabemos que você criou essa carcaça de propósito.

Dou de ombros, encarando as minhas próprias mãos sobre a mesa. Era a mais pura verdade. Eu nunca tive o menor interesse em chamar atenção nos corredores da faculdade, em participar de festas universitárias ou em disputar olhares com quem quer que fosse. Fazer questão de me manter feia, escondida sob roupas largas, óculos de grau exagerados e o aparelho nos dentes que mantive por anos a fio foi a minha escolha deliberada de proteção. Era a minha armadura contra o mundo.

— Para que eu iria querer ficar bonita, Caroline? — pergunto com a voz baixa, mas carregada de uma convicção inabalável. — Para atrair homens? Eu não tenho o menor interesse em relacionamentos românticos. O primeiro e único homem que permiti que entrasse na minha vida me deu o meu maior diploma antes mesmo de eu concluir a graduação. Na verdade, me deu dois.

Caroline me encara em silêncio por um segundo, e o vinco entre suas sobrancelhas se desfaz devagar.

— Dois?

— Zara e Owen — respondo, e um sorriso involuntário surge em meus lábios. — Minha graduação e minha pós-graduação, entregues juntas, de uma só vez.

Viro o rosto para a mesa de cabeceira ao lado da cama, onde um porta-retrato de madeira ostenta a foto mais recente dos meus gêmeos. Na imagem, Zara arruma o laço no cabelo com uma postura decidida que lembra muito a minha mãe, enquanto Owen sorri abertamente para a câmera, exibindo a janelinha dente de leite que perdeu recentemente. Meus filhos são a minha razão de existir, o motor que me faz levantar todos os dias às cinco da manhã sem direito a reclamar do cansaço.

— Se não fossem os meus pais assumindo a retaguarda em Michigan... — murmuro, sentindo uma onda pesada de gratidão me invadir. — Se não fosse o apoio financeiro do meu pai e a minha mãe garantindo que as crianças tivessem uma estrutura impecável com a babá enquanto eu passava noites em claro estudando, eu jamais teria chegado aqui. Eu devo tudo a eles.

— Eles foram surrealmente incríveis com você — Caroline concorda, ajeitando a postura. Ela presenciou a minha rotina insana durante os anos de faculdade, as madrugadas em que estudei com o peito doendo de exaustão logo após amamentar ou colocar os dois para dormir.

O silêncio reina no quarto por alguns instantes, denso e reflexivo, até que Caroline solta uma frase sem pensar, solta no ar como um mero comentário hipotético:

— É claro que... vendo de fora, qualquer outra pessoa no seu lugar teria interrompido a gravidez naquela época para não estragar o futuro.

A atmosfera no quarto congela no mesmo milissegundo.

Sinto o meu sangue gelando nas veias e meu corpo inteiro se enrijece. Viro-me para ela tão rápido que a armação dos meus óculos quase escorrega pelo nariz.

— Caroline — minha voz sai baixa, mas com um peso de chumbo que faz o sorriso sumir do rosto dela instantaneamente.

— Hadasha, eu só...

— Você enlouqueceu? — me levanto da cadeira em um salto, levando a mão ao peito onde meu coração martela com fúria. — Eu sou cristã! Os meus princípios, a minha fé e a minha consciência jamais aceitariam uma atrocidade dessas. Nunca mais ouse repetir uma palavra sobre isso na minha frente!

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App