CAPÍTULO 3

O que eu vi primeiro: POV Adrian.

Eu a notei muito antes de desejar.

Rachel Miller não entrava em um ambiente — ela se ajustava a ele. Ombros retos, olhar atento, postura de quem aprendeu cedo a não ocupar mais espaço do que lhe permitem. Havia beleza ali, mas não era isso que chamava atenção. Era o contraste entre o corpo que pedia presença e a disciplina que o mantinha contido.

Ela se sentava como quem espera ser interrompida.

Falava como quem não quer incomodar.

E escutava como quem está acostumada a ser deixada por último.

Eduard parecia não perceber isso.

Falava dela como fala de um ativo confiável. Uma vantagem estratégica. Uma escolha segura. Nunca como fala de uma mulher que deseja. Nunca como alguém que se teme perder.

No começo, observei por curiosidade. Depois, por confirmação. Rachel mantinha a aliança sempre visível — não como símbolo de orgulho, mas como escudo. Como se dissesse ao mundo, e talvez a si mesma, que ainda havia um lugar onde pertencia.

Mas pertencer não é o mesmo que ser escolhida.

O dia da sala 12 não foi coincidência. Eduard sempre se atrasava, estava confortável com tudo o que possuía. Inclusive com ela. Eu contei com isso. Não por impulso. Por cálculo.

Quando Rachel entrou, vi o instante exato em que percebeu que estava sozinha comigo.

Foi rápido. Um segundo de alerta. Um ajuste mínimo no corpo. O tipo de reação que só alguém atento percebe.

Eu percebi.

Ela evitou meu olhar por tempo demais. Depois sustentou. O erro estava ali.

Havia algo em Rachel que me atraía de um jeito específico, quase incômodo. Não era só a beleza óbvia — embora fosse impossível ignorar o contraste entre a postura contida e o corpo que se movia com uma precisão silenciosa. Era a forma como ela se reprimia. Como mantinha os ombros firmes enquanto o olhar traía pequenas fissuras. Como parecia inteira demais para alguém que claramente não era prioridade havia tempo. Eu a desejava exatamente por isso: porque ela se controlava, porque se negava, porque cada gesto dela parecia um esforço consciente para não ceder. Mulheres assim não se entregam por impulso. Quando cedem, é por necessidade. E eu sei reconhecer necessidade quando a vejo.

As pessoas confundem domínio com imposição. Não é. Domínio é saber quando se aproximar sem tocar. Quando deixar o silêncio fazer o trabalho.

— Você é pontual — eu disse.

Ela respondeu como se estivesse em uma audiência. Profissional. Correta. Defensiva.

Bonita demais para alguém que vivia tão intocada.

Quando mencionei Eduard, observei o leve endurecer da mandíbula. Não foi dor. Foi cansaço. Um cansaço que não se resolve com promessas vagas nem com “depois”.

Quando me aproximei da mesa, deixei que minha presença fosse sentida antes de qualquer gesto. O olhar dela desceu por reflexo. Voltou rápido demais para parecer casual.

Ela me desejou ali.

Não de forma consciente. Ainda não. Mas o corpo sempre responde antes da moral.

— Você parece cansada — eu disse.

Ela mentiu.

E eu aceitei a mentira porque mentiras educadas são convites para quem sabe esperar.

Quando olhei para a aliança, não senti respeito. Senti algo mais simples: desinteresse. Eduard nunca soube o que tinha. Homens que não sabem o que têm não merecem que isso seja preservado por terceiros.

— Eduard tem sorte — eu disse.

Observei a reação dela com atenção clínica.

Ela endureceu. Defendeu. Não porque acreditasse. Mas porque precisava manter a narrativa intacta.

Quando pediu para manter tudo profissional, eu acreditei que ela queria aquilo. Acreditar não significa obedecer. Significa compreender o conflito.

Aproximei-me apenas o suficiente para que ela sentisse o peso da minha presença sem poder nomeá-lo. A distância segura é sempre a mais perigosa.

— Você está fingindo — eu disse.

Ela negou. Todas negam antes de cair.

O erro dela foi mencionar Eduard. Não porque eu me importasse com ele — não me importo. Foi porque revelou medo. Medo de desejar. Medo de ser vista desejando.

Quando apontou para a porta, pedindo que eu lesse o sinal, eu recuei. Sempre recuo quando ainda há resistência suficiente para ser quebrada depois.

— Você está certa — eu disse. — Eu não deveria.

E vi o alívio nos ombros dela. O falso fim.

Então acrescentei o que realmente importava:

— Só que… você também não.

Não precisei explicar. O corpo dela respondeu antes que a mente alcançasse.

Quando a maçaneta girou e Eduard entrou, eu já estava recomposto. Sempre estou. Rachel não. Ela ainda estava reorganizando o próprio desejo para caber onde já não cabia mais.

Eduard falou. Eu respondi.

Rachel ficou em silêncio.

E naquele silêncio eu entendi tudo.

Ela não buscava aventura.

Buscava confirmação.

Confirmação de que ainda era desejável.

De que ainda tinha impacto.

De que ainda podia escolher.

E eu decidi ali, com absoluta clareza:

Não tocaria nela enquanto ela pudesse fingir que não queria.

E quando acontecesse, não haveria respeito por um homem que nunca soube vê-la.

Porque mulheres como Rachel não precisam ser empurradas.

Elas precisam ser olhadas do jeito certo.

E quando são, raramente voltam para onde foram ignoradas.

Nunca foi amor.

Eu não funciono assim.

Amor é um conceito que nunca me serviu. O que senti por Rachel foi outra coisa: interesse. Foco. A consciência clara de que algo nela despertava minha vontade de possuir. Eu sempre tive mulheres. Escolha nunca foi um problema. O que me move não é falta, é vontade. Quando algo desperta meu interesse, eu não romantizo, não espero que passe, não transformo em dilema moral. Eu observo, calculo e avanço. 

E naquela manhã, enquanto Eduard ainda acreditava controlar tudo ao seu redor, eu já sabia: Rachel não era uma exceção. Era apenas o próximo desafio. E eu não costumo desistir do que decido querer.

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