Mundo de ficçãoIniciar sessãoCristais e Distâncias
O lustre Baccarat pendia do teto alto como uma constelação domesticada, cada cristal capturando e devolvendo a luz em fragmentos dourados que dançavam sobre as paredes revestidas em mármore travertino. A cobertura triplex nos Jardins reunia a elite que realmente importava, não os novos-ricos barulhentos do mercado financeiro, mas a aristocracia silenciosa do dinheiro antigo, herdado através de gerações de fazendas de café, empreiteiras e participações estratégicas em conglomerados multinacionais.
Enzo Cavalcanti se movia por aquele ambiente com a naturalidade de quem nascera nele. Aos trinta e oito anos, ele possuía o tipo de presença que fazia conversas pararem sutilmente quando entrava em um cômodo. Com 1,85m de altura, ombros largos esculpidos por anos de remo e natação, mandíbula marcada e cabelos grisalhos prematuros nas têmporas que só aumentavam seu apelo, Enzo era o retrato do patriarca contemporâneo. Seu terno Brioni cinza-chumbo caía sobre o corpo musculoso com elegância discreta.
Ao seu lado, segurando uma taça de Bollinger rosé com dedos adornados por um anel de esmeraldas colombianas, estava Helena. Sua esposa há sete anos era uma criatura de beleza clássica e fria — pele de porcelana, cabelos loiros presos em um coque impecável, vestido Valentino preto que revelava clavículas proeminentes. Helena vinha de uma família ainda mais tradicional que a dele, filha de um desembargador e neta de um ministro do Supremo.
— O desfile da Dior foi absolutamente transcendental — dizia Helena para um círculo de três casais, sua voz modulada e sem emoção excessiva. — Maria Grazia realmente capturou a essência do feminino arquetípico. Ficamos na suíte Coco Chanel do Ritz, como sempre. Enzo detesta o George V, acha vulgar demais.
Enzo sorriu educadamente, os olhos verdes percorrendo o ambiente. Ele confirmou com um aceno, mas não acrescentou nada. Havia entre eles um tipo de coreografia social perfeitamente ensaiada — ela conduzia a conversa mundana, ele oferecia a presença silenciosa e imponente que validava tudo o que era dito.
— E o pequeno Theo? — perguntou uma das mulheres. — Deve estar enorme já!
Helena sorriu, mas o gesto não alcançou os olhos azul-glacial.
— Theo está bem. Quatro anos agora. Fica em casa com a babá durante essas viagens. Criança pequena ainda não aprecia a cultura europeia.
Enzo sentiu uma pontada de algo — não exatamente culpa, mas um desconforto indefinido. Theo. Seu filho. Um menino de olhos enormes e curiosos que o chamava de "papai" com uma esperança ansiosa sempre que ele chegava em casa, geralmente tarde, geralmente cansado.
A conversa derivou para a crise política, depois para fundos de investimento. Enzo participou com comentários econômicos precisos, sua formação em Stanford e MBA em Harvard garantindo que suas análises fossem ouvidas com deferência. Mas, por baixo da máscara de sofisticação, ele sentia o peso familiar do tédio e de algo mais profundo que preferia não nomear.
Ele e Helena eram um casal perfeito no papel — linhagens compatíveis, patrimônios complementares, círculos sociais sobrepostos. Mas havia entre eles uma vastidão emocional, um espaço vazio que nenhum jantar em restaurantes estrelados ou weekend em Trancoso conseguia preencher. Eles dormiam em suítes separadas havia dois anos. O sexo, quando acontecia, tinha a eficiência mecânica de um protocolo diplomático.
Era quase meia-noite quando o último convidado se despediu. O mordomo filipino recolhia discretamente as taças de cristal enquanto Enzo afrouxava a gravata Hermès. Helena tirou os scarpin Jimmy Choo e serviu-se de um último gole de champanhe.
— Precisamos conversar sobre a Cleide — disse ela, sem rodeios, olhando pela janela para a São Paulo iluminada lá embaixo.
Enzo ergueu uma sobrancelha. Cleide era a babá de Theo havia quase três anos — uma mulher simpática do interior de Minas, cinquenta e poucos anos, que cuidava do menino com carinho genuíno.
— O que tem a Cleide?
Helena virou-se, os braços cruzados sobre o peito magro.
— Ela precisa ser substituída.
— Por quê? — Enzo franziu a testa. — Theo adora a Cleide. Ela é dedicada, honesta...
— E simplória — cortou Helena, a voz ganhando uma aresta afiada. — Enzo, Theo tem quatro anos. Ele está começando a formar sua visão de mundo, seus padrões culturais. A Cleide mal terminou o ensino médio. Ela fala errado, assiste programas de auditório, ensina músicas bregas para ele. Ontem o encontrei cantando sertanejo universitário.
Enzo quase riu, mas conteve-se ao ver a seriedade no rosto da esposa.
— Helena, ele é uma criança...
— Exatamente. E é agora que se molda caráter e refinamento. — Helena depositou a taça com um toque seco sobre o aparador. — Eu quero alguém com formação. Educação superior, fluência em inglês, postura adequada. Alguém que seja uma influência positiva, não apenas uma funcionária que troca fraldas.
Enzo passou a mão pelo cabelo, sentindo o cansaço da noite pesar sobre os ombros largos.
— Você quer uma babá com diploma universitário? Helena, isso vai custar uma fortuna.
— Temos uma fortuna — retrucou ela, erguendo o queixo com aquela altivez aristocrática que ele conhecia tão bem. — E eu não vou negociar o futuro do meu filho por economia. Pode demitir a Cleide amanhã. Pague a ela o que for justo, três meses, seis meses, não importa. Mas quero alguém novo até o fim do mês.
Ela virou-se para sair, mas parou na soleira da porta, sem olhar para trás.
— E Enzo? Dessa vez, por favor, envolva-se no processo. Você é o pai dele. Escolha alguém que realmente agregue valor à vida de Theo. Não apenas a primeira candidata que aparece.
A porta da suíte master se fechou com um clique suave. Enzo ficou sozinho na sala imensa, o silêncio quebrado apenas pelo zumbido distante do ar-condicionado central. Ele olhou para o retrato de família pendurado na parede — ele, Helena e Theo em Búzios, todos de branco, sorrisos perfeitos e vazios.
Encontrar uma babá. Mais uma tarefa administrativa em sua lista interminável. Mas, enquanto afrouxava o nó da gravata e olhava para a cidade lá embaixo, Enzo não podia imaginar que aquela decisão — contratar alguém "com formação, postura e refinamento" — seria a fagulha que incendiaria a ordem cuidadosamente construída de sua vida.
Alguém estava prestes a entrar naquela casa. Alguém jovem, ambiciosa, poderosa em sua própria pele. Alguém que não se contentaria em ser apenas mais uma peça invisível na engrenagem doméstica.
Alguém como Mariana.







