Sebastian Viccari
A meia-noite em Mayfair tem uma quietude quase sagrada. Eu estava no fundo da livraria, onde as sombras das estantes de carvalho pareciam dedos longos tentando tocar o teto. O som da chuva fina batendo contra a vidraça era o único metrônomo da minha espera. Eu sabia que ela viria. A raiva de Aurora Moretti é um combustível potente demais para deixá-la dormir.
Ouvir o clique da fechadura da porta dos fundos foi como ouvir o gatilho de uma arma sendo puxado. Sorri no escuro, saboreando o momento.
Ela entrou como um furacão de seda e indignação. O sobretudo estava levemente úmido e o rosto dela, iluminado apenas pela luz fraca da rua que filtrava pelas frestas, estava transfigurado pela fúria.
— Você é um doente, Sebastian! — ela disparou, antes mesmo de fechar a porta. — Entrar no meu apartamento? Abrir o meu cofre? Você tem noção do que o Ricardo faria se te encontrasse lá dentro? Ele tem ordens de atirar primeiro e perguntar depois!
Levantei-me da poltrona