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Gosto amargo, arrependimento

Ana

Quando Ana chegou em casa, já passava das seis e meia da manhã. Jogou a bolsa no sofá e ficou parada no meio da sala, sentindo o silêncio pesar mais do que o cansaço. A dúvida veio com força: tinha feito o certo?

Ir embora sem dizer nada. Deixar apenas um bilhete.

Quem faz isso?

A culpa se instalou rápido, espessa. Sentiu-se a pior pessoa do mundo — alguém que usa, que atravessa a vida de outra pessoa e simplesmente some. Não combinava com ela. Nunca combinou.

Pegou o celular com as mãos ainda trêmulas e mandou uma mensagem para Hellen:

Pelo amor de Deus, quando acordar você pode me ligar? Preciso conversar.

Largou o aparelho na cama e passou a mão no rosto, tentando organizar os pensamentos que insistiam em correr em círculos.

Mais tarde, quando o celular vibrou com a chamada de vídeo, Ana atendeu de imediato. Do outro lado da tela, Hellen mal conseguia se conter — gargalhava como se tivesse acabado de ouvir a melhor fofoca do ano.

Quer dizer que você… VOCÊ… teve uma noite? — disse, enxugando as lágrimas de riso. — Aninha, eu não te conheço mais!

 Hellen, eu tô falando sério — Ana retrucou, tensa. — Eu tô mal com isso. Eu acordei desnorteada, não pensei direito…

 Olha, o que já foi feito, foi feito — respondeu a amiga, dando de ombros. — E ainda por cima você roubou uma camisa da Brunello Cucinelli! - disse se divertindo.

 Você sabe que eu vou devolver! — Ana quase gritou, arregalando os olhos ao ver o valor que aparecia na tela enquanto pesquisava. — Isso aqui custa um rim!

 Amiga… — Hellen riu ainda mais. — Mas vamos ao que interessa. Usou preservativo, certo?

Ana engoliu em seco.

 Então… — começou, hesitante. — Eu vou tomar a pílula do dia seguinte, só pra me precaver. Porque, sinceramente… eu não lembro.

O sorriso de Hellen diminuiu, ainda que não tivesse desaparecido por completo.

 Como assim não lembra?

 Eu lembro do beijo. Lembro vagamente de chegar no apartamento dele. E depois…  Ana respirou fundo. — Depois eu acordei.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais cuidadoso. Pela primeira vez naquela conversa, Hellen não fez piada.

Quando Ana terminou de falar, o silêncio do outro lado da tela durou alguns segundos. Hellen não riu. Não fez piada. Apenas a observou com atenção, a cabeça levemente inclinada, como quem tenta enxergar além do que está sendo dito.

— Vem cá… — começou, com a voz mais baixa. — Olha pra mim.

Ana aproximou o celular do rosto. Os olhos estavam cansados, inchados de tanto chorar, o cabelo preso de qualquer jeito.

— Você tá se punindo demais — disse com suavidade. — Muito mais do que merece.Uma noite não vai definir seu caráter.

— Eu me sinto errada — Ana confessou, a voz falhando. — Como se eu tivesse feito algo que não combina comigo. Eu deixei um bilhete idiota. Isso não é quem eu sou.

— Aninha… — Hellen suspirou. — Isso também é quem você é. Uma mulher machucada, confusa, tentando sobreviver a um monte de coisa ao mesmo tempo.

Ana desviou o olhar.

— Eu não lembro — repetiu, mais baixo. — E isso me assusta. Não lembrar me faz sentir… suja.

— Escuta — Hellen se aproximou da câmera, apoiando o queixo na mão. — Você não fez nada errado. Você não traiu ninguém. Não enganou ninguém. Você não deve explicação pra um desconhecido só porque acordou na cama dele.

— Mas eu usei ele — Ana rebateu, o choro contido na garganta.

— Não. — Hellen foi firme. — Vocês dois estavam ali. Dois adultos. Você só foi embora. Isso não te transforma numa vilã.

Ana respirou fundo, sentindo o peito apertar.

— Depois do Rodrigo… — começou, mas a frase morreu.

Durante o Rodrigo — Hellen completou — você passou meses se sentindo pequena, insuficiente. E agora você viveu algo que nunca teve, não é errado o que você fez.

Ana sentiu os olhos marejarem.

— Eu não queria sentir nada — admitiu. — Eu só queria esquecer por uma noite.

— E conseguiu? — Hellen perguntou com delicadeza.

Ana demorou a responder.

— Por algumas horas… acho que sim.

— Então pronto — Hellen sorriu de leve. — Não transforma um respiro em um erro.

Ana passou a mão no rosto, limpando uma lágrima que escapou.

— Eu tenho medo de estar me perdendo. Você sabe que não faço essas coisas.

— Não — Hellen disse com convicção. — Você tá se reencontrando. Só que o caminho é feio, confuso e nada romântico. E tá tudo bem.

— E se ele acordar e achar que eu fui uma babaca?

— Problema dele. — Hellen deu de ombros. — Se um dia vocês se cruzarem de novo, você lida com isso. Hoje, o que importa é você estar segura, em casa e inteira.

Hellen fez uma pausa e sorriu, mais leve.

— Agora… — acrescentou — você vai tomar essa pílula, beber água, comer alguma coisa decente e dormir. E depois me manda foto da camisa, porque eu ainda tô inconformada que você saiu de um trauma direto pra Brunello Cucinelli.

Ana soltou um riso baixo.

— Obrigada. 

— Sempre — respondeu Hellen. 

A ligação terminou e o aperto no peito de Ana diminuiu um pouco.

Talvez não estivesse quebrada.

Talvez estivesse apenas… em processo, um confuso, estranho e cheio de baixos e altos. Talvez mais baixos que altos nesse momento.

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