Mundo de ficçãoIniciar sessãoHellen
O restaurante era discreto demais para o gosto dela.
Hellen Demaris sempre preferiu lugares com mais barulho, mais pessoas e mais distrações. Ambientes onde pudesse rir alto sem chamar atenção e onde ninguém prestasse tempo suficiente para reparar em quem entrava ou saía. Mas ele insistira. Dissera que precisava de algo “civilizado” depois de uma semana infernal. Sentado à sua frente, impecável como sempre, seu primo definitivamente não parecia alguém que tivesse passado por uma guerra. — Você realmente parece que passou por uma semana infernal — zombou ela, apoiando o queixo na mão enquanto o analisava. — Olha essa aparência perfeita. Parece que saiu da guerra… e, pelo jeito, saiu vencendo. Ele ergueu uma sobrancelha. O mesmo gesto de quando tinha quinze anos e fingia maturidade para impressionar os adultos nas reuniões de família. — Não é guerra. É empresa. — retrucou, seco. — A mesma coisa, Dudu. Ele revirou os olhos ao ouvir o apelido que ela inventara na infância e que sobrevivera a todas as fases “sérias” dele. Hellen conhecia aquele olhar. Era o olhar de quem estava cansado, mas jamais admitiria. Eduardo sempre fora assim. Controle absoluto. Emoção calculada. Vulnerabilidade? Só em prestações mínimas. — Como está a tia? — ela perguntou, mudando o tom. Ele descruzou os braços. — Melhor. O médico disse que, se continuar assim, domingo ela recebe alta. Mas precisa evitar estresse. O lúpus piora com questões emocionais. Hellen assentiu devagar. A tia sempre fora ativa demais para aceitar repouso. Trabalhar era quase uma extensão da personalidade dela. Pedir que ficasse longe de estresse era como pedir que deixasse de respirar. — Ela continua falando de casamento com a minha mãe — Hellen comentou, com um meio sorriso provocador. — Acho que logo, logo você vai ter que sair do celibato. O silêncio que se instalou não foi imediato, mas foi perceptível. Ele não rebateu, muito menos ironizou como sempre fazia. Hellen estreitou os olhos, sorrindo com malícia. Tinha algo ali. — Sem nem debater? — inclinou-se sobre a mesa. — Você está com alguém? Ele pegou a taça de vinho e a girou entre os dedos, pensativo. — Conheci alguém interessante. Ela quase engasgou. — Você? O canto da boca dele se moveu minimamente. — Foi… diferente. Diferente. Ele definitivamente não usava aquela palavra com frequência. — Diferente como? — ela insistiu. Ele deu de ombros. — Não sei ainda. Milagre número dois. — Nome? — ela atacou. Uma pausa. — Segrego. Ele sustentou o olhar dela por um segundo longo demais. Hellen encostou-se na cadeira, avaliando o primo como quem tenta decifrar um código antigo. — Olha só… Quem diria que o senhor controle absoluto ainda é capaz de se surpreender. Ele arqueou a sobrancelha outra vez. — E você? Continua afastando homens bons por esporte? Ela pegou o celular, que havia vibrado discretamente sobre a mesa, e virou a tela para baixo sem responder à mensagem. — Eu não afasto. Eu filtro. O olhar dele dizia claramente: você está mentindo. Hellen ignorou. O garçom trouxe o vinho. Conversaram sobre banalidades — a recuperação da tia, a pressão da família, o retorno dele definitivo ao país. Assuntos seguros. Confortáveis. Mas a palavra diferente continuava ecoando. Quando saíram do restaurante, o ar da noite estava mais frio do que ela esperava. Hellen o abraçou rápido, como sempre fazia. Eduardo demorou meio segundo a mais para soltar. — Não faz nada estúpido — ela disse, meio brincando. Ele soltou um quase sorriso. — Você também não. Ela entrou no carro ainda pensando naquilo. “Conheci alguém interessante.” Eduardo não se interessava. Ele analisava tudo. Se algo tinha sido diferente, significava que havia mexido em algo que ele não controlava. Ela riu com interesse. Hellen pegou o celular antes mesmo de ligar o carro. Sexta-feira. Dia de distração. Dia de arrastar a melhor amiga para fora do próprio caos. Ligou. — Ana, você não vai ficar enfiada nesse apartamento hoje. A gente vai sair. Fez uma pausa estratégica. — Não aceito não como resposta. Desligou com um sorriso satisfeito. Sem imaginar que aquela sexta-feira não traria apenas música alta e ressaca no dia seguinte.






