Mundo de ficçãoIniciar sessãoSaí de casa antes de Eduard acordar.
Não foi um gesto dramático. Não houve porta batendo nem despedida silenciosa carregada de significado. Apenas me vesti, peguei a bolsa e saí com a sensação incômoda de que ficar ali exigiria mais de mim do que eu estava pronta para dar naquela manhã.
O elevador desceu rápido.
No estacionamento, o ar da madrugada ainda estava fresco, limpo, e por alguns minutos dirigi com o rádio desligado, deixando o silêncio organizar o que a noite tinha bagunçado.
Nada tinha acontecido.
E, ainda assim, algo insistia em ocupar espaço demais na minha cabeça.
Cheguei cedo à empresa. Cedo o suficiente para o prédio ainda estar despertando, para os corredores estarem vazios, para o trabalho parecer uma promessa de ordem. Entrei na minha sala, larguei a bolsa na cadeira e liguei o computador com um alívio quase físico.
Trabalho era concreto.
Abri contratos, revisei cláusulas, respondi e-mails com rapidez excessiva. Precisava me distrair. Preencher cada intervalo de silêncio antes que ele fosse ocupado por lembranças que eu não tinha convidado.
Mas elas vinham mesmo assim.
A sala 12.
Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo.
Não havia desejo consciente ali.
E isso me incomodava mais.
Adrian Weiss não era o tipo de homem que se confundia com facilidade. Ele se movia com intenção, falava pouco, observava demais. Havia algo nele — uma reserva, um controle — que dava a sensação de que nem tudo estava à mostra.
Que tipo de coisa um homem como ele escondia?
Não segredos banais. Não fraquezas óbvias. Mas escolhas. Limites que ele decidia quando cruzar. Pessoas que ele observava antes de se aproximar.
Afastei o pensamento com impaciência.
Eu era casada.
A batida na porta foi leve demais para anunciar qualquer urgência.
— Entra — respondi, sem tirar os olhos da tela.
A presença foi sentida antes de ser vista.
— Bom dia, Rachel.
Levantei o olhar no mesmo instante.
Adrian estava parado à porta, sem paletó, pasta de documentos na mão, expressão perfeitamente neutra. Profissional. Nada que justificasse o leve ajuste na minha postura — ou a atenção súbita do meu corpo.
— Bom dia — respondi, controlada. — Posso ajudar?
Ele entrou e fechou a porta atrás de si com cuidado. Sem pressa.
— Preciso revisar alguns pontos do contrato da expansão — disse, caminhando até a mesa. — Eduard pediu para resolver direto com você.
Colocou a pasta sobre a mesa e abriu na página certa. Trabalho. Tudo dentro do esperado. Ainda assim, o olhar dele demorou um segundo a mais do que o necessário quando encontrou o meu.
— Chegou cedo — comentou.
— Dia cheio.
— Imagino.
Ele se inclinou para apontar um trecho do documento. O gesto reduziu a distância entre nós sem invadir. O perfume discreto. A voz baixa. O cuidado em não tocar.
— Essa cláusula aqui — continuou — pode gerar ruído com os investidores.
Assenti, acompanhando com atenção genuína. Era bom ter algo concreto para focar.
— Posso ajustar — disse. — Já tinha pensado nisso.
— Eu sei — respondeu, ainda atento ao papel. — Você sempre pensa antes.
A frase não era elogio explícito. Ainda assim, me atravessou.
Adrian se endireitou devagar, apoiando a mão na mesa ao meu lado. O gesto era funcional. Poderia ser. Mas o espaço ficou menor do que precisava.
— Não quero tomar muito do seu tempo — disse. — Só resolver o que precisa ser resolvido.
Havia algo naquela frase que não se referia apenas ao contrato.
Mantive o tom firme.
— Então vamos resolver.
Ele sorriu de leve. Um sorriso curto, quase nada.
— É exatamente isso que eu pretendo.
E, enquanto voltávamos os olhos para o papel entre nós, uma certeza incômoda se instalou:
Alguma coisa naquele homem — no modo como entrava, observava e permanecia — já tinha encontrado um espaço que eu não lembrava de ter aberto.
Adrian folheou a pasta com calma, como se escolhesse a ordem das coisas. Parou em uma página específica e apoiou a mão sobre a mesa, firme.
— A expansão vai exigir presença — disse. — Reuniões presenciais, ajustes jurídicos, decisões que não se resolvem por e-mail.
Levantei o olhar.
— Quando?
— Na próxima semana. — São Paulo.
Assenti, automaticamente.
— Eduard comentou algo comigo — acrescentei. — Ele vai também.
— Vai — Adrian confirmou. — A agenda é conjunta.
Uma pausa curta. Controlada.
— Mas você estará envolvida desde o início — continuou. — Preciso de você nas reuniões estratégicas. Principalmente nas primeiras.
O modo como disse preciso não soou como pedido. Soou como decisão.
— Claro — respondi. — Se a equipe jurídica—
— Não é sobre a equipe — ele interrompeu, baixo, sem elevar a voz. — É sobre você.
O silêncio foi breve, mas denso.
Adrian sustentou meu olhar por um instante a mais do que o necessário antes de voltar aos documentos.
— Eduard cuida da parte comercial — prosseguiu, como se estivesse apenas organizando funções. — Eu preciso que você esteja comigo nas negociações sensíveis.
Comigo.
A palavra ficou suspensa entre nós, limpa demais para ser interpretada como erro.
— Vou pedir para organizarem tudo — disse. — Voo, hotel, agenda. Estaremos os três nos mesmos compromissos.
Fechou a pasta com precisão e acrescentou, sem olhar para mim:
— Vai ser uma semana exigente. Quero você focada.
Não havia provocação aberta.
— Estarei — respondi, profissional.
Adrian ergueu o olhar então, avaliando não meu trabalho, mas a firmeza da resposta.
— Eu sei.
E saiu da sala como se tivesse resolvido exatamente o que veio resolver.







