Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 9 — Inútil Resistir
A viagem de volta pareceu mais longa do que o normal. Nicolas permaneceu em silêncio durante quase todo o voo. O notebook permaneceu fechado sobre a mesa. Pela primeira vez em muitos anos… Ele não trabalhou durante uma viagem. Apenas observava as nuvens pela janela. E, sempre que tentava organizar os próprios pensamentos… O mesmo rosto insistia em aparecer. Olhos cor de mel. Um sorriso sereno. Uma voz suave. Respirou fundo. Chega. Assim que o avião pousou, tomou uma decisão. Aquilo terminaria ali. Maya era apenas uma funcionária. Nada mais. Voltaria à rotina. Ao trabalho. À vida que sempre levara. E ela deixaria de ocupar seus pensamentos. Precisava deixar. … Na manhã seguinte… O motorista estacionou em frente à Beaumont Holding. Como fazia todos os dias. Nicolas ajustou discretamente o relógio no pulso. Desceu do carro. Cumprimentou o segurança com um movimento de cabeça. Entrou no saguão. Não olhe para a recepção. A ordem ecoou dentro da própria mente. Continue andando. Era simples. Bastava seguir até o elevador privativo. Nada mais. Deu o primeiro passo. Depois o segundo. No terceiro… Ouviu aquela voz. Calma. Gentil. Inconfundível. — Bom dia, senhor Beaumont. Espero que tenha tido uma boa viagem. Ele parou. Foi apenas um segundo. Mas suficiente para sentir o próprio coração acelerar. Virou lentamente o rosto. Maya estava atrás do balcão. Usava o mesmo blazer azul-marinho. Os cabelos presos no coque impecável. O crachá preso ao bolso do uniforme. Sorria exatamente como sempre. Naturalmente. Como se aquela frase não tivesse importância alguma. Nicolas franziu discretamente a testa. — Você… sabia que eu estava viajando? Ela pareceu surpresa com a pergunta. — Sim. A Patrícia comentou que o senhor estava em Milão fechando um contrato. Espero que tenha dado tudo certo. Ele permaneceu olhando para ela por um instante. — Deu. Maya sorriu mais uma vez. — Fico feliz. Tenha um excelente dia, senhor Beaumont. Ela voltou imediatamente a organizar alguns documentos. Como se aquela conversa tivesse durado apenas o necessário. Como se ele fosse apenas mais um dos funcionários que ela cumprimentava todas as manhãs. Nicolas continuou parado por um breve instante. Ela tinha percebido que ele esteve ausente. Lembrava da viagem. Perguntara como havia sido. Sabia que aquilo era apenas educação. Ela provavelmente faria o mesmo com qualquer outra pessoa. Mesmo assim… Alguma coisa dentro dele relaxou. Sem perceber… O peso que carregava desde que desembarcara em Milão pareceu diminuir. Aquilo o irritou profundamente. Como uma frase tão simples conseguia mudar completamente seu humor? Apertou discretamente a mandíbula. — Ridículo… Seguiu em direção ao elevador. … Do outro lado do balcão… Patrícia observava a cena em silêncio. Esperou Nicolas desaparecer pelo corredor. Então olhou para Maya. — Posso te fazer uma pergunta? Maya levantou os olhos. — Claro. — Você reparou que o senhor Beaumont ficou parado olhando para você? Maya franziu a testa. — Não… Achei que ele estivesse pensando em alguma reunião. Patrícia riu baixinho. — Pode ser. Maya deu de ombros. Voltou a atender o telefone que acabara de tocar. Nem imaginava que, nos últimos dias… O homem mais poderoso daquela empresa vinha travando uma batalha silenciosa contra si mesmo. … No último andar… Nicolas entrou em sua sala. A secretária levantou-se imediatamente. — Bem-vindo de volta, senhor Beaumont. Sua agenda desta manhã começa em vinte minutos. Ele assentiu. — Alguma novidade importante? Ela consultou o tablet. — Apenas uma. A nova recepcionista tem recebido muitos elogios. Os visitantes gostam muito do atendimento dela. Os diretores também. Nicolas tirou lentamente o paletó. — Entendo. A secretária continuou. — Ela parece ter se adaptado muito rápido. Ele apenas fez um discreto movimento de cabeça. — Ótimo. A mulher saiu da sala. Nicolas permaneceu sozinho. Caminhou até a parede de vidro. Lá de cima… Conseguia enxergar parte da recepção. Maya conversava com um casal de empresários. Logo depois ajudou um estagiário que parecia perdido. Em seguida sorriu para um funcionário da limpeza. Era sempre igual. Ela fazia cada pessoa sentir que era importante. Nicolas permaneceu observando. Até que uma ideia surgiu. Simples. Pequena. Quase insignificante. Naquela manhã, ele precisava assinar alguns documentos que normalmente eram levados até sua sala. Poderia pedir que os enviassem. Seria o mais lógico. Mas, pela primeira vez… Levantou-se da cadeira. Pegou a pasta sobre a mesa. — Eu mesmo vou buscar. Assim que pronunciou aquelas palavras… Percebeu que estava inventando uma desculpa para passar pela recepção. Parou no meio da sala. Olhou para a porta. Depois para a pasta em suas mãos. Um sorriso incrédulo surgiu no canto dos lábios. — Você está mesmo fazendo isso, Beaumont? Mesmo sabendo a resposta… Abriu a porta. Porque, no fundo… Já não tinha certeza se ainda estava tentando evitar Maya… Ou procurando qualquer motivo para vê-la novamente. Naquela semana… Algo começou a chamar a atenção de Patrícia. Nos primeiros dias, ela acreditou que fosse coincidência. Depois, passou a contar. Uma vez. Duas. Três. Quatro. Nicolas Beaumont atravessara a recepção quatro vezes naquela manhã. Aquilo era completamente fora do comum. Normalmente, o presidente da Beaumont Holding passava pela recepção apenas quando chegava à empresa e quando ia embora. Qualquer documento era levado até sua sala. Qualquer diretor subia para falar com ele. Ele jamais tinha motivo para circular por ali. Mas, de repente… Parecia encontrar uma desculpa diferente todos os dias. Às vezes dizia que precisava buscar uma pasta. Outras, descia para conversar rapidamente com algum diretor. Em outra ocasião, foi pessoalmente buscar um café, mesmo existindo uma máquina exclusiva em seu andar. Patrícia cruzou os braços. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Esperou Nicolas desaparecer novamente pelo corredor. Depois olhou para Maya. Ela organizava alguns documentos sem perceber absolutamente nada. Patrícia aproximou-se do balcão. — Maya… — Oi? — Posso te perguntar uma coisa? Ela levantou os olhos. — Claro. Patrícia inclinou-se discretamente sobre o balcão. — Você percebeu que o senhor Beaumont tem passado por aqui muitas vezes? Maya olhou em direção ao corredor. Depois voltou a encará-la. — Não… Talvez ele esteja mais ocupado esses dias. Patrícia soltou uma risada baixa. — Justamente por isso que estou estranhando. Ele nunca desce. Nunca. Maya apenas deu de ombros. — Deve ser coincidência. — Coincidência? Patrícia arqueou uma sobrancelha. — Hoje já foi a quarta vez. Maya sorriu, divertida. — Você está contando? — Estou. As duas riram. Patrícia voltou a falar, agora em um tom quase conspiratório. — Quer saber o que eu acho? — O quê? — Acho que ele está procurando uma desculpa para passar por aqui… …e ver você. Maya arregalou os olhos. No segundo seguinte, caiu na risada. Uma risada sincera. Daquelas que faziam seus olhos quase se fecharem. — Patrícia… Para com isso. Patrícia manteve a expressão séria. — Estou falando sério. Maya balançou a cabeça. — Você conhece o senhor Beaumont há quanto tempo? — Quase oito anos. — Então sabe que ele é um dos homens mais ricos do país. Patrícia concordou. — Sei. — Bonito. — Também. — Inteligente. — Muito. Maya abriu um pequeno sorriso. — E eu sou apenas uma recepcionista. Filha de dois trabalhadores. Morei a vida inteira em um apartamento pequeno. Passei anos servindo café e trabalhando em lanchonete. Você realmente acredita que um homem como ele olharia para alguém como eu? Patrícia ficou alguns segundos em silêncio. Depois respondeu com sinceridade. — Acho. Maya riu novamente. — Então você está assistindo filmes românticos demais. Patrícia também sorriu. — Pode ser… Mas continuo achando estranho. Maya voltou sua atenção para os documentos. — Eu não. Ele só está trabalhando. E eu também. Patrícia não insistiu. Mas, enquanto observava Maya voltar à rotina… Teve a estranha sensação de que ela era a única pessoa naquele prédio que ainda não percebia o jeito como Nicolas a olhava. E, curiosamente… Talvez fosse exatamente isso que mais o atraísse nela.






