Depois da sala 12: POV Rachel
A noite chegou rápido demais depois do que tinha acontecido na sala 12.
Nada de concreto.
Nenhuma linha cruzada.
E, ainda assim, tudo parecia fora do lugar — inclusive eu.
A casa estava silenciosa quando cheguei. Silêncio de coisa intacta. De rotina que funciona. De tudo no lugar — menos eu. Tirei os sapatos perto da porta e caminhei descalça pelo corredor, sentindo o chão frio me ancorar por alguns segundos.
Respirar.
Parecer normal.
Seguir.
No banheiro, prendi o cabelo com um elástico frouxo e encarei meu reflexo. O rosto era o mesmo. Talvez os olhos não. Havia algo ali que não existia antes — uma inquietação que não se resolvia com banho quente nem com a promessa de dormir cedo.
Abri o chuveiro. A água caiu forte, quente, e por alguns minutos eu fiquei ali, deixando o barulho abafar pensamentos que insistiam em voltar. Não pensei nele. Evitei o nome como se fosse uma palavra proibida.
Funcionou por exatos três minutos.
O gesto contido.
O olhar atento demais.
A frase que não pedia resposta: você está fingindo.
Fechei os olhos com força, como se isso bastasse para apagar imagens que não deveriam estar ali.
Tomei banho com mais cuidado do que de costume. Escolhi uma camisola que não era nova, mas também não era a mais simples — algo confortável, mas que ainda me fizesse sentir mulher. Passei um hidratante leve nos braços, no pescoço, um perfume discreto. Nada exagerado. Nada que parecesse pedido.
Quando terminei, a cama ainda estava vazia.
Sentei na beira, esperando.
Eduard chegou pouco depois, falando ao telefone. A voz baixa, focada, atravessando a casa antes mesmo da presença dele. Desligou já no quarto, largou o paletó na cadeira e afrouxou a gravata.
— Oi — disse.
— Oi.
Ele me olhou rápido, um olhar que registra, mas não permanece.
— Jantou? — perguntei.
— Na empresa. Reunião longa.
Sempre havia uma explicação pronta.
Ele começou a se trocar enquanto eu permanecia ali, sentada, observando aquele homem jovem, bonito, bem-sucedido — o homem que eu ainda chamava de marido — e tentando lembrar quando tinha sido a última vez que nós dois tínhamos realmente parado um para o outro.
— A reunião foi pesada? — tentei.
— Normal. — Ele vestiu a camiseta. — O Adrian resolveu umas pendências importantes hoje.
O nome caiu entre nós como algo que não deveria estar ali.
— Ele é eficiente — continuou. — Facilita muito as coisas.
Assenti. Sorri pequeno. Fiz tudo certo.
Quando Eduard se deitou, eu não virei de costas.
Cheguei mais perto devagar, deixando que meu corpo falasse antes de qualquer palavra. Minha mão deslizou pelo braço dele, sentindo a pele quente, o músculo firme sob os dedos.
Era um toque lento, consciente — não um pedido, uma escolha.
Ele virou o rosto na minha direção.
Havia surpresa ali. E algo mais. Atenção.
Inclinei-me sobre ele, o peso do meu corpo criando uma proximidade impossível de ignorar. Meu cabelo caiu sobre o rosto dele quando o beijei. Não foi um beijo apressado. Foi profundo, demorado, como se eu estivesse lembrando os dois de algo que já tínhamos esquecido juntos.
Eduard correspondeu.
A mão dele subiu pelas minhas costas, aberta, segura, puxando-me para mais perto. Senti o corpo dele reagir sob o meu, a respiração mudar, o beijo ganhar outra textura — mais lento, mais carregado. Minha boca explorou sem pressa, insistindo, pedindo continuidade.
Eu me movi sobre ele, sentindo o encaixe familiar dos corpos, o calor que se acumulava entre nós. Meu quadril se ajustou ao dele quase sem pensar. O contato arrancou um suspiro baixo de mim — não planejado.
As mãos dele apertaram minha cintura com mais firmeza. O toque não era distraído. Era presente. O suficiente para fazer meu corpo responder inteiro.
Por um momento, nada existiu além da cama, da respiração próxima demais, da promessa silenciosa de que aquela noite poderia ser diferente.
Então o celular vibrou.
Eduard enrijeceu.
Não foi o toque do aparelho que quebrou o momento.
Foi a reação dele.
Ele se afastou de mim rápido demais, virando o telefone para baixo antes mesmo de olhar a tela, como se quisesse impedir que eu visse o nome que aparecia ali. O gesto foi automático.
Defensivo.
— É coisa urgente — disse, antes que eu perguntasse.
Ele pegou o celular e saiu da cama, caminhando até a varanda do quarto. A porta de vidro se fechou com cuidado excessivo, como se o silêncio fosse parte do acordo.
Fiquei sentada na cama, o corpo ainda desperto, sentindo o calor que não tinha para onde ir. Do outro lado do vidro, ele falava baixo, de costas para mim, a mão cobrindo parte do rosto.
Não ouvi palavras.
Mas vi o suficiente.
O cuidado.
A urgência.
O segredo.
Quando voltou, já era outro momento.
Ele se deitou de novo, mantendo uma distância mínima, confortável.
— Amanhã a gente termina isso, tá? — murmurou, sem me olhar.
Terminava sempre amanhã.
Virei de costas para ele, sentindo um nó se formar no peito. Eu tinha tentado. De verdade. Tinha oferecido presença, corpo, escolha. E falhar naquela tentativa doía mais do que admitir que algo estava faltando.
Antes de dormir, uma certeza se instalou — firme, silenciosa, impossível de ignorar:
Não havia traição na minha cabeça.
Não havia outro homem.
Não havia culpa.
Havia esforço.
Eu não queria cruzar nenhum limite.
Eu estava tentando permanecer onde ainda acreditava pertencer.
Mas, depois da sala 12, e daquela noite interrompida por algo que não me incluía, a distância entre permanecer… e começar a desaparecer parecia menor do que eu estava pronta para admitir.