CAPÍTULO 10 — O OLHAR HIPNOTIZANTE

Quando Camila deixou a sala de controle, sentiu o ar quente do corredor invadir os pulmões como se estivesse saindo de um ambiente submerso, porque a presença de Rafael sempre provocava nela essa sensação de água represada prestes a transbordar. Caminhou até o laboratório com passos rápidos, tentando colocar distância entre eles e recuperar a clareza que ele insistia em roubar, ainda que não tivesse tocado nela uma única vez desde o dia anterior. O problema era que Rafael não precisava tocar. Ele apenas chegava perto e o corpo dela se desorganizava, como se as regras mudassem sem aviso.

O laboratório estava quase vazio quando ela entrou; apenas o som contínuo dos equipamentos preenchia o espaço, e o cheiro de agave misturado com álcool parecia mais denso do que de costume. Guardou a prancheta, abriu o laptop e fingiu trabalhar, embora a mente estivesse presa ao momento em que Rafael dissera que ela o prendia a algo que ele ainda não entendia. Não era uma frase dita para seduzir, e talvez por isso mesmo fosse tão perigosa. Rafael falava sempre a verdade crua, sem o verniz com que homens tentavam manipular mulheres. Ele não precisava mentir para controlar. Ele controlava pela força da presença, pelo domínio silencioso, pela certeza de que ninguém desafiava o império dele sem pagar algum preço.

Camila estava prestes a fechar o laptop quando ouviu passos lentos no corredor, e seu corpo reagiu antes da porta abrir, como se um campo magnético se fechasse ao redor dela. Rafael surgiu na entrada sem pedir permissão, o rosto parcialmente sombreado pela luz do fim da tarde que entrava pelas janelas laterais. A camisa estava aberta em dois botões, o suor da pele do peito formando um brilho quase imperceptível que deixava a respiração dela inquieta. Ele parou, observando o ambiente, e depois focou apenas nela.

— Não terminou o turno ainda — ele disse, com a voz grave.

Ela quis responder com frieza, mas a garganta apertou.

— Estava revisando os dados do dia.

Ele caminhou devagar até a mesa dela, e cada passo reduziu o ar ao redor, como se a sala diminuísse de tamanho. Rafael não a tocou, mas parou tão perto que, se ela respirasse fundo, sentiria o tecido da camisa dele se mover no mesmo ar que ela. Ele olhou a tela do laptop, depois olhou para ela de novo, e Camila percebeu que ele estava fazendo algo que raramente fazia: esperando. Observando. Tentando entender o que ela não dizia.

— Há algo que você não quer que eu veja — ele murmurou, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.

— Já disse que está enganado — Camila respondeu, mas a voz saiu mais suave do que gostaria.

Rafael deu um passo ainda mais próximo, e o calor do corpo dele atravessou o espaço como uma onda lenta. Ele baixou a cabeça o suficiente para que o nariz quase tocasse o dela. A respiração quente dele roçou a pele do rosto dela, e Camila fechou os olhos por reflexo, sentindo um arrepio subir pela espinha como se ele tivesse passado a mão no meio das costas dela.

Rafael percebeu.

Claro que percebeu.

— É isso — ele disse, num sussurro grave. — Esse é o problema. Você reage.

Camila abriu os olhos devagar, sentindo a pulsação no pescoço, tentando recuperar dignidade quando tudo dentro dela parecia querer fazer o contrário.

— Todos reagem a alguma coisa — ela disse, com esforço.

— Mas nem todos reagem a mim — ele respondeu, mantendo o rosto tão perto que ela conseguia ver o brilho úmido nos olhos escuros dele. — E você tenta esconder isso como se fosse um crime.

Camila recuou um passo, mas ele acompanhou sem encostar, reduzindo a distância de novo. Era como dançar com um predador que sabia exatamente como conduzir sem tocar. A respiração dela acelerou, e Rafael inclinou o rosto para o lado, observando como se estudasse uma reação química rara.

— Está com medo — ele disse.

— Do senhor? Não.

Rafael sorriu de um jeito que não era deboche, mas também não era gentileza. Era pura certeza.

— Está com medo do que sente quando eu chego perto.

Camila sentiu o rosto aquecer, não de vergonha, mas de raiva misturada com algo visceral demais para negar.

— Não vou participar desse jogo psicológico — ela disse, tentando se afastar.

Ele estendeu a mão na direção dela, não para tocá-la, mas para bloquear a passagem, colocando o braço ao lado do corpo dela, prendendo-a entre a mesa e a presença dele. O gesto não foi agressivo, mas foi firme, dominado, preciso.

— Não é um jogo — Rafael disse. — É uma constatação.

O coração de Camila batia tão rápido que ela tinha certeza de que ele ouvia. Rafael aproximou ainda mais o rosto, e a boca dele ficou tão perto que ela sentiu o calor do hálito tocando os lábios.

Por um segundo torturante, Camila achou que ele fosse beijá-la.

E odiou o próprio corpo por querer.

Rafael parou a menos de um centímetro, como se estivesse testando até onde ela aguentava sem quebrar, e depois desviou o rosto devagar, aproximando os lábios da orelha dela. O choque de calor fez as pernas de Camila ficarem fracas, e ela precisou se apoiar na mesa para não recuar.

— Você não entende — ele disse, quase sem som. — Eu não estou tentando te seduzir. Estou tentando descobrir o que você está escondendo. Mas o problema é que, toda vez que chega perto, você me distrai do que importa.

Camila engoliu em seco, sentindo a pele tremer da nuca até o ombro.

Rafael então afastou o corpo devagar, sem pressa, sem culpa, sem pedir licença, como se tivesse tocado nela — mesmo não tendo tocado. Ele se posicionou diante dela novamente, os olhos percorrendo o rosto dela como se gravasse cada mínima reação.

— Você me deixa em alerta — ele disse. — E ninguém me deixa assim.

Camila achou que ele fosse sair, mas Rafael se inclinou outra vez, só que agora até a altura da boca dela, e a distância era tão pequena que ela sentiu um arrepio subir pelo ventre.

— Continue mentindo — ele disse. — Uma hora, sua verdade aparece no corpo.

Ele se virou e saiu do laboratório com a mesma intensidade com que tinha entrado, e Camila precisou se apoiar na mesa porque as pernas simplesmente não respondiam. Só quando ele desapareceu no corredor é que conseguiu respirar de verdade, sentindo que o encontro havia atravessado a pele e ficado preso em algum lugar que ela não conseguia nomear.

Rafael não precisava tocá-la.

Ele a destruía apenas com proximidade.

E isso era pior do que qualquer ameaça.

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