Capítulo 8: Dívida de Sangue

O som da voz de Rogério foi como um balde de água suja jogado no meio do salão de baile. Alguns convidados próximos pararam suas conversas, virando-se para ver quem era o homem malvestido que ousava bloquear o caminho de Gabriel Montiel.

Senti o sangue drenar do meu rosto. Rogério não era apenas um agiota; ele era um predador. Ele sabia onde minha mãe morava. Ele sabia meus horários. E agora, ele estava ali, com aquele sorriso oleoso, prestes a destruir a farsa que eu tinha acabado de construir.

— O gato comeu sua língua, Elisa? — Rogério deu um passo à frente, ignorando completamente a presença de Gabriel. Ele estendeu a mão suja para tocar meu braço nu. — Achei que fôssemos amigos. Você me deve três parcelas, lembra?

Antes que os dedos dele pudessem encostar na minha pele, o mundo girou.

Gabriel se moveu com uma velocidade assustadora. Em um segundo, ele estava ao meu lado; no outro, ele havia interceptado o pulso de Rogério no ar. O som de ossos estalando sob a pressão do aperto de Gabriel foi audível.

— Aii! Me solta, seu… — Rogério tentou gritar, mas Gabriel torceu o braço dele para trás, forçando-o a se curvar de dor.

A expressão de Gabriel era terrível. Não havia raiva quente em seus olhos; havia um gelo mortal. Ele parecia um executor prestes a dar a sentença.

— Você tem três segundos para me dizer quem você é e por que está incomodando minha esposa — Gabriel disse, a voz baixa e letal, mas perfeitamente audível no silêncio chocado que se formou ao nosso redor.

— Eu… eu sou um credor! — Rogério ganiu, tentando se soltar. — Ela me deve dinheiro! Ela é uma caloteira!

Gabriel soltou o braço dele com um empurrão brusco, fazendo Rogério tropeçar. O agiota recuperou o equilíbrio e, num momento de estupidez, tentou avançar novamente, com o punho fechado.

Foi o último erro dele naquela noite.

Gabriel não recuou. Ele desferiu um soco preciso, cirúrgico, direto no maxilar de Rogério. O impacto foi seco e brutal. Rogério caiu no chão de mármore como um saco de batatas, sangue escorrendo pelo canto da boca.

O salão inteiro arfou. Mulheres cobriram a boca. Os seguranças do hotel finalmente correram em nossa direção, mas Gabriel ergueu uma mão, parando-os.

Ele ajeitou as abotoaduras do paletó, como se tivesse apenas espantado uma mosca, e tirou um talão de cheques do bolso interno. Com a caneta de ouro — a mesma que eu usei para assinar minha vida —, ele preencheu uma folha rapidamente, arrancou-a e a deixou cair sobre o peito do homem gemendo no chão.

— Isso cobre a dívida dela. E o triplo pelo incômodo — Gabriel disse, olhando para Rogério com nojo absoluto. — Agora, ouça bem. Se você chegar a menos de quinhentos metros da minha esposa, ou se pronunciar o nome dela novamente, eu não vou apenas quebrar seu maxilar. Eu vou enterrar você tão fundo que nem o diabo vai te encontrar. Fui claro?

Rogério olhou para o cheque, depois para os olhos assassinos de Gabriel, e assentiu freneticamente, limpando o sangue.

Gabriel se virou para mim. A fúria em seus olhos ainda não tinha se dissipado. Ele segurou meu braço com força — não para machucar, mas para possuir — e me arrastou em direção à saída.

— Vamos. Agora.

Ninguém ousou nos parar. O valet trouxe o carro em tempo recorde. Gabriel me empurrou para dentro do banco do passageiro e assumiu o volante, dispensando o motorista. Ele arrancou com o carro cantando pneus, deixando o Copacabana Palace para trás.

O silêncio dentro do carro era sufocante. Gabriel dirigia com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. Eu estava tremendo, o choque da violência e do medo se misturando em um coquetel de adrenalina.

— Gabriel… — tentei começar, minha voz falhando.

— Cale a boca — ele rosnou, sem olhar para mim. — Nem uma palavra até chegarmos em casa.

Ele acelerou, cortando o trânsito da orla. Eu olhei para o perfil dele, iluminado pelas luzes da cidade. Ele tinha acabado de bater em um homem por mim. Ele tinha pago minha dívida sem nem perguntar o valor.

Eu deveria estar com medo dele. Ele era violento, controlador e perigoso. Mas enquanto eu olhava para a mão dele no câmbio, a mesma mão que tinha derrubado meu pesadelo com um único golpe, eu não senti medo.

Senti uma gratidão distorcida e sombria. E, pior ainda, senti meu coração acelerar não por pânico, mas por algo muito mais perigoso.

Ele era um monstro. Mas, naquela noite, ele foi o meu monstro.

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