Mundo ficciónIniciar sesiónCamila saiu do depósito com o bloco preso contra o peito por baixo do jaleco. A respiração ainda estava irregular, como se o corpo não tivesse entendido que o toque de Rafael terminara. Não era apenas o toque. Era a forma como ele aproximava o rosto, como segurava o queixo dela, como falava baixo e deixava claro que estava farejando algo que ela não podia permitir que fosse descoberto.
Ela atravessou o pátio com passos firmes, tentando recuperar o controle. O sol estava descendo, pintando o vale de tons laranja e dourado, e a Hacienda parecia ainda mais imponente sob aquela luz. O barulho de máquinas e vozes carregava um ritmo acelerado, típico do fim do turno, mas Camila sentia tudo distante. A mente estava ocupada demais com Rafael.
Ele tinha visto o bloco.
Ele sabia que havia algo errado.
E Rafael Villalba não era o tipo de homem que deixava um detalhe escapar.
Ela entrou no laboratório para terminar as últimas medições, mas a atenção estava fragmentada. Cada sensor analisado, cada anotação feita, tudo era acompanhado pela lembrança do olhar dele no depósito. Não era apenas suspeita. Era algo mais profundo, mais afiado, como se Rafael estivesse tentando decifrar o que ela carregava no corpo e na alma.
Enquanto registrava as últimas densidades, ouviu o supervisor chamá-la da porta.
— Rafael quer você na sala de controle — disse ele.
Camila ergueu o rosto devagar.
— Agora?
— Agora.
Ela agradeceu com um aceno curto e caminhou até lá. O corredor estava longo demais, e o coração dela acompanhava o ritmo dos próprios passos.
A sala de controle ficava no andar superior, com janelas amplas para os tanques, para o pátio e para parte dos campos. Quando entrou, encontrou Rafael sozinho, parado perto da mesa central com vários monitores ligados, mostrando gráficos, mapas, rotinas internas e câmeras espalhadas pela Hacienda.
Ele não virou imediatamente.
Deixou que ela entrasse.
Deixou que ela ficasse de pé atrás dele.
Como se estivesse testando a reação dela ao próprio território.
Depois, finalmente falou.
— Feche a porta.
Ela fechou.
Rafael virou o rosto na direção dela. Os olhos escuros não tinham pressa, mas tinham uma firmeza que deixava claro que o encontro não era casual.
— Quero que veja isso — ele disse.
Aproximou-se de um monitor e ampliou uma imagem capturada horas antes. Era o corredor da ala antiga. A mesma ala onde Camila tinha entrado para vasculhar arquivos. A imagem mostrava um vulto passando rápido.
Não mostrava o rosto.
Mas mostrava o corpo dela.
A postura dela.
O jaleco dela.
— Reconhece? — perguntou ele.
Camila manteve a voz neutra.
— Não sei quem é.
Rafael não respondeu.
Apenas observou o rosto dela por alguns segundos longos.
— Essa área não está na lista de permissões para o seu cargo — disse ele. — Estranho alguém ir até lá justo no fim do expediente.
— Talvez seja alguém que se perdeu — ela disse.
— Ninguém se perde naquela ala — respondeu Rafael.
Ele se aproximou dela devagar.
Cada passo parecia calculado para prender a atenção dela.
Quando parou a menos de um metro, Camila percebeu que o cheiro dele era diferente naquela sala — mais quente, como se o confinamento aumentasse a intensidade do perfume amadeirado.
— Se eu descobrir que você está escondendo algo, não vou ser gentil — disse ele.
— Não espero gentileza do senhor.
Ele ergueu o canto da boca, um gesto curto que não chegava a ser sorriso.
— Que bom que entende.
Rafael passou ao lado dela e entrou no corredor interno da sala de controle. Mas parou na metade do caminho e falou sem olhar para trás.
— Venha comigo.
Ela seguiu.
O corredor tinha paredes de vidro que davam vista para toda a destilaria. O calor do lugar misturava madeira, álcool e sol. Rafael caminhava com passos firmes, ombros retos, mãos nos bolsos da calça escura. O corpo dele parecia desenhado para esse cenário. Para mandar. Para vigiar. Para dominar cada parte daquele império.
Eles chegaram à varanda lateral, onde o vento quente trazia o cheiro do agave fresco.
— Quero entender uma coisa — ele disse, encostando-se no corrimão. — Você é uma engenheira excelente. Está acima da média. O tipo de profissional que eu não encontro facilmente. E, ainda assim, sua contratação veio rápido demais.
Camila sentiu a ameaça oculta.
— Tenho bom currículo — disse.
— Tem — ele admitiu. — Bom demais.
Rafael virou o corpo na direção dela, apoiando o antebraço no corrimão. O gesto puxou a camisa, revelando o contorno marcado do bíceps e parte da tatuagem antiga.
— Já vi gente tentando entrar na Hacienda com currículo forjado — ele contou. — Espiões industriais. Ex-funcionários vingativos. Jornalistas disfarçados. Nenhum deles durou. Todos cometem erros. Pequenos, quase invisíveis.
Ele deu um passo na direção dela.
Camila sustentou a posição.
— Como aquele bloco de notas que deixou cair hoje — completou.
O sangue dela pareceu gelar por dentro, mas o rosto continuou estável.
— Isso não tem relação com a Hacienda — ela disse.
— Tem relação com você — Rafael respondeu. — E isso já é suficiente.
Ele chegou tão perto que a luz do fim da tarde desenhou a linha do maxilar dele, a barba curta, o nariz forte, a boca firme. A proximidade era sufocante.
— Eu não gosto de segredos — ele disse.
Camila manteve o olhar firme.
— Então talvez não devesse trabalhar com tequila — disse ela.
Rafael deu um sorriso lento.
Um sorriso que não tinha humor.
Era o tipo de sorriso que um predador faz antes de avançar.
— Você é corajosa — ele disse. — Corajosa demais.
— Ou apenas realista.
Ele inclinou o corpo, aproximando o rosto do dela.
— Continue jogando desse jeito — murmurou. — E vou querer saber o que está escondido. Vou querer tirar peça por peça até encontrar o que está protegendo.
Camila sentiu o ar preso no peito.
Era ameaça.
Era aviso.
Era algo que queimava.
Ela deu um passo para trás.
— O senhor não vai me intimidar.
Rafael seguiu o movimento sem tocar nela, mas o corpo dele ainda ocupava o espaço.
— Não estou tentando intimidar — ele disse. — Estou avisando.
A voz dele era baixa, firme, quente.
— Se você mentir para mim… eu vou descobrir. Sempre descubro.
Camila segurou o bolso do jaleco por dentro, como se pudesse proteger o bloco através da própria pele.
— Não tenho nada a esconder — afirmou.
— Ainda — Rafael respondeu.
Ele se afastou finalmente e voltou para dentro da sala de controle, deixando Camila na varanda com o coração descompassado e o corpo inteiro alerta.
Ela sabia que estava na beira do abismo.
E Rafael estava perto demais.
Perto o bastante para empurrar.
Ou puxar.
E os dois sabiam disso.







