Dia de Princesa

MARJORIE

Eu estava apreensiva desde a noite anterior. Tinha avisado ao Apolo que minha mãe tinha marcado o encontro com o meu noivo para dali a três dias. Era o prazo que ele tinha para resolver tudo. Agora, mal o sol tinha nascido e minha mãe já estava me acordando antes da hora — porque ele estava lá embaixo.

Desci as escadas sem nem escovar os dentes, ainda tentando entender o que aquele maluco estava fazendo na porta da minha casa às cinco e meia da manhã.

— Bom dia, Mar — ele falou, parecendo até animado. — Desculpa a hora. A amiga da minha mãe implorou por alguém de confiança pra uma faxina hoje, e eu indiquei você. É em Santos e ela paga duas diárias. Tem que ir cedo. Ela me deu o dinheiro da passagem, e quando você voltar, ela devolve. Mas eu não quero você viajando sozinha por aí, então vou te levar.

— Tá louco, Apolo? Eu não sou faxineira. Eu cuido da casa da minha mãe porque moro aqui. E outra, já te falei que vou casar com um homem importante. Não tem esse negócio de faxina, não. As madames querem tudo pra ontem, fim de ano passou e elas querem casa brilhando. Mas eu não vou.

— Oxê, ficou doida? Vai sim! Pelo menos você ganha pra comprar uma roupa pro encontro! — minha mãe se meteu na mesma hora.

Ah, eu sorri por dentro. A armadilha funcionou direitinho. Se eu ficasse empolgada, minha mãe barraria na hora. Bastava eu dizer que não queria para ela fazer questão de me contrariar.

Enquanto fazia minha higiene e jogava umas coisas na mochila, fiquei pensando para que diabos o Apolo tinha planejado dois dias fora… se, teoricamente, isso tudo se resolvia em minutos.

Quando entrei no carro, ele disse que eu podia dormir, que tinha inventado aquela história cedo só para enganar minha mãe. Agradeci e apaguei imediatamente. Detestava viagens longas de carro; ficava enjoada.

Quando ele me acordou, estávamos entrando no estacionamento do Casa Grande Hotel Resort & SPA, à beira da praia. Eu fiquei encantada só com a entrada. A praia era tão limpa, tão linda, tão diferente das excursões barulhentas que eu fazia com minha mãe pra Santos, que acabei comentando:

— Santos é diferente no meio da semana... sem os farofeiros de domingo.

— Porque não estamos em Santos, Mar. Estamos no Guarujá. Você não achou mesmo que eu ia te tirar de casa pra te levar pra Santos, né?

Eu nem respondi. Só tentava acompanhar o choque.

Na hora do check-in, já imaginei problema por eu ser menor, mas ele entregou a habilitação e um cartão Black. A recepcionista não questionou mais nada.

— Qual é o primeiro nome da senhora Vasconcelos? — ela perguntou.

— Marjorie, eu não…

— Costuma acordar tão cedo — Apolo cortou, sorrindo. — Pode providenciar um café da manhã caprichado e, depois, um horário no SPA pra ela antes do almoço?

— Claro, senhor. Quais os serviços?

— Todos que ela tiver direito. Depilação, massagem, pepino nos olhos, tudo o que ela quiser. Só não mexer no cabelo nem nas unhas.

A recepcionista achou estranho, mas cliente manda. Nos deu as chaves. No elevador, percebi que ele apertou o botão da cobertura.

— Eu não sou senhora Vasconcelos, Apolo.

— Eu sei. Mas você é menor. Se você falasse qualquer coisa, eu acabava preso e ainda chamavam sua mãe.

— E por que disse que eu não quero cabelo nem unhas?

— Você é mais inteligente que isso, Mar. Você veio “fazer faxina”. Faz sentido chegar com a unha feita?

— Verdade… Tá. Posso fazer mais uma pergunta?

— Só uma? Você fala pelos cotovelos…

— Por que me trouxe pra um lugar tão longe, caro e chique se podemos resolver tudo rapidinho?

— Porque eu não trouxe você aqui pra pagar dívida. Trouxe pra descansar. Pra te livrar da sua mãe. Pra te mimar.

— Tá bom. Vou aproveitar.

Rimos. Quando entramos no quarto, eu fiquei encantada. Fui tomar banho e me apaixonei de vez. Tinha banheira de hidromassagem. Eu nunca tinha visto uma de perto. O quarto parecia coisa de filme.

Ele gritou da porta pra eu tomar ducha porque o café estava chegando e deixar a hidro para a noite. E meu coração apertou de novo, lembrando do motivo de estarmos ali.

Mas, ao contrário do que eu temia, ele foi carinhoso, atencioso o tempo todo. Brincamos, rimos, conversamos. O café parecia coisa da Xuxa — frutas, suco natural, croissant… Depois ele me acompanhou no SPA, e ali eu fiquei ainda mais impressionada. O toque das massagistas, o cheiro dos óleos, tudo parecia de outro mundo.

Depois do almoço, eu queria praia. O dia estava lindo. Queria molhar os pés na água, mas ele lembrou que eu não podia voltar bronzeada e me levou para a piscina coberta.

Foi uma tarde leve. Ele me jogou na água, nós brincamos, e, quando ele me chamou para voltar ao quarto, senti de novo o frio na barriga. Mas, ao entrar, ele só colocou um vestido preto e uma sandália na cama.

— Se arruma. Quero te levar numa balada.

Depois de pronta, me olhei no espelho e nem me reconheci.

— Quer se maquiar? — ele perguntou. — Ou quer que alguém faça?

— Eu nem trouxe maquiagem… só gosto de lápis e batom.

Ele me entregou um kit enorme.

— Escolhe o que quiser. Eu espero.

— Quando você teve a ideia de comprar tudo isso pra mim?

— Já falei: quero te mimar. Eu presto atenção em você, Marjorie. Queria que você aceitasse ficar comigo. Quero que veja que posso cuidar de você. Que te respeito.

— Ah, tá. Até a hora em que você levar um tiro e eu virar viúva do crime. Ou levar pulseira de metal junto e eu ter que baixar a calcinha pra polícia olhar minhas partes e falar merda. Ou a gente tá num passeio normal e a polícia te parar e me revistar junto.

— Eu não sou ladrão de galinha pra passar por isso, minha flor.

— Pior ainda. Bandido grande, inimigos sem fim. Você concordou que era só um negócio, Apolo. Não vamos voltar nisso de novo.

— Tá bem. Vou terminar de me arrumar enquanto você se maquia.

Eu concordei. Fiz uma maquiagem básica, mas com cuidado. Arrisquei base, blush, sombra, máscara de cílios. Já tinha visto minha mãe fazendo e sabia usar. E, no fundo, pensava que, se eu queria ser cirurgiã-dentista, precisava treinar firmeza nas mãos — maquiagem servia.

Lembrar do meu sonho fez tudo dentro de mim estremecer. Era por isso que eu estava ali. Por isso que eu precisava resolver tudo.

Quando saí, encontrei Apolo com jeans, tênis de marca, camisa preta com as mangas dobradas e dois botões abertos, deixando aparecer os pelos no peito. O cabelo quase loiro arrepiado, os olhos verdes brilhando quando me viu. E o perfume… meu Deus.

Ele pegou na minha mão e uma descarga elétrica passou entre nós.

Eu não queria sentir nada daquilo. A gente tinha um acordo. Eu precisava terminar logo. Tinha um plano de vida. Não podia quebrar o coração da única pessoa que realmente se importava comigo.

Mas, puta que pariu… ele tinha que ser tão gostoso?

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