Mundo ficciónIniciar sesiónDois dias depois do incidente no corredor, a rotina na Mansão Montiel se estabeleceu em um silêncio gelado. Gabriel mal falava comigo, saindo antes de eu acordar e voltando quando eu já estava trancada no meu quarto. Mas naquela noite de sexta-feira, o silêncio foi quebrado.
— Esteja pronta em uma hora — foi a mensagem de texto que recebi dele. — Gala Beneficente da Fundação Criança Esperança. Traje de gala.
Dessa vez, não houve equipe de maquiagem. Tive que me virar sozinha com os produtos caros que lotavam a bancada do banheiro. Escolhi um vestido vermelho sangue que encontrei no closet, uma peça ousada que deixava minhas costas nuas. Se eu ia interpretar o papel de esposa troféu, eu faria isso direito.
Quando desci as escadas, Gabriel estava no hall, verificando e-mails no celular. Ele levantou os olhos e, por um segundo, seus dedos pararam sobre a tela. O olhar dele queimou minha pele exposta, mas ele recuperou a compostura rapidamente.
— Vermelho — ele comentou, guardando o celular. — Uma escolha agressiva.
— Achei que combinava com o humor da casa — respondi, sustentando o olhar dele.
O evento acontecia no Copacabana Palace. Assim que o carro parou, fomos cegados pelos flashes dos paparazzi. Gabriel segurou minha cintura com firmeza, colando meu corpo ao dele.
— Sorria — ele sussurrou no meu ouvido, o hálito quente causando arrepios na minha nuca. — Lembre-se: somos o casal do ano.
Entramos no salão dourado, cercados pela elite do Rio de Janeiro. Mulheres cobertas de diamantes me olhavam com curiosidade e inveja, enquanto homens cumprimentavam Gabriel com respeito temeroso.
— Vou cumprimentar alguns investidores — Gabriel disse, soltando minha cintura. — Fique aqui. Não fale com a imprensa. E, pelo amor de Deus, não aceite bebidas de estranhos.
Ele se afastou, deixando-me sozinha no meio do tanque de tubarões. Peguei uma taça de champanhe de um garçom que passava, apenas para ter algo o que fazer com as mãos, e me encostei em uma coluna de mármore, observando a festa.
— Então você é a famosa Cinderela.
A voz veio da minha esquerda. Virei-me e deparei com uma mulher deslumbrante. Ela era alta, morena, vestida em um longo dourado que parecia ter sido costurado no corpo. Seus olhos eram felinos e predadores.
— Desculpe? — perguntei, mantendo a polidez.
A mulher riu, um som cristalino e cruel. — Não se faça de tonta. Todo mundo está falando de você. A garçonete que laçou o Gabriel Montiel. Eu sou Bianca. A noiva que ele deveria ter tido, se não fosse por aquele testamento ridículo do avô.
Senti o sangue subir para o meu rosto. Então essa era a tal ex-namorada ou pretendente rejeitada. A Rival.
— Prazer, Bianca — respondi, erguendo o queixo. — Mas acho que você está desinformada. Gabriel não foi forçado a nada. Ele fez uma escolha. E a escolha fui eu.
Bianca deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro do perfume dela era enjoativo. — Escolha? Por favor. Você é uma conveniência, querida. Um útero alugado, talvez? Ou apenas uma distração temporária até ele conseguir o controle da empresa? Não se apegue muito a esse anel no seu dedo. Diamantes são eternos, mas casamentos como o seu… eles têm data de validade.
Aquelas palavras doeram porque eram verdadeiras. Eu tinha data de validade. Um ano. Mas eu não daria a ela o gosto de me ver sangrar.
Dei um gole no meu champanhe, olhando-a de cima a baixo com um sorriso que aprendi com o próprio Gabriel.
— Pode ser, Bianca. Mas hoje à noite, quem está no braço dele sou eu. E quem está dormindo na cama dele sou eu. Então, se me der licença, meu marido está me esperando.
Virei as costas para ela, tremendo por dentro, mas mantendo a postura ereta.
— Você vai se arrepender disso, sua vadiazinha de subúrbio! — ela sibilou atrás de mim, mas eu continuei andando.
Caminhei em direção a Gabriel, que conversava com um grupo de homens de terno. Ele me viu se aproximar e, para minha surpresa, estendeu a mão para mim, interrompendo a conversa.
— Senhores, esta é minha esposa, Elisa — ele apresentou, puxando-me para o lado dele.
Senti o calor do corpo dele e, pela primeira vez, não me senti presa. Me senti segura. Olhei para o outro lado do salão e vi Bianca nos observando com ódio puro.
Gabriel seguiu meu olhar e viu a mulher. Ele franziu a testa e sussurrou para mim: — O que a Bianca disse para você?
— Nada importante — respondi, apoiando a cabeça no ombro dele, jogando o jogo melhor do que nunca. — Apenas me lembrou de como eu tenho sorte de ter você.
Gabriel me olhou, surpreso com a minha resposta. Seus olhos desceram para a minha boca, e a tensão voltou, mais forte do que nunca.
— Vamos embora — ele disse, abruptamente. — Já fizemos o social suficiente.
Ele me guiou para fora do salão com pressa. Mas antes que pudéssemos chegar à saída, um homem bloqueou nosso caminho. Ele usava um terno barato e tinha um sorriso oleoso.
— Elisa? Elisa Campos? — o homem disse, alto o suficiente para atrair olhares. — Nossa, como você mudou. Já gastou todo o dinheiro que pegou emprestado comigo?
Meu coração parou. Era Rogério. O agiota do meu bairro antigo. O passado tinha acabado de entrar pela porta da frente. E Gabriel estava bem ao meu lado.







