Mundo de ficçãoIniciar sessãoAna
Hellen lançou um olhar rápido para a amiga.
E é por isso que hoje é por minha conta. Dane-se esse seu pudor. Vou gastar com você, porque, na boa, Ana… não dá pra você ir assim sem eu passar vergonha.
Ana manteve os olhos fixos na janela enquanto respirava fundo, como quem tenta organizar o caos antes que ele transborde. Um canto da boca se ergueu num sorriso cansado.
Quem era ela para recusar um pedido de Hellen Damaris?
Riram juntas daquele riso antigo, confortável, construído em anos de amizade. As duas se conheciam bem o bastante para saber quando insistir… e quando ceder.Quando chegaram ao bar, Ana sentiu um calafrio, daqueles que surgem quando se sai completamente da zona de conforto.
Tudo era luxuoso demais. As roupas, os sapatos, os corpos. As mulheres exibiam curvas esculpidas, silicone bem distribuído, botox em dia. Ser natural parecia fora de moda naquele lugar.
Hellen escolheu uma mesa e pediu o cardápio ao garçom. Conversaram sobre tudo e sobre nada, até que, em determinado momento, Ana percebeu a troca de olhares. Um homem de cabelos cacheados. O sorriso ensaiado. As palavras bonitas demais.
Ele se aproximou e sentou-se à mesa.
Ana já sabia o que aquilo queria dizer. Aquela noite terminaria com ela indo embora sozinha.
Assentiu discretamente para a amiga, acenando com a cabeça. Um único olhar bastou para que Hellen entendesse o sinal. Hoje, ela iria aproveitar.
Quando Hellen saiu para dançar, logo envolvida em beijos com o rapaz, Ana decidiu que seria melhor se sentar em um dos bancos do bar e pedir mais uma bebida.
O celular vibrou dentro da bolsa. Ela decidiu ignorar.
- Não deveria estar dançando? - perguntou o homem que acabara de se sentar ao seu lado.
Antes mesmo de olhá-lo, ela respondeu, girando o gelo no copo:
- Não deveria estar cuidando da própria vida? - respondeu seca.
Ela então virou o rosto, devagar.
E foi ali que percebeu.
Bonito demais para aquele sorriso despreocupado. Traços bem definidos, a barba por fazer na medida certa, o tipo de homem que chamava atenção sem esforço. O corpo ocupava o espaço com naturalidade, como se soubesse exatamente o efeito que causava.
Merda.
- Justo - disse ele. - Mas você parecia entediada.
- Eu estou entediada. Não confunda com convite.
- Então por que ainda não mandou eu ir embora?
Ana terminou a bebida em um gole.
- Porque observar estranhos confiantes demais é um passatempo curioso.
Ela fez sinal ao garçom.
- Quero outro. - balançou o copo.
- Quero o mesmo que ela - disse ele.
- Pelo menos tem bom gosto - deu de ombros, desviando o olhar rápido demais para não parecer interessada.
- Confiante demais ou interessante o suficiente pra te distrair?
A voz dele era agradável. Irritantemente agradável.
- Você se escuta quando fala? - franziu a testa.
Ele sorriu, como quem se diverte com a própria audácia.
- Sempre. Principalmente quando estou certo.
Ana apoiou o cotovelo no balcão apoiando a face.
- Que pena. Eu gostava mais de você calado.
- É o que parece. - disse ele - E do que você gosta além disso?
O pensamento quente que atravessou sua mente a pegou desprevenida. Engasgou-se com a bebida. Fazia tanto tempo que não fazia nada. O rosto esquentou, e a vermelhidão tomou conta da pele.
Ele gargalhou e que som lindo. Ela ficou ainda mais constrangida - e ele percebeu.
- Você está corada - comentou, sorrindo, os olhos brilhando de malícia.
- Maquiagem faz isso com as pessoas. Devo ter exagerado no blush - respondeu, sorrindo de volta.
- Não. Eu.
- Sua autoestima é comovente.
- Obrigado. Passei anos treinando.
Ele apoiou o braço na bancada, fazendo o bíceps se destacar sob a camisa.
- Pois bem - disse, sorrindo - acho que deveríamos fazer coisas mais interessantes.
- Com certeza - respondeu ela, sem pensar duas vezes. Para ele, devia ser fácil ter qualquer mulher que quisesse.
Revirou os olhos e depois pousou-os nele. Apoiou o rosto em uma das mãos, com ar de tédio.
- Que tal a minha mão na sua cara? - sorriu, angelicalmente.
- Então você é dada à violência… - o sorriso maroto cresceu em seus lábios fartos. - Acho que vou gostar.
Aquele homem era do tipo que tirava o fôlego e quebrava corações de donzelas indefesas.
Uma pena que aquela donzela não tivesse mais coração e estivesse longe de ser indefesa.
Ela suspirou profundamente, cedendo um pouco, abaixando as defesas. Talvez uma conversa casual ajudasse a afastar da cabeça toda a merda que vinha acontecendo na sua vida. Uma noite. Um intervalo mínimo entre tantos dias vividos no automático, sem um pingo de felicidade.
- Ok, ok… eu gosto de batata frita. E estou com fome.
Ele riu, os olhos brilhando de um jeito fácil.
- Eu também adoro.
- Com cheddar? - ela sorriu, quase despretensiosa.
- Com muito cheddar.
A partir dali, conversaram sobre tudo. Assuntos banais, histórias bobas, pequenas confissões. Era estranho como fluía como se se conhecessem há anos. A música ao fundo deixou de incomodar. A luz, o bar, o resto do mundo foram ficando distantes. Por alguns instantes, parecia que só os dois existiam ali.
Até que o celular dela começou a vibrar sem parar.
Na tela, um nome que ainda tinha peso suficiente para derrubá-la.
Rodrigo.
O nó se fechou em sua garganta. O homem à sua frente percebeu de imediato; o rosto dele perdeu o sorriso, ficando atento, sério.
- Já volto - disse Ana, levantando-se rápido, caminhando para fora.
- Porra, Ana! - a voz dele veio áspera do outro lado da linha.
- Boa noite. Isso são horas de me ligar? - respondeu, tentando não deixar a irritação escapar.
- Tô atrapalhando alguma foda sua? - debochou.
- Olha, acho melhor conversarmos em outro momento.
- Quem é, amor? - uma voz feminina soou ao fundo.
O estômago dela revirou.
- Ana - Rodrigo continuou - vou vender essa merda de apartamento. Para de me encher.
- Não sou eu quem liga em horário inapropriado - disse, fria. - Por gentileza, converse com minha advogada. Boa sorte.
Desligou.
Mas o estrago já estava feito.
Aquela voz ao fundo tornava tudo mais real: a traição, a ferida que ainda sangrava. A amargura subiu do peito para a garganta. Os olhos marejaram antes que ela pudesse impedir.
- Tá tudo bem aí? - ele perguntou, aproximando-se com cautela.
- Tá - mentiu, observando o carro passar pela rua.
- Então você tá fugindo, furacãozinho? - disse baixo, surgindo atrás dela.
- Só trocando de cenário.
Ela respirou fundo, tentando conter o que insistia em transbordar.
- Vai me dizer que não estava se divertindo? - ele arriscou, inseguro.
- Eu me divirto sozinha - respondeu seca.
Mais uma vez, erguendo muros.
- Não duvido - ele disse com calma. - Mas talvez pudesse estar se divertindo melhor.
A proximidade entre os dois ficou densa. A boca dele se aproximava devagar, como quem testa limites.
- Você é sempre assim? - ela perguntou.
- Assim como? - ele sorriu, fingindo inocência.
- Inconveniente.
- Eu diria persistente.
- Arrogante.
- Interessado.
O olhar dela parou nos lábios dele por tempo demais. Ele percebeu.
- Cuidado - murmurou, ainda mais perto. - Você olha assim e depois finge desinteresse.
Ela se aproximou até sentir os seios tocarem o peitoral dele.
- Você fala assim e acha que não vai levar um tapa.
- Promessas, promessas…
O ventre dela se aqueceu. A raiva se dissolveu lentamente. O coração martelava no peito.
Quer saber? Dane-se.
A mão dela subiu pelo peitoral dele até a gola da camisa macia. A respiração dele pesou quando ela o puxou e encostou os lábios nos dele. Não foi gentil. Não foi contido. Eles se procuravam com urgência, como se aquele beijo fosse um antídoto para tudo o que doía.
A mão dele segurou sua nuca, aprofundando o beijo. Um arrepio percorreu a espinha dela, e o calor no ventre cresceu quando percebeu o corpo dele reagindo.
Ela nunca tinha feito algo assim com um desconhecido.
E o pior - ou talvez o melhor - era saber que não tinha a menor intenção de parar.







