Mundo de ficçãoIniciar sessãoO pátio da Hacienda parecia um formigueiro no fim da tarde. Caminhões alinhados, barris empilhados, trabalhadores se movendo com pressa para terminar o turno antes que a noite caísse sobre o vale quente de Jalisco. O som dos motores, o arrastar de correntes e o cheiro forte de madeira saturada de álcool criavam um caos organizado.
Camila caminhava ao lado de Rafael, tentando parecer indiferente à proximidade dele. Era quase um trabalho físico manter a respiração sob controle, porque a presença dele tinha um efeito que ela odiava admitir. Um calor espesso, um tipo de gravidade particular que puxava o corpo dela na direção errada.
Os dois pararam diante do caminhão recém-chegado. O motorista abriu a lona, revelando dezenas de barris escuros, marcados com o símbolo dos Villalba. Rafael se aproximou, passou a mão pela madeira e conferiu a umidade do aro metálico com precisão de quem entende mais de barris do que muitos mestres destiladores.
— Este lote é antigo — ele disse. — Deve ser verificado antes de entrar no depósito.
Camila anotou.
A procedência é de Amatitán?
— Sim. Mas quero garantir que não houve troca no caminho.
Ele olhou para ela. Um olhar cheio de camadas.
Desconfiança.
Avaliação.
Atração.
E algo que ela ainda não sabia nomear.
— Você vem comigo — ele concluiu.
Ela assentiu e seguiu Rafael até o depósito principal. O espaço era imenso, com fileiras de barris que se estendiam até onde a vista alcançava. A temperatura ali dentro era menor, quase acolhedora, como se a madeira tivesse absorvido décadas de histórias.
Rafael caminhou entre os corredores com familiaridade absoluta. Era óbvio que conhecia cada centímetro daquele lugar. O corpo dele parecia moldado pela Hacienda. A postura militar, o ritmo lento e preciso dos passos, a firmeza silenciosa dos ombros marcados pela camisa escura.
— Quero que você avalie os barris da última fileira — ele ordenou. — Procure variação de peso e cheiro.
Camila começou a checar o primeiro barril enquanto Rafael ficava alguns metros atrás, observando sem disfarçar. Era como se ele precisasse ver como ela se movia, como respirava, como reagia ao ambiente. Isso deixava o ar mais denso do que deveria.
Ela cheirou a tampa, observou manchas de resina, analisou a porosidade da madeira.
— Este está normal — ela disse.
— Próximo.
A voz dele tinha uma gravidade que arrepiava a pele dela sem permissão.
Mas foi no terceiro barril que ela cometeu o primeiro erro.
Para avaliar melhor, ela inclinou o corpo, apoiando o joelho no suporte inferior. Ao fazer isso, o bolso lateral do jaleco se abriu um pouco e algo caiu no chão com um som seco.
O bloco de notas do pai.
Camila reagiu rápido demais.
Abaixou, pegou o bloco e guardou antes que Rafael se aproximasse.
Ou antes que ela acreditasse que ele não tinha visto.
Mas Rafael tinha visto.
Ele estava perto demais agora, parado na sombra entre dois barris, o olhar fixo nela. Os ombros dele ficaram tensos. A mandíbula endureceu. Era a reação de alguém que detectou algo, não sabia exatamente o quê, mas sabia que era perigoso.
— O que é isso? — ele perguntou.
A voz dele não estava alta.
Mas havia uma firmeza que fazia a pergunta parecer uma ordem.
Camila manteve a expressão neutra.
— Notas de estudo.
— Não parecem notas de hoje.
Ela sentiu o coração bater no pescoço.
Se mostrasse o bloco, descobriria o nome Ríos na letra do pai.
E isso acabaria com tudo.
Ela precisava mentir.
— São anotações de trabalhos antigos. Costumo guardar tudo.
Rafael deu um passo adiante.
Depois mais um.
A proximidade dele alterava tudo.
A lógica.
O ritmo do coração.
O ar que entrava nos pulmões.
— Mostre.
O momento esticou como se estivesse prestes a romper.
Camila olhou diretamente nos olhos dele, e aquilo foi tão arriscado quanto abrir uma porta proibida.
— Não. São minhas coisas pessoais.
Rafael parou a centímetros dela.
A respiração dele tocou a pele dela.
O calor do corpo dele estava próximo demais.
E os olhos dele eram duas linhas escuras, intensas, avaliando até a alma.
— Você está escondendo alguma coisa.
Ela manteve o rosto firme.
— Estou protegendo minha privacidade.
Por um instante, nenhum dos dois respirou.
Então Rafael fez algo inesperado.
Ele estendeu a mão, não para pegar o bloco, mas para tocar o queixo dela. Os dedos se fecharam de forma suave, porém firme, segurando o rosto de Camila como se quisesse girar a cabeça dela e olhar exatamente dentro da parte mais escondida.
O toque foi quente, íntimo, invasivo, delicioso e repulsivo ao mesmo tempo.
— E por que alguém protegeria privacidade em um lugar como este? — ele perguntou.
Ela não piscou.
— Porque nem todo mundo aqui é confiável.
A resposta acertou um ponto que ele não esperava.
Rafael inclinou o rosto levemente, analisando cada detalhe dela. A boca dele ficou próxima demais. O perfume dele se misturou ao aroma da madeira e do álcool envelhecido. Era um perfume perigoso.
— Você está brincando com fogo — ele disse.
— Então não chegue tão perto — Camila respondeu.
O silêncio que caiu entre eles pareceu vivo.
Rodou, se apertou, queimou.
Rafael soltou o rosto dela devagar, como se estivesse decidindo queimar ou não.
Mas não recuou.
Ficou ali, parado, observando.
— Eu vou descobrir — ele disse. — Não importa quanto tempo leve.
Camila segurou o bloco dentro do bolso com tanta força que os dedos doeram.
— Boa sorte — ela murmurou.
Rafael sorriu — um sorriso pequeno, sem bondade, mas com interesse. Um sorriso de predador.
— Você vai precisar mais do que eu.
Ele se virou e caminhou entre os barris, sem olhar para trás. Cada passo dele ecoou pelo depósito, firme, absoluto, dominante.
Camila ficou parada ali, sentindo o corpo tremer.
Não de medo. De adrenalina. De raiva.
E de algo que ela não queria admitir, algo que crescia cada vez que Rafael chegava perto.
Ele estava caçando.
E ela também.
Só que nenhum dos dois sabia quem alcançaria quem primeiro.







