O ceo que me amava
O ceo que me amava
Por: Giovanna Bueno
Prólogo

Ana

Quando o Uber parou diante do prédio, Ana permaneceu alguns segundos sentada, observando a fachada iluminada pelo reflexo amarelado dos postes da rua. O vidro da janela estava levemente embaçado pela diferença de temperatura, e ela traçou uma linha distraída com a ponta do dedo, como se aquele gesto pudesse adiar o que quer que estivesse esperando por ela do outro lado da porta.

Não havia motivo concreto para o aperto em seu peito.

Ainda assim, ele estava ali.

Denso. Persistente. Como uma mão invisível pressionando suas costelas por dentro.

Talvez fosse apenas ansiedade por voltar antes do previsto. Talvez culpa por suspeitar de alguém que amava. Ana sempre tivera essa tendência irritante de imaginar cenários trágicos antes que existissem. Autossabotagem, sua terapeuta costumava dizer.

Mas algo estava diferente naquela noite.

O ar parecia pesado demais.

Subiu até o apartamento com a pequena sacola pendendo do pulso. A lingerie vermelha estava cuidadosamente dobrada ali dentro, escolhida depois de quase uma hora indecisa diante do espelho da loja. Vermelho era a cor que Rodrigo dizia deixá-la irresistível. Ela queria lembrar a ele disso. Queria lembrar aos dois.

Seis meses morando juntos.

Seis meses desde que os beijos começaram a ficar mais curtos. Desde que as mãos dele deixaram de procurá-la no meio da madrugada. Desde que o cansaço passou a ser o terceiro habitante da cama. Seis meses daquele homem que a procurava com intensidade havia sumido.

Ela se esforçara para reconquista-lo.

Cozinhara os pratos que ele gostava. Fingira não notar a distância nos olhos dele. Repetira a si mesma que todo relacionamento atravessa fases. E que aquela fase seria passageira, o trabalho dele estava consumindo-o muito, ela precisava ser paciente.

Ou o seu maior medo... talvez o problema fosse ela. Talvez tivesse deixado de ser interessante. Desejável. Suficiente.

Abriu a porta devagar, tomando cuidado para que a chave não fizesse barulho.

Queria surpreendê-lo.

Foi então que ouviu.

Primeiro, uma risada abafada.

O coração de Ana reconheceu antes da mente.

Era a risada dele — aquela que costumava vibrar contra seu pescoço quando ele a abraçava por trás na cozinha.

Ela ficou parada no corredor, o corpo inteiro em alerta.

Talvez fosse a televisão.

Mas então veio outro som.

Um gemido baixo. Feminino.

O mundo não desabou de uma vez. Partiu-se em silêncio.

Caminhou até o quarto como se os pés não tocassem o chão. Cada passo parecia distante, amortecido, como se estivesse submersa em água.

O cheiro foi a primeira confirmação real.

Doce. Enjoativo. Familiar.

Ela mesma escolhera aquele perfume meses antes, no aniversário da amiga. Lembrava de ter dito que combinava com a personalidade dela — leve, marcante.

A porta estava entreaberta.

E Ana viu.

Rodrigo sobre a amiga dela, os corpos se movendo em um ritmo íntimo demais para ser confundido com qualquer outra coisa.

A pele dele brilhava sob a luz quente do abajur. As mãos dela estavam cravadas nas costas dele como se o conhecesse profundamente.

Ela era sua amiga. Não era?

Era.

Ou dizia ser.

Algo se quebrou dentro de Ana, não em pedaços pequenos como diziam acontecer, mas em uma rachadura profunda que ela ainda não saberia como consertar.

Sempre imaginara que gritaria se algo assim acontecesse. Que quebraria objetos, que o enfrentaria com violência. Mas o que veio foi pior.

Indiferença.

Um silêncio tão absoluto que ela conseguia ouvir a própria respiração, irregular e rasa. A boca tinha gosto metálico. As mãos estavam frias.

Eles a viram.

O susto atravessou os dois ao mesmo tempo.

— Eu posso explicar — ele disse.

— Não queríamos te magoar — a outra completou.

A cena seria quase cômica se não fosse tão trágica.

Dois corpos nus, entrelaçados, tentando construir justificativas inúteis, enquanto Ana ainda segurava a sacola vermelha que comprara para agradá-lo.

Onde estivera com a cabeça?

Olhou para os dois como se fossem personagens de uma história ruim da qual finalmente acordara. Todos os sinais estavam ali. Ela apenas escolhera confiar.

Doce ilusão.

— Não quero explicação. Só se vistam.

A própria voz soou baixa. Controlada. Estranha até para si.

Sua amiga se vestiu com uma rapidez surpreendente saindo do apartamento.

Sábia.

Muito sábia.

Rodrigo não demonstrou culpa. O que havia em seus olhos era irritação por ter sido interrompido. Vestiu-se devagar, acendeu um cigarro e soprou a fumaça para o lado, como se aquilo fosse apenas um inconveniente logístico.

— Não transforma isso em drama. A gente já não era mais um casal faz tempo… só você não percebeu.

Ele soprou a fumaça na direção dela, as palavras carregadas de desdém.

Foi naquele momento que algo realmente morreu.

Não o amor.

Mas a imagem que Ana tinha dele.

E talvez, também, a versão de si mesma que acreditava que amor era algo real.

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