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Capítulo 15 — O Que Ninguém Via

As semanas passaram depressa.

A rotina entre Nicolas e Maya já parecia natural.

Ela conhecia seus horários.

Sabia quais reuniões poderiam ser adiadas.

Quais contratos precisavam de atenção imediata.

E até conseguia perceber, apenas pelo jeito como ele atravessava a porta da sala, quando alguma negociação não havia saído como esperado.

Naquela manhã...

Assim que Nicolas entrou, Maya levantou os olhos do computador.

— Bom dia, senhor Beaumont.

Ele respondeu com um leve movimento de cabeça.

— Bom dia.

Ela entregou-lhe um tablet.

— Sua primeira reunião foi adiada em trinta minutos. O diretor financeiro teve um imprevisto.

Nicolas pegou o aparelho.

— Ótimo.

Era só uma palavra.

Mas Maya já havia aprendido que, para ele...

Aquilo significava um elogio.

Sorriu discretamente.

...

Pouco antes do almoço...

O telefone da mesa de Maya tocou.

Ela atendeu imediatamente.

— Presidência da Beaumont Holding, bom dia.

Do outro lado da linha, um cliente falava rápido, irritado.

Maya ouviu tudo sem interromper.

Anotou as informações.

Falou com calma.

Quando desligou, respirou fundo.

Patrícia observava de longe.

— Cliente difícil?

Maya sorriu.

— Um pouquinho.

— Você tem uma paciência que eu nunca vou entender.

— Alguém precisa manter a calma.

...

Do outro lado da parede...

Nicolas havia escutado parte da conversa.

Sem querer.

Ouviu o tom educado de Maya.

A forma tranquila como ela resolvia o problema.

Ela nunca levantava a voz.

Nunca tratava ninguém com impaciência.

Mesmo quando tinha motivos.

Aquilo o impressionava.

Mais do que deveria.

...

No fim da tarde...

Uma chuva forte começou a cair sobre a cidade.

Os trovões fizeram alguns funcionários correrem até as janelas.

Maya olhou discretamente para o relógio.

Gabriel.

Naquele horário, ele costumava voltar da fisioterapia.

Pegou o celular.

Nenhuma mensagem.

Ligou.

Chamou.

Chamou novamente.

Nada.

Seu coração apertou.

Tentou outra vez.

Sem resposta.

Respirou fundo.

"Deve estar no ônibus."

Tentou convencer a si mesma.

Mas a preocupação permaneceu estampada em seu rosto.

...

Alguns minutos depois...

Nicolas saiu da sala para entregar alguns documentos.

Assim que olhou para Maya...

Percebeu imediatamente.

Havia algo diferente.

Ela continuava trabalhando.

Mas seus dedos batiam nervosamente sobre a mesa.

Ela olhava o celular a cada poucos segundos.

Não sorria.

Ele permaneceu parado por um instante.

— Aconteceu alguma coisa?

Maya levantou a cabeça, surpresa.

Demorou um segundo para perceber que a pergunta era para ela.

— Não... quer dizer...

Meu irmão ainda não chegou em casa.

Com essa chuva, ele costuma demorar.

Estou tentando falar com ele.

Nicolas observou a preocupação em seus olhos.

— Ele está sozinho?

Ela assentiu.

— Sim.

Os pais faleceram há alguns anos.

Desde então...

Somos só nós dois.

Ela sorriu, tentando minimizar a própria preocupação.

— Desculpe.

Não quero misturar problemas pessoais com trabalho.

Nicolas permaneceu em silêncio.

Depois apenas disse:

— Continue tentando.

Ela assentiu.

— Obrigada.

Ele voltou para a sala.

Fechou a porta.

Mas não conseguiu voltar ao relatório que estava lendo.

Pela primeira vez...

O pensamento que ocupava sua mente não era sobre contratos.

Nem sobre empresas.

Era sobre Maya.

E sobre a expressão de preocupação que ela tentava esconder.

Dez minutos depois...

Sua secretária entrou na sala.

— Senhor Beaumont?

Ele ergueu os olhos.

— Sim?

— O conselho já está esperando.

Nicolas fechou a pasta.

Levantou-se.

Antes de sair...

Olhou discretamente para a recepção.

Maya ainda encarava o celular.

Esperando uma ligação.

Esperando uma mensagem.

Sem perceber...

Nicolas diminuiu o passo.

Por um breve instante...

Teve vontade de dizer que tudo ficaria bem.

Mas não disse.

Ainda não sabia como cuidar de alguém.

Só sabia observar.

E se preocupar em silêncio.

Talvez...

Esse fosse o primeiro sentimento verdadeiro que experimentava em muitos anos.

Enquanto atravessava o corredor em direção à sala do conselho...

Nicolas tirou o celular do bolso.

Abriu a tela.

Parou por alguns segundos.

Pensou em pedir para um de seus seguranças verificar se havia acontecido algum acidente no trajeto da fisioterapia.

Ou mandar um motorista buscar Gabriel.

Qualquer coisa.

Mas logo bloqueou o celular novamente.

— O que você está fazendo...

Murmurou para si mesmo.

Aquilo ultrapassava todos os limites que havia imposto à própria vida.

Maya era sua assistente.

Nada mais.

Era nisso que precisava continuar acreditando.

Mesmo assim...

A ideia de vê-la preocupada o incomodava mais do que qualquer reunião importante.

Respirou fundo.

Guardou o celular no bolso.

Entrou na sala do conselho.

Os diretores já discutiam números milionários.

Projetos.

Investimentos.

Contratos.

Assuntos que, até poucas semanas atrás, ocupavam completamente sua mente.

Naquele dia...

Nenhum deles parecia importante.

Porque, pela primeira vez em muitos anos...

Nicolas Beaumont descobria que existiam preocupações que dinheiro algum era capaz de resolver.

E isso...

O assustava mais do que qualquer negociação de bilhões.

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