Capítulo 3: A Gaiola de Ouro

Assim que a ponta da caneta de ouro deixou o papel, selando meu nome na linha pontilhada, a atmosfera dentro do carro mudou. Se antes havia uma tensão elétrica, agora havia apenas um vazio gelado. Gabriel Montiel recolheu o contrato com a eficiência de quem fecha um negócio imobiliário, guardou-o na pasta de couro e bateu no vidro que separava o banco traseiro do motorista.

— Vamos — ele ordenou, sem nem olhar para mim.

O carro deslizou suavemente pelo asfalto, afastando-se do centro da cidade e da minha vida antiga. Eu olhava pela janela escurecida, vendo os prédios familiares e as ruas onde cresci ficarem para trás, transformando-se em borrões cinzentos. Uma sensação de náusea subiu pela minha garganta. Eu tinha acabado de vender minha liberdade, meu futuro e meu coração por um pedaço de papel.

— O que acontece agora? — perguntei, minha voz soando pequena no silêncio opressivo do veículo. — Eu preciso avisar minha mãe… preciso pegar minhas coisas…

Gabriel continuou digitando em seu celular, a luz da tela iluminando seu rosto angular e impassível. — Sua mãe já está sendo transferida para o Hospital Santa Helena neste exato momento. Meus assistentes cuidaram de tudo. Quanto às suas coisas… — Ele finalmente parou de digitar e me lançou um olhar de cima a baixo, carregado de desdém. — Não traga nada. Roupas velhas não entram na minha casa. Você receberá um guarda-roupa novo, adequado à sua nova posição.

Engoli em seco, sentindo o rosto queimar. Ele não estava apenas comprando uma esposa; ele estava apagando quem eu era. Elisa Campos, a garota que usava jeans desbotados e adorava café barato, deixaria de existir.

A viagem durou cerca de quarenta minutos. Subimos a estrada sinuosa em direção ao Alto da Boa Vista, onde o ar era mais puro e o dinheiro, mais antigo. O carro diminuiu a velocidade diante de um portão de ferro forjado gigantesco, adornado com o brasão da família Montiel. Os portões se abriram lentamente, como a boca de uma besta faminta, e o carro entrou.

A propriedade era imensa. Jardins perfeitamente podados se estendiam por todos os lados, iluminados por luzes indiretas que davam ao lugar um ar de conto de fadas sombrio. No final da alameda de cascalho, erguia-se a mansão. Era uma construção neoclássica, branca e imponente, com colunas altas que pareciam sustentar o céu noturno. Era linda, sem dúvida, mas não parecia um lar. Parecia um mausoléu.

O motorista abriu a porta para mim, e eu desci, sentindo minhas pernas tremerem. Gabriel já estava na escadaria de entrada, verificando o relógio, impaciente.

— Sra. Odete! — ele chamou, sua voz ecoando no hall de entrada de mármore assim que as portas duplas se abriram.

Uma mulher de meia-idade, vestida com um uniforme preto impecável e com o cabelo grisalho preso em um coque severo, surgiu das sombras. Ela tinha olhos afiados e uma expressão de quem já tinha visto de tudo e não aprovava nada.

— Sim, Sr. Gabriel? — ela respondeu, com uma polidez gelada.

— Esta é Elisa. Minha esposa. — Ele soltou a bomba como se estivesse anunciando a chegada de uma encomenda da A****n. — Instale-a na Suíte Azul. Certifique-se de que ela esteja apresentável para o jantar com meu avô amanhã à noite.

Os olhos da Sra. Odete se cravaram em mim. Não havia boas-vindas neles, apenas julgamento. Ela olhou para meus sapatos gastos, para minha bolsa barata e para meu cabelo despenteado pelo vento. Em um segundo, ela me pesou, me mediu e me achou insuficiente.

— Esposa, senhor? — ela repetiu, a palavra saindo com um gosto amargo. — Entendido. Por favor, me acompanhe, senhorita. Ou devo dizer… senhora?

Olhei para Gabriel, buscando algum tipo de apoio, alguma indicação de que ele me defenderia daquela hostilidade velada. Mas ele já estava de costas, subindo a escadaria principal em direção ao seu escritório, falando ao telefone.

— Resolva isso, Odete. Tenho uma conferência com Tóquio em cinco minutos. Não quero ser perturbado.

E assim, ele desapareceu. Fiquei sozinha no hall gigantesco, cercada por obras de arte que valiam milhões e por um silêncio que gritava que eu não pertencia àquele lugar.

— Por aqui — disse a governanta, com um sorriso que não passava de um esgar. — Vou lhe mostrar onde a senhora vai dormir. E sugiro que tome um banho. O cheiro da rua não agrada ao Sr. Gabriel.

Segui a mulher escada acima, sentindo o mármore frio sob meus pés. A cada degrau, a realidade afundava mais. Eu tinha salvado minha mãe, sim. Mas ao entrar naquela gaiola de ouro, eu tinha a terrível sensação de que a Elisa que eu conhecia tinha ficado do lado de fora dos portões.

E eu não sabia se algum dia conseguiria trazê-la de volta.

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