Mundo ficciónIniciar sesiónISABELLA
Cheguei em casa às 4 da manhã, depois de uma noite longa e difícil. O corpo pesado, mas a mente ainda acelerada. O que tinha acontecido na mansão, o que eu ainda não entendia completamente, ficava girando em minha cabeça. Mas não havia tempo para parar e refletir. Eu sabia que precisava descansar um pouco, mas a noite já havia se arrastado, e o dia seguinte estava chegando. O cansaço estava me consumindo, mas, ao mesmo tempo, uma adrenalina desconhecida me impelia a seguir em frente. Respirei fundo, abracei Rex, que estava me esperando com os olhos brilhando de alegria, e me joguei no sofá.
Meu celular estava em silêncio. Nicky, minha irmã, ainda não sabia de nada. Ela não sabia que trabalha no Rouge Velvet como stripper. O peso de manter aquele segredo me dava uma sensação estranha. Mas era o que tinha que ser.
Com os olhos pesados, peguei o dossiê de Donna Raffaella e comecei a ler. As palavras no papel começaram a formar uma rotina que eu jamais imaginaria. A família Lombardi, em suas infinitas exigências, já havia me colocado em um caminho sem volta. Giulietta, Lorenzo, atividades intermináveis como ballet, artes marciais, aulas de piano, badminton, equismo aos sábados de manhã e aos domingos de manhã, a missa com a avó e os tios. Horários apertados. A menina de 14 anos, com um olhar já de quem carrega o peso do mundo, e o menino de 6 anos, Lorenzo, que parecia ter uma vida muito mais complexa do que eu podia imaginar.
As horas passaram voando, e quando dei por mim, estava atrasada. Precisava me arrumar para o trabalho. Mas que trabalho? O trabalho que eu nem sabia se estava preparada para assumir, aquele que me tirava da minha zona de conforto e me colocava em um mundo tão diferente. Não era algo simples. Era um salto, uma tentativa de me reiniciar. Fui para o banho e, depois, coloquei a roupa mais adequada que encontrei, com a cabeça a mil, tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça.
Cheguei à mansão ainda com a sensação de estar em um pesadelo. O portão de ferro se abriu diante de mim, como um portão de entrada para uma vida que eu não conseguia compreender. Cada passo meu ecoava na calçada silenciosa, e a mansão parecia me observar com olhos que conheciam meu destino antes mesmo de eu entrar.
Assunta me conduziu até a cozinha, onde a família estava reunida. A atmosfera estava densa, como se o ar estivesse carregado de algo que eu ainda não conseguia entender. As crianças estavam sentadas à mesa, e a tensão entre nós era palpável.
Giulietta, a menina, olhou para mim com desdém, seus olhos afiando cada palavra que ela não precisava dizer. Ela tinha 14 anos, mas seu comportamento de uma mulher mais velha era evidente.
– Olá, Giulietta – tentei sorrir, tentando quebrar o gelo.
Ela apenas me olhou com uma expressão desinteressada e então se virou para o prato. Eu segui o olhar dela até o outro lado da mesa, onde Lorenzo estava sentado, quieto, com os olhos no prato, sem me olhar.
Parei por um momento e, instintivamente, tentei puxar conversa.
– Olá, Lorenzo – disse, tentando sorrir para ele.
Mas ele não me olhou. Seus olhos estavam fixos no prato. O silêncio era quase desconcertante.
Giulietta, com uma voz cortante, não demorou a interromper.
– Você é cega? Não vê que ele não fala? – disse, de forma rude, sem levantar os olhos da comida.
Aquilo me pegou de surpresa. Eu não sabia o que dizer. Nunca tinha lidado com uma criança que se comportasse de forma tão distante e silenciosa. Eu só disse, quase sem pensar:
– Desculpe, não queria incomodar.
Foi nesse momento que Donna Raffaella entrou na sala, sua presença imponente imediatamente calando todos. Ela olhou para Giulietta com uma expressão severa, como se tivesse esperado por esse tipo de comportamento, e a repreendeu de forma breve e incisiva.
– Giulietta, não fale assim com a senhorita – disse, sem levantar a voz, mas com a autoridade de quem estava acostumada a controlar até o mais ínfimo detalhe.
Giulietta se calou, mas sua postura continuou desafiadora. Ela parecia não se importar com nada além de sua própria frustração.
A conversa na mesa seguiu, e a tensão não diminuía. Eu estava começando a me perguntar como seria lidar com aquelas crianças todos os dias. Como poderia quebrar o gelo com Lorenzo, que não dizia uma palavra sequer? Como lidar com Giulietta, que parecia estar em guerra com o mundo?
Então, a menina perguntou, de forma quase sarcástica:
– Vovó, o papai não vem tomar o café com a gente?
Donna Raffaella, sem pestanejar, respondeu, com a mesma frieza que sempre a acompanhava:
– Você já deveria saber, Giulietta. O seu pai é um homem muito ocupado. Ele já tomou o café antes de vocês.
Giulietta, com um revirar de olhos, respondeu com ironia:
– Claro, o grande Don, sempre tão ocupado...
Nesse momento, dois homens altos, tatuados, entraram na sala. Eles eram parecidos com Alessandro, mas com um estilo mais rebelde. O mais alto deles, Enzo, olhou para mim e disse, com um sorriso malicioso:
– Uau, estou impressionado. Nunca pensei que a nossa babá fosse tão jovem. Isso é uma surpresa.
Eu não soube o que responder, então apenas sorri, tentando manter a compostura. A situação já estava ficando desconfortável o suficiente, sem precisar de mais comentários.
Enzo tentou interagir com Lorenzo, mas o menino não levantou os olhos, não respondeu a ele. Eu fiquei observando, intrigada. O que estava acontecendo com esse menino? Ele realmente não falava? Desde quando? O que isso significava?
Foi então que, olhando para o relógio, percebi que já estava na hora de levar as crianças para as atividades.
– Então, vou levar as crianças para a escola – disse, levantando-me.
Enzo soltou uma risada, como se a ideia fosse a coisa mais absurda que já tivesse ouvido.
– Escola? – ele disse, rindo. – Não, senhorita. Eles não vão à escola.
Eu fiquei sem palavras, confusa. Olhei para Donna Raffaella, esperando uma explicação.
– Como assim? – perguntei, ainda sem entender.
– Não se preocupe com isso. Você vai ensiná-los – ela respondeu, como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo. – Vou mostrar o cronograma. Você vai cuidar disso.
Ela me conduziu até uma sala enorme, cheia de livros, e me mostrou um cronograma de matérias que eu deveria ensinar às crianças. Latim? Eu estava em choque. Nunca imaginei que teria que ensinar latim. Isso estava além da minha compreensão. Como eu faria aquilo?
Mas Donna Raffaella não parecia se importar com as minhas dúvidas. Ela apenas me disse que estava tudo ali, no cronograma, e que eu deveria seguir à risca.
Quando a manhã passou e as atividades estavam se iniciando, Giulietta, visivelmente descontente, reclamou:
– Eu não quero fazer artes marciais! Por que tenho que fazer isso?
Ela gritou com a avó, de forma tão agressiva que quase me assustei. Então, num acesso de raiva, ela gritou:
– Eu odeio todos vocês! – e correu para o quarto, batendo a porta com força.
Donna Raffaella, sem se abalar, a seguiu até o quarto. Eu fiquei sozinha com Lorenzo, que parecia cada vez mais assustado. Decidi tentar falar com ele, mas ele não respondeu. Apenas me olhou com aqueles olhos grandes e tristes.
Minutos depois, Donna Raffaella desceu as escadas, com seu semblante sério e impassível.
– Giulietta não vai à aula hoje – disse ela, com frieza. – Você levará Lorenzo à aula de artes marciais. O motorista os acompanhará.
Ela me indicou para seguir até o carro, onde o motorista, Luca, nos esperava.
Luca abriu a porta do carro para nós, e eu entrei com Lorenzo, ainda com mil dúvidas em minha cabeça. Fiquei surpresa ao ver que havia outros carros do mesmo modelo seguindo o nosso. Fiquei curiosa e perguntei ao motorista:
– Por que esses carros estão nos seguindo?
– Protocolo de segurança – respondeu ele, com um tom de quem estava acostumado a responder a esse tipo de pergunta.
Eu ainda estava sem entender o que estava acontecendo, mas aceitei, e logo a dúvida mais profunda apareceu na minha mente: Quem é realmente essa família Lombardi?







