Mundo ficciónIniciar sesiónEla ama um homem que talvez nunca tenha existido. Após um acidente apagar partes do seu passado, Bella se agarra à memória de Anton, um homem calmo e gentil, mesmo sabendo que ele mentiu. Agora, presa a um casamento no mundo da máfia, ela tenta permanecer fiel ao que sente. Até conhecer Leo. Frio. Sincero. Alguém que não finge para ela, alguém Impossível de ignorar. E pela primeira vez, Bella não sabe se o mais perigoso é lembrar daquele acidente, ou se apaixonar de novo.
Leer másPOV: Bella
O vento parecia mais cortante quando fechei as portas da cafeteria. As correntes geladas de Lakeshire atravessavam o tecido do casaco, queimando meu rosto, fazendo meu nariz formigar e meus olhos lacrimejarem. O cheiro de café torrado ainda estava preso aos meus cabelos, misturado ao doce enjoativo das tortas que eu havia embalado minutos antes. Inverno. Eu odiava o inverno. Odiava o frio. Odiava a forma como tudo ficava silencioso demais nessa época. E odiava, mais do que tudo, o silêncio que Mason vinha me impondo. “Gargamel estava um porre como sempre. Dá pra acreditar que ele me fez trocar o expresso duas vezes? Acho que ele está com saudade de você. Me diz que vem amanhã.” Digitei rápido, os dedos rígidos pelo frio, errando uma letra, apagando, reescrevendo. Enviei antes que pudesse reler. Antes que pudesse pensar se aquilo soava carente demais. A luz do celular refletiu no vidro da vitrine e, por um segundo, vi meu próprio reflexo: pálida, cansada, olheiras fundas, o rosto de quem vinha esticando os turnos por causa do Natal. Trabalhar mais sempre parecia uma boa desculpa para não pensar. Mason não respondia há três dias. Três dias em que eu revivia aquela noite, a proximidade inesperada, o jeito como a boca dele quase encostou na minha e como a voz saiu baixa quando ele disse que eu era “mais especial do que deveria”. Qual é. Eu tinha namorado. Recuar tinha parecido certo. Agora só parecia covarde para dizer que eu não sentia nada por ele. Guardei o celular no bolso com força demais, como se aquilo pudesse silenciar meus pensamentos. Respirei fundo. Balancei a cabeça. Mason era meu amigo, só isso. Sempre foi. Desde o dia em que um cliente me tratou mal e ele me fez rir, comparando o homem ao Gargamel. Desde então, a gente falava sobre tudo. Café, filmes ruins, pessoas irritantes, a vida como ela era. Talvez fosse isso que doía: a facilidade. A leveza. O fato de eu nunca precisar medir palavras com ele. Ajeitei a alça da bolsa no ombro e comecei a caminhar até o carro estacionado em frente à cafeteria. O Audi preto de Anton. Sempre limpo. Sempre no mesmo lugar. Sempre esperando. Ele já estava lá. Sorri sem mostrar os dentes, ensaiando uma naturalidade que eu não sentia. Parte de mim quis voltar, girar a chave da cafeteria outra vez, fingir que tinha esquecido algo lá dentro. Outra parte, mais cansada, mais acostumada a ceder, seguiu em frente. Eu não queria parecer uma pirralha insegura. Anton era gentil, educado, pontual. O tipo de homem que parecia viver num mundo organizado, controlado, onde tudo tinha hora e lugar. E eu… eu só queria acreditar que finalmente estava bem. Gentileza. Bondade. Era só isso que eu queria. Não precisava de amor. Não depois de tudo. E ele era isso para mim. A lataria estava gelada quando toquei o carro, poucos centímetros da janela entreaberta. “Faça suas merdas sem transtorno da próxima vez. Eu não tenho tempo pra desperdiçar, Anton.” A voz veio seca, grave, e totalmente impaciente. Meu corpo inteiro reagiu antes que eu tivesse tempo de pensar. Um arrepio correu pela minha espinha, e não era só o frio. Havia algo naquele tom que me fez parar, o coração errando o ritmo. Algo duro demais. Cru. Anton estava ao telefone, o celular colado à orelha, o maxilar travado, os olhos fixos em algum ponto da rua. Ele parecia outro homem. “Não vem bancar o santo comigo, Leo.” A forma como ele disse o nome me fez engolir em seco. “Você adora se sujar quando o nome da família tá em jogo.” A risada que escapou não tinha humor nenhum. “Não precisa fingir que é melhor que eu. Você sabe o que eu fiz. E sabe por quê. Então resolve. Como sempre.” Ele fez uma pausa. Olhei ao redor por instinto. A rua estava vazia. Nenhuma janela iluminada. Nenhuma pessoa passando. Só o som distante do vento. “Ou vai preferir explicar pra máfia o que seu irmão andou aprontando?” Meu coração começou a bater rápido demais. Minhas mãos ficaram frias. O mundo parecia ligeiramente fora do eixo. Anton encerrou a ligação com um toque seco. Por alguns segundos, ficou imóvel, respirando fundo, como se estivesse se reorganizando por dentro. Então ergueu o rosto. Quando nossos olhares se cruzaram, algo mudou. O semblante endurecido se suavizou quase de imediato. “Bella, meu amor…” A voz doce demais. “Não me disse que já tinha terminado o expediente.” O contraste me deixou tonta. “Você… você disse que seus pais moravam na Itália.” Minha voz saiu fraca. “Você mentiu sobre tudo.” E do nada, ele estava na minha frente, antes que eu percebesse, antes que eu pudesse assimilar qualquer coisa. Perto demais. O rosto já não era calmo. Os lábios rígidos, o pescoço tenso, as narinas abertas. “Não é nada do que você está pensando.” Dei um passo para trás. “Como você pôde fingir por meses?” Minha voz falhou. O olhar dele mudou. Primeiro confusão. Depois irritação. Algo mais escuro. “Você está exagerando.” As palavras vieram controladas demais. “Sempre faz isso de distorcer as coisas.” Outro passo para trás. Ele avançou rápido e segurou meus braços. O aperto doeu. “Me solta. Eu preciso ir.” “Entra no carro.” A ordem veio baixa, firme. “Nós vamos conversar.” “Eu... Eu, tenho coisas para resolver.” Ele suspirou, como se eu fosse um problema menor do dia. “Você não entende o quanto eu fiz por nós.” O olhar percorreu meu rosto, avaliando. “Você é muito dramática.” Meus olhos arderam. “Você sempre se faz de frágil.” A voz perdeu a suavidade. “E depois age como se o mundo te devesse alguma coisa. Ninguém ficaria com você. Só eu. Olha pra você. O cheiro de café barato, essas roupas, esses livros idiotas. Olhe para você. Nem mesmo consegue me satisfazer na cama, só eu poderia quere-la.” Disse, empurrando meu corpo contra o carro. Reconheci aquele tom. Aquela lógica distorcida. Aquilo não era novo. Era só… familiar demais. “Você não vai sair de perto de mim por causa de um surto seu.” Seus dedos me puxaram de volta, dessa vez me deixando contra o banco frio do carona. A porta do carro bateu com força. O veículo arrancou rápido demais. Por um segundo eu não consegui nem respirar direito. O som do motor parecia mais alto por dentro, agressivo, como se cada aceleração fosse um aviso que eu não conseguia interpretar. As luzes da rua começaram a passar depressa demais pela janela, borradas, irreais. Meu coração batia tão forte que doía. “Anton, por favor…” Minha voz saiu fina, quebrada, quase infantil. Eu odiava aquilo. O jeito como o medo me diminuía, o jeito como eu estava prestes a ceder para o que ele queria. Ele não respondeu. A mão direita segurava o volante com força excessiva. Os dedos brancos. O maxilar travado. O olhar fixo no velocímetro, como se aquilo fosse mais importante do que eu chorando ao lado. Não era raiva. Era pior. Era frio, controlado, sem remorso. Puxei o cinto de segurança com pressa, o clique soando alto demais no silêncio dentro do carro. O gesto foi automático, desesperado. Como se aquilo pudesse me proteger de algo que eu ainda não tinha coragem de nomear. Anton sempre foi assim? “Você não é assim.” Engoli em seco, repetindo, querendo acreditar nisso. Nada. A cidade parecia diferente à noite. Mais vazia. Mais distante. As ruas longas demais, mal iluminadas, como se não houvesse ninguém por perto para ver, para ouvir, para impedir. Foi quando me lembrei do celular. O bolso do casaco parecia longe demais. Meus dedos tremiam tanto que quase deixei o aparelho cair quando consegui puxá-lo. A tela acendeu forte demais contra meus olhos marejados. Mason. Eu poderia ligar. Eu precisava ligar. Anton não virou o rosto por completo, mas os olhos me encontraram pelo retrovisor, e sua íris parecia ferver naquele instante, finalmente a raiva, o ódio, mais familiar ainda. “Filha da puta.” A palavra veio antes do movimento. A mão largou o volante por tempo demais. Tentei puxar o celular para perto do peito, como se aquilo fosse resolver alguma coisa. Nossas mãos se chocaram. O impacto doeu. O aparelho caiu no assoalho. “Para!” Gritei. “Olha a estrada!” Por um segundo, ele não olhou. Foi rápido. Rápido demais para pensar, lento demais para que eu não pudesse gravar cada segundo. O som veio antes da dor. Um ruído ensurdecedor. O som do pneu derrapando, seguido pelo metal se torcendo. O rosto de Anton sendo afastado de mim, enquanto partículas de vidro preenchiam o ar. Meu corpo foi lançado para frente, depois para o lado. O cinto pressionou meu peito com força. Senti o estalo seco em algum lugar que eu não consegui identificar, e então meus olhos se fecharam. Dizem que temos sete segundos antes de morrer. Sete segundos para reviver cada momento que nos sentimos amados. Eu não acreditava nisso, e nem poderia, seria ainda mais cruel saber que tudo se resumiria a uma tela vazia e silenciosa, mas então eu senti o calor, enquanto o sol clareava meus olhos. Quando enfim pude ver outra vez, o gramado estava sob os meus pés. Verde demais. Perfeito demais. O mais bonito e bem cuidado que eu já tinha visto. Minha cabeça doía, mas ainda assim consegui sorrir quando senti um girassol roçar meu tornozelo. Girei devagar, confusa, tentando entender onde estava. Então vi ele. A silhueta surgiu à minha frente, e meus olhos foram direto para os dele antes mesmo que eu pudesse reparar em qualquer outro detalhe. Dourados. Intensos. Tão intensos e seguros. Algo suavizou ainda mais, e um brilho surgiu ali, quase sorrindo para mim com os olhos, como se meu corpo finalmente tivesse permissão para parar de lutar, agora eu podia só viver. Não eram lembranças minhas. Eu sabia disso. Mesmo assim, cada parte de mim queria ficar. O silêncio contrastava com a forma que tudo em mim gritava por salvação agora que eu havia sentido o que era estar viva. Seu olhar parecia penetrar a minha alma no instante em que cada célula do meu corpo se acalmou. E então tudo virou escuridão.POV: BellaO problema não é exatamente estar presa.É estar presa aqui.A poltrona ao lado da lareira me deixa de frente para Leo, e eu faço questão de não olhar para ele. Em vez disso, prendo a atenção na parede de vidro, com os flocos brancos apagando as cores das árvores que cercam o jardim. O tipo de coisa que seria perfeito se eu estivesse em qualquer outro lugar, com qualquer outra pessoa.O espaço continua o mesmo, mas é como se as paredes estivessem se aproximado um pouco sem avisar.Mesmo forçando o olhar para a paisagem, eu ainda o ouço emquanto fala ao telefone, com o que eu deduzo ser Mikey do outro lado da linha. Quando desliga, não faz questão de me explicar o que aconteceu, então o que me sobra são as frases pela metade, que deixam escapar só o suficiente para que eu junte o resto sozinha.A temperatura caiu rápido demais. O metal contraiu graças a mansão ser antiga, então a trava interna armou assim que desalinhou
POV: BellaO cheiro amanteigado invade meu nariz, enquanto toco o puxador do forno. Normalmente, os barulhos de passos, talheres, panelas, ou coisas do tipo estariam por aqui, mas não na noite de natal. Misteriosamente, hoje eu parecia um fantasma que circulava pela casa de Leo, que eu deduzia estar ocupado demais em seu escritorio. Fico alguns segundos parada diante da bancada, olhando para a bandeja recém saída do forno como se ainda estivesse tentando entender em que momento exatamente decidi fazer aquilo. Eu não tinha nem a receita exata, só uns números embaraçados do que eu tinha aprendido na cafeteria, e a necessidade de ocupar as mãos. De fazer alguma coisa que exigisse atenção suficiente para que eu não precisasse pensar no fato de que essa casa, enorme, agora só tem duas pessoas dentro dela.E nenhuma das duas sabe muito bem o que fazer com isso.A cozinha continua impecável, como se a noite de ontem tivesse sido ape
POV: BellaA sala parece menor agora que estou sentada nela. Não por causa da altura do teto ou da disposição dos móveis, mas porque agora existem pessoas ocupando cada cadeira, cada canto, cada pedaço de ar entre uma respiração e outra. Pessoas observando. Pessoas ouvindo. Pessoas que, mesmo quando fingem olhar para o padre ou para as velas acesas na mesa, ainda assim parecem notar cada movimento que Leo faz.E eu estou no meio disso.Por um momento absurdo, penso que é assim que um animal deve se sentir quando percebe que o círculo ao redor dele se fechou devagar demais para que ele notasse.Como algo sendo observado antes do abate.Meu olhar se fixa nas velas sobre a mesa porque é mais fácil focar nelas do que nas pessoas. Elas estão exatamente onde eu as deixei. Alinhadas. Nem muito próximas umas das outras, nem espaçadas demais. Passei um tempo decidindo isso esta manhã, movendo cada uma alguns centímetros para a esquerda ou para a direita até parecer… certo. Era exaustivo sorri
POV: Léo O espelho não me intimida. Ele devolve exatamente o que eu construí ao longo dos anos, sem distorção, sem suavizar ângulos, sem piedade. A luz amarelada do quarto marca meu rosto com sombras mais duras do que durante o dia, e o terno preto se ajusta aos ombros com a precisão de algo feito sob medida, como se tivesse sido moldado para não permitir falhas. Não há uma dobra fora do lugar. Passo os dedos pelo nó da gravata e o aperto devagar, sentindo o tecido deslizar firme entre meus dedos, alinhando cada detalhe até que tudo esteja exatamente onde deve estar. Do lado de fora, a casa respira diferente. O cheiro de especiarias invade o corredor, canela, cravo, algo doce demais para meu olfato. As luzes estão mais suaves, quase acolhedoras. O Natal sempre faz isso, cria um ambiente que sugere calor mesmo quando ele não existe. Sustento meu próprio olhar por mais um segundo no reflexo antes de abotoar o paletó e sair. O corredor está decorado com discrição, pinho natura










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