Rejeitada

Marjorie

São Paulo – 1994

Eu olhava pela janela do ônibus sem realmente enxergar o que passava lá fora. A cidade corria diante de mim, mas nada entrava de verdade nos meus olhos. Ruas, carros, gente apressada… tudo parecia meio embaçado, como se eu observasse o mundo de dentro de um aquário. A viagem era longa — extremo oeste até o extremo leste — e, apesar do cansaço, sentia aquela estranha sensação de dever cumprido vibrando por dentro.

Eu tinha ido tentar o vestibular da USP. Não por escolha minha, mas pela insistência da minha professora de matemática, que me inscreveu e ainda pagou a taxa de presente. Disse confiar no meu potencial. Eu não confiava tanto assim. Nunca imaginei dispor daquele valor. Era caro, e cada gasto pesava na nossa casa. Eu estava desempregada, e meus pais jamais tirariam dinheiro “desnecessário” para uma nova despesa — ainda mais para pagar inscrição numa universidade onde eu disputaria oitenta vagas para o segundo curso mais concorrido.

Minha mãe, Nancy, era costureira. Jovem, vaidosa e tão bonita que todo mundo reparava. Já meu pai, Carlos, era segurança: nordestino, fala grossa, temperamento difícil, ciumento ao extremo, principalmente com ela, quinze anos mais nova.

Eu tinha mais duas irmãs e um irmão. Caio e Brenda eram gêmeos, vinte anos. Ele foi dado para a madrinha rica ainda bebê — a madrinha se mudou para a França com o marido e o levou. Faz anos que não temos notícias. De vez em quando, vejo fotos antigas e me pergunto se ele lembraria da gente. Ele e Brenda são os “claros” da família, mas não se parecem tanto. Talvez porque ele cresceu com conforto e saúde, e ela, na luta.

Eu sou a do meio. Em tudo. Dezessete anos, pele cor de papelão — mistura da mãe loira com o pai negro — e a que mais se parece com ele. O nariz, o formato do rosto, até o jeito de franzir a testa quando algo me incomoda.

Depois vem Joyce, a caçula, quatorze anos. Uma negrinha linda, de parar a rua. Corpo escultural, cachos volumosos, lábios carnudos, sorriso perfeito. Linda a ponto de irritar, doce a ponto de derreter.

Como toda filha do meio, cresci com a sensação de ser sobra. Caio estava longe; Brenda era a preferida da mãe; Joyce, do pai. E eu? Eu era a que servia. A invisível. Quando as visitas vinham, achavam que eu era a empregada — e não estavam tão erradas, porque era sempre eu quem fazia tudo. Enquanto Brenda ficava ao lado de Nancy recebendo as pessoas, e Joyce se comportava como a princesinha da casa, eu ficava na cozinha servindo, lavando, limpando.

E quanto mais eu sentia a rejeição da minha mãe, mais eu estudava. Talvez por teimosia. Talvez por sobrevivência. Eu desenhava meu futuro no caderno. Tinha pavor de drogas, de garotos, de perder o controle da minha própria vida. Não queria ser tocada, não queria cair, não queria repetir nada do que via em casa. Meu plano era simples: estudar, sair dali aos dezoito, ter meu canto, meu trabalho, minha independência.

Mas a vida não facilitava. Quando eu trabalhava, minha mãe pegava metade do meu salário “para ajudar”. E ainda ficava com meus vales-refeição. Quando eu chegava da escola, muitas vezes não tinha jantar.

Meu salário de estagiária mal dava para pagar condução e material. E então ela decidiu:

— Você não precisa mais trabalhar. Está ganhando pouco e não está passando fome. É melhor ficar em casa ajudando.

“Em casa ajudando” significava ser mãe das minhas irmãs, faxineira da casa e cozinheira dos quatro. Livros, xerox, nada disso existia para mim. Biblioteca e cópia à mão — era o que tinha.

Quando eu tentava argumentar que precisava estudar, ela dizia que eu devia parar de ser besta, porque no máximo eu terminaria “lavando banheiro de algum riquinho”.

Nancy nunca valorizou meu estudo. Acho que o que a corroía era a inteligência ter caído na filha errada. Ela queria que Brenda tivesse sido a esperta. Brenda era linda — mas sem talento para a escola. E minha mãe via meu esforço como desperdício.

Desci do ônibus pensando nisso. Caminhando pelas ruas poeirentas do bairro, senti aquela certeza antiga e cortante: minha mãe nunca gostou de mim. Nunca. E um dia ela mesma admitiu isso.

Quando eu tinha quatorze anos, ela falhou no teste de direção e chegou em casa furiosa. Eu estava lavando calças jeans no tanque — porque ela não deixava eu usar máquina para isso — quando ela entrou na lavanderia e, sem aviso, me deu um tapa forte no rosto. O som seco ecoou nas paredes. Meus olhos encheram de lágrimas, mas eu as segurei.

— Por que me bateu? — perguntei.

— Porque tudo o que me acontece de ruim é sua culpa! — ela gritou. — Você é um inferno na minha vida!

Aquela foi a primeira vez que eu entendi com clareza. Não havia nada que eu pudesse fazer para ser amada. E ainda assim… eu tentei.

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