Mundo de ficçãoIniciar sessãoAna
Acordou com o coração acelerado ao som conhecido do despertador marcando quatro horas da manhã. O toque insistente atravessou o sono como uma lâmina fria, arrancando-a do descanso. Desligou por reflexo, ainda sonolenta. O corpo pesado, a mente lenta. A dor de cabeça da ressaca a puxou de volta à consciência e, só então, lembrou-se: era domingo. Podia dormir mais.
Virou-se na cama, puxando o cobertor para si, tentando se aninhar outra vez naquele resto de descanso — e foi nesse movimento que percebeu que havia algo a mais. Ou melhor, alguém.
A consciência veio em fragmentos, desordenada. Um beijo. A entrada no apartamento. Depois, nada. Absolutamente nada. Por mais que forçasse, não conseguia se lembrar.
Levantou-se com cuidado e sentiu os mamilos endurecerem com o contato do ar frio. Foi nesse instante que entendeu.
Estava nua.
O colchão era mais macio do que o seu. O perfume no ar — amadeirado, masculino e, contra sua vontade, delicioso — não fazia parte do seu quarto. A dor de cabeça latejou com mais força, como se punisse cada tentativa de acessar a noite anterior.
Respirou fundo, devagar, temendo que qualquer movimento mais brusco quebrasse algo invisível.
Ligou a lanterna do celular.
O quarto surgiu aos poucos, revelado pela luz branca e invasiva. Era grande demais. Espaçoso demais. Quase do tamanho da casa da mãe. O ar-condicionado chiava baixo, constante, preenchendo o silêncio com um ruído mecânico.
Foi então que se permitiu olhar para o homem ao seu lado.
O cobertor cobria-lhe o quadril, mas o abdômen definido estava à mostra — e era impossível ignorar. Cada traço parecia ter sido esculpido com precisão: o maxilar marcado, os lábios fartos, o nariz harmonioso, as sobrancelhas bem desenhadas. Ele exalava uma perfeição quase irreal.
Ela ficou ali por alguns segundos, observando a respiração tranquila dele.
Deveria ter sido apenas mais uma transa fácil.
Suspendeu o ar nos pulmões.
Sexo casual.
A palavra surgiu em sua mente como algo proibido. Algo que nunca tinha acontecido em todos os seus vinte e seis anos. Um riso nervoso ameaçou escapar, mas morreu antes de alcançar a garganta. Não havia humor ali. Apenas incredulidade.
Apontou a lanterna para o chão, procurando suas roupas. Nada. Nenhum vestido jogado, nenhuma calcinha esquecida na pressa. Apenas o sutiã, abandonado no banheiro, como uma prova tardia de que aquilo realmente tinha acontecido. O resto parecia perdido em algum ponto da noite que sua mente se recusava a acessar.
Sentiu o rosto esquentar.
Não sabia o que a incomodava mais: ter feito aquilo ou não se lembrar exatamente de como. Sempre acreditara que não era esse tipo de mulher. A que acorda nua ao lado de um estranho. A que atravessa a própria linha sem perceber quando ela foi cruzada.
E, ainda assim, ali estava.
Pensou, por um instante breve demais para ser chamado de desejo, em acordá-lo. Perguntar seu nome. Fingir normalidade.
Rejeitou a ideia no mesmo segundo.
Qualquer palavra seria um convite. Qualquer troca, um laço. E ela não queria nada que a prendesse àquela madrugada. Não queria nada que a mantivesse ligada àquele erro.
Abriu o guarda-roupa que não lhe pertencia. Camisas perfeitamente alinhadas, ternos caros — roupas que denunciavam uma vida organizada. O oposto do caos que sentia por dentro. Escolheu uma camisa dele, comprida o suficiente para lhe servir como vestido. Vestiu-se depressa, como se o quarto pudesse julgá-la se demorasse demais.
Na bolsa, encontrou um pedaço de papel grudado a um chiclete. Aquilo pareceu simbólico demais para ser ignorado. Rasgou um canto e ficou alguns segundos encarando o espaço em branco, testando frases que jamais seriam escritas.
Nada soava certo. Muito menos ir embora daquele jeito. Mas, pelo que aprendera com Hellen, o melhor a fazer era fingir que não tinha sido tão importante.
Certo?
No fim, escreveu apenas uma palavra:
Obrigada.
— A.Dobrou o papel e deixou sobre a cômoda, longe da cama. Chamou um Uber. Saiu sem fazer barulho, sem olhar para trás, sem nem ao menos saber o nome daquele desconhecido.
Levava consigo apenas o silêncio da madrugada — e a estranha sensação de ter deixado algo para trás.







