CAPÍTULO 9 — ELE COMEÇA A SEGUIR

A noite descia sobre o Vale de Jalisco com aquela lentidão quente que deixava o ar pesado e vibrante, enquanto o pátio da Hacienda diminuía o ritmo aos poucos, embora ainda houvesse trabalhadores fechando registros, empilhando caixas e apagando luzes dispersas. O cheiro de madeira saturada de álcool e de agave recém-cozido permanecia no ambiente como uma cortina perfumada, e Camila caminhou por entre os corredores com passos firmes, tentando se concentrar apenas na sensação do chão sob os pés, como se isso fosse suficiente para afastar da mente a lembrança do toque de Rafael segurando seu queixo algumas horas antes.

Era inútil.

O corpo reagia antes da razão, e isso a irritava profundamente.

Quando alcançou o alojamento, trancou a porta por dentro, apoiou a testa na madeira e respirou fundo, tentando recuperar uma estabilidade que parecia escapar por entre os dedos desde o momento em que Rafael notara o bloco de notas. Entrou no quarto pequeno, tirou o jaleco e deixou-o cair sobre a cadeira, caminhando até a cama estreita onde havia deixado o bloco do pai mais cedo. Pegou-o com cuidado e abriu na página onde ele escrevera aquela frase que martelava na mente dela como uma acusação silenciosa:

“Eles vão usar meu trabalho. Mas não vão admitir.”

Aquela frase resumia tudo. A queda da família. O roubo da fórmula. A mentira que manchou o nome de um homem honesto. E agora, enquanto olhava para a letra dele, sentia que a missão que a trouxera de volta ao México ganhava novos pesos, como se cada dia na Hacienda exigisse que ela sacrificasse mais uma camada de si mesma.

Fechou o bloco, guardou-o dentro do bolso da mochila e foi até o banheiro para um banho rápido, tentando apagar o rastro de tensão que havia ficado na pele depois de tantas horas sob o olhar de Rafael. Prendeu o cabelo ainda úmido, sentou-se à mesa, abriu o laptop velho e revisou as anotações que vinha acumulando desde o primeiro dia. Havia um padrão nas datas. Uma mudança na curva alcoólica que não combinava com as explicações oficiais. Algo havia sido roubado, adulterado, escondido. E, agora, alguém estava se esforçando para que isso não fosse descoberto.

Quando finalmente começou a organizar as informações, uma notificação silenciosa surgiu no canto da tela, alertando sobre movimento incomum no sistema de vigilância da Hacienda. Camila abriu o arquivo com pressa controlada e se deparou com a imagem desfocada de um vulto atravessando o corredor da ala antiga, exatamente o lugar onde ela estivera. O corpo alto. A postura rígida. O ritmo calculado dos passos. Mesmo na baixa resolução, ela sabia quem era.

Rafael estava vasculhando a mesma área que ela vasculhara.

Rafael estava indo atrás de respostas.

Fechou o laptop com força involuntária, o som ecoando pelo quarto silencioso. A respiração acelerou, não de medo, mas de antecipação. Ele estava se aproximando de algo perigoso demais, e ela não sabia por quanto tempo conseguiria manter os segredos intactos.

Enquanto tentava formular um plano, ouviu passos no corredor, passos firmes e lentos que avançavam em direção ao alojamento. Camila ficou imóvel, cada músculo do corpo atento. Não era qualquer pessoa. Reconheceu o peso da passada como se já fosse íntima dela. O som parou bem na frente de sua porta. Ela segurou a respiração, aproximou-se da entrada sem fazer ruído e viu a sombra projetada na fresta inferior. Aquele silêncio concentrado só poderia ser dele.

Rafael ficou ali, parado, observando a porta fechada como se pudesse atravessar a madeira e ler a expressão dela no escuro. Não tentou abrir. Não chamou. Apenas permaneceu, respirando do outro lado, fazendo a pele dela arrepiar contra a vontade. Depois, tão silenciosamente quanto viera, se afastou.

Camila demorou alguns segundos para conseguir se mover; respirou fundo mais uma vez e sentiu que o cerco estava se fechando. Ele não estava apenas desconfiando, estava seguindo o instinto, e isso tornava tudo mais difícil. Rafael Villalba não era um homem comum. Ele investigava com o corpo inteiro. Observava como um predador que avalia terreno e temperatura antes de atacar.

No dia seguinte, ainda antes do amanhecer, ela entrou no laboratório determinada a se antecipar, e encontrou Rafael ali, apoiado na mesa central como se a aguardasse. A camisa escura, as mangas dobradas, os músculos dos braços marcados pela luz que atravessava as janelas. O olhar direto, firme, quente de uma forma que confundia tudo.

— Chegou cedo — ele disse, sem desviar os olhos.

— Há muito trabalho acumulado — Camila respondeu, tentando manter a voz controlada.

Ele soltou a pasta que segurava e caminhou até ela, aproximando-se devagar, com aquela precisão que fazia cada passo parecer deliberado, como se estivesse testando não a atitude dela, mas a reação dela ao aproximar-se.

— Preciso saber onde você esteve ontem à noite — ele disse.

Camila manteve o queixo erguido.

— No meu quarto.

— O sistema registrou acesso à ala antiga — ele afirmou, aproximando-se ainda mais. — E, curiosamente, logo depois de você.

— Já expliquei que não estive lá ontem — ela respondeu, usando toda a calma que conseguia reunir.

Rafael ficou tão perto que o perfume amadeirado dele se misturou ao cheiro do laboratório. Era impossível não sentir. Era impossível não reagir.

— Está mentindo — ele disse, com voz baixa.

— O senhor está vendo o que quer ver — respondeu ela, tentando soar mais firme do que se sentia.

Rafael inclinou a cabeça como se estivesse analisando uma peça rara. O olhar desceu para a boca dela e voltou lentamente para os olhos.

— Você não parece uma espiã — disse ele. — Nem uma sabotadora. Também não parece uma funcionária comum. Então, quem você é?

O coração dela bateu forte, mas o rosto continuou firme.

— Uma engenheira fazendo seu trabalho.

— Não. — Ele deu um passo ainda mais próximo. — Você é uma mulher protegendo algo. E, quando alguém protege demais, é porque teme que alguém tome.

A tensão entre os dois se tornou um fio quente e esticado.

— Não tenho nada a esconder — ela disse.

— Ainda — ele respondeu.

A forma como ele disse “ainda” pareceu entrar por baixo da pele dela. Rafael, então, deu um leve sorriso — não era bondade, era aviso — e se afastou devagar, como se marcasse presença sem tocar.

— Isso é o que me mantém interessado — completou, antes de sair. — Você se engana muito bem.

Camila ficou ali, respirando devagar, tentando impedir que o corpo entregasse o turbilhão interno. O perigo dele não estava apenas nas suspeitas, mas na maneira como ele observava, como se pudesse desmontar suas defesas peça por peça.

Rafael estava cada vez mais perto da verdade.

E, ao mesmo tempo, cada vez mais perto dela.

E isso era o que realmente colocava tudo em risco.

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