Camila passou o dia inteiro roendo a própria cabeça até admitir que precisava sair dali. Depois da bofetada no pátio, da palavra “divórcio” cuspida entre dentes, da noite em que o corpo lembrava da banheira e o orgulho lembrava da ameaça, a casa parecia pequena demais. Quando o bebê finalmente dormiu pesado, o silêncio caiu como peso. Se ficasse ali, sabia que ia desmontar.
Abriu o guarda-roupa, encarou os cabides como se fossem júri. Não queria se arrumar para provocar ninguém, mas se recusava a sair encolhida em moletom. Escolheu um vestido preto simples, de tecido leve, que marcava a barriga sem apertar e deixava os ombros à mostra; calçou sandália baixa, prendeu o cabelo num rabo alto, passou rímel e batom discreto. No espelho, viu uma mulher cansada, mas ainda de pé, e decidiu que aquilo bastava.
Avisou à babá que ia sair por algumas horas, deixou o celular na bolsa, desceu. No portão, Miguel, de uniforme, rádio no ombro, endireitou o corpo ao vê-la.
— Vou até o bar da praça — av