Mundo de ficçãoIniciar sessãoISABELLA
O som do relógio na parede parecia mais alto do que o normal. Talvez fosse o peso da manhã, ou a ansiedade que me consumia, mas os segundos pareciam arrastados enquanto tentava manter a concentração nas frações que tentava ensinar a Giulietta e Lorenzo. A sala de estudos da mansão Lombardi tinha aquele ar impessoal, uma mistura de luxo e frieza, como se a própria casa me observasse. Mas o que mais me desafiava não era a grandeza do lugar. Era lidar com as crianças.
Giulietta, de 14 anos, estava claramente desinteressada. A garota tinha uma maneira quase artística de ignorar tudo à sua volta. Ela mantinha o livro fechado, olhando pela janela com a cabeça levemente inclinada para o lado, como se o mundo exterior fosse infinitamente mais interessante do que qualquer coisa que eu pudesse dizer.
Lorenzo, mais quieto e introspectivo, se sentava no canto, com os olhos fixos em algum ponto distante. Ele raramente falava, e quando o fazia, sua voz era baixa, como se as palavras pesassem. Era como se ninguém fosse realmente capaz de alcançá-lo, o que, de certa forma, me deixava mais ansiosa. Giulietta era um desafio por sua rebeldia aberta, mas Lorenzo... Lorenzo estava sempre presente com aquele olhar distante, como se estivesse lutando com algo que eu não sabia o que era.
— Giulietta, por favor, concentre-se. — Tentei, mais uma vez, chamar a atenção dela, tentando não deixar transparecer o cansaço na voz. Mas ela não se moveu.
Ela levantou os olhos devagar, me encarando com aquela expressão de quem já tinha decidido que não ia colaborar.
— Eu não vejo por que preciso disso, Isabella. — Ela disse, de forma irreverente, o sorriso brincando nos cantos dos lábios. — Por que eu precisaria saber de frações agora? Eu não vou usar isso pra nada. Vou ser famosa, vou viajar o mundo... Matemática nunca vai ser minha prioridade.
Eu suspirei, tentando me manter calma. Essa era uma das partes mais difíceis do meu trabalho: manter a calma quando tudo dentro de mim queria explodir. Giulietta me testava de uma maneira que ninguém mais sabia fazer. Mas eu não podia perder o controle, não agora, não diante dela.
— Giulietta, não estou pedindo para você gostar. Estou apenas dizendo que isso é importante. — Eu não queria soar exausta, mas a frustração estava batendo à porta.
Ela fez um gesto com a mão, como se estivesse se afastando mentalmente de tudo. Sabia que não seria fácil, mas eu precisava continuar.
Lorenzo, do outro lado da sala, parecia indiferente, mas seus olhos estavam em mim, observando com uma calma inquietante. Não era o tipo de silêncio confortável. Ele parecia absorto, alheio, e ainda assim, em algum lugar, eu sentia que ele estava atento a cada detalhe, mesmo sem demonstrar. Eu sabia que ele guardava seus próprios mistérios.
Nesse momento, a porta da sala se abriu com suavidade, e Donna Raffaella entrou, como sempre, com sua postura imponente e aquele olhar de águia que não perdia um detalhe. Ela passou os olhos pela sala e logo pousou em nós, com a expressão séria que sempre carregava.
— O que está acontecendo aqui? — Sua voz cortou o silêncio, com uma autoridade natural que fazia qualquer um se sentir pequenino.
Tentei sorrir, mas não tinha muito sucesso. Minha paciência estava se esgotando, e era difícil disfarçar isso.
— Estamos revisando a lição de matemática, Donna Raffaella. Giulietta estava... um pouco distraída, mas estamos indo bem. — Eu disse, tentando manter a compostura.
Giulietta, porém, não estava disposta a deixar a situação passar sem mais nada. Ela me olhou de lado, com aquele sorriso insolente, e depois desviou o olhar para Donna Raffaella.
— Tudo certo aqui. Não é nada, Donna Raffaella. Só estou tentando sobreviver à matemática, isso é tudo. — Ela disse, com um tom meio zombeteiro, mas sem fazer acusações, o que me fez relaxar um pouco.
Donna Raffaella olhou para nós por um momento, sem dizer nada. O silêncio pesado que se seguiu era desconfortável, como se ela estivesse avaliando cada palavra, cada movimento. Eu não podia saber o que ela estava pensando, mas tinha a sensação de que estava sendo observada mais do que imaginava.
Ela apenas assentiu, e então, com um movimento sutil de cabeça, fez um gesto indicando que saísse.
— Muito bem. Mantenham o foco na lição. — Foi tudo o que ela disse antes de virar-se para sair da sala.
Eu me senti exausta, mas tentei esconder. Olhei para Giulietta, que, por um momento, parecia mais calma, mas sabia que isso não duraria. Ela estava jogando seu jogo, e eu não sabia até onde ela iria.
— Vamos terminar isso logo. — Eu falei, tentando soar firme.
Giulietta resmungou algo incompreensível, mas finalmente pegou o livro. Lorenzo ainda parecia distante, mas não estava mais interrompendo. Eu me sentia dividida entre a vontade de mandar tudo para o espaço e o desejo de dar o melhor de mim, de não ser mais uma pessoa que fracassava diante daquela família difícil.
Depois de mais algumas tentativas frustradas de ensinar, finalmente dei um tempo para as crianças. Elas se afastaram, e eu desci até a cozinha. A única coisa que queria naquele momento era respirar e recuperar um pouco das minhas energias. Assunta estava lá, ocupada com a preparação do almoço. Ela olhou para mim quando entrei, com aquele olhar de sempre, meio divertido, mas sem pressa de fazer qualquer julgamento.
— Como foi? — Perguntou, sem tirar os olhos da panela.
— Um pouco difíceis. — Respondi, já cansada. — Giulietta está... desafiadora hoje.
Assunta soltou uma risadinha baixa, mas não falou nada. Ela sabia o que eu estava passando, mais do que eu queria admitir.
— Você está indo bem, Isabella. — Ela disse, com um sorriso discreto. — Muitas não aguentam nem uma hora com esses dois.
Eu ri sem vontade, pegando um copo de água da pia.
— Não sei se devo agradecer ou me preocupar com isso. — Respondi, com um suspiro exausto.
Assunta sorriu com mais leveza agora, como se fosse fácil ver o quanto eu estava ficando sobrecarregada.
— Está indo bem. Muito bem, para ser sincera. Mantenha a paciência. Você vai ver que, com o tempo, eles vão começar a colaborar mais.
Eu não sabia se estava aliviada ou ainda mais tensa. Mas sabia que minha missão ali era um jogo de resistência, não só de paciência. Quando Assunta estava prestes a continuar, a porta da cozinha se abriu e Alessandro entrou. O Don. A presença dele era inconfundível. O ar ao redor dele parecia ficar mais denso, e eu sabia que não podia relaxar nem por um segundo quando ele estava por perto.
— O almoço está quase pronto? — Ele perguntou, a voz grave e sempre controlada.
Assunta respondeu com a tranquilidade que ele exigia, como se estivesse acostumada a lidar com ele.
— Sim, Don Alessandro. Em breve estará na mesa.
Ele assentiu brevemente e, antes de sair, se voltou para mim com um olhar direto, os olhos penetrantes.
— As crianças já estudaram hoje? — A voz dele parecia quase casual, mas sabia que não era.
Eu tentei fazer uma piada, para aliviar a tensão.
— Estão um pouco difíceis, seus filhos, Don Alessandro, mas nada impossível para mim. — Eu disse, tentando soerguer a situação com leveza.
Ele não sorriu. Ficou me olhando por mais alguns segundos, como se quisesse ver se havia algo mais ali. Algo que eu não estava dizendo.
— Que bom. — Ele apenas disse, antes de se virar para sair.
Eu, um pouco nervosa, sussurrei para mim mesma:
— Já sei a quem saem...
Ele parou por um momento, apenas por um segundo, mas foi o suficiente para que eu sentisse uma onda de nervosismo percorrer meu corpo. Seus olhos estavam fixos em mim por aquele breve momento, e então ele simplesmente se virou e saiu da cozinha, sem dizer uma palavra.
Assunta balançou a cabeça lentamente, um sorriso de quem já sabia o que estava acontecendo.
— Isabella... Você está brincando com o fogo. Nem a Donna Chiara se atrevia a desafiar o Don Alessandro dessa forma.
Eu, mais curiosa do que nunca, franzi a testa.
— Quem era Donna Chiara? — perguntei, tentando esconder a inquietação.
Assunta hesitou por um momento, mas não respondeu. Seus olhos, no entanto, estavam longe, como se ela estivesse se lembrando de algo que eu não deveria saber.
— Você não precisa saber disso, Isabella. — Ela murmurou, voltando à sua tarefa.
Mas, em algum lugar, no fundo de minha mente, a dúvida ficou. O que Assunta sabia? Quem realmente era Donna Chiara, e por que ela nunca mais apareceu? Eu estava começando a perceber que havia muito mais nesta casa do que eu imaginava. E não sabia se estava pronta para descobrir tudo.







