Mundo ficciónIniciar sesiónO clique das travas elétricas soou alto demais no silêncio hermético do carro, isolando-nos completamente do caos da cidade lá fora. O interior era um mundo à parte, revestido em couro bege macio e detalhes em madeira nobre. O silêncio era tão absoluto que eu podia ouvir minha própria respiração acelerada e irregular.
Encolhi-me no canto do banco, apertando minha bolsa surrada contra o peito como se fosse um escudo, tentando ocupar o menor espaço possível. O homem ao meu lado retirou os óculos escuros com um movimento lento e calculado.
Olhos cinzentos, frios e cortantes como lâminas de aço cirúrgico, encontraram os meus. Ele era assustadoramente bonito, com aquele tipo de beleza aristocrática que parece intocável. Seu terno era feito sob medida, sem uma única ruga, e no pulso brilhava um relógio que valia mais do que a casa onde eu cresci. Mas havia uma crueldade na curva de sua boca que me fez estremecer.
— Gabriel Montiel — ele disse, estendendo a mão. Por um segundo, achei que fosse um cumprimento, mas ele apenas pegou o envelope que eu ainda segurava, puxando-o com firmeza. — CEO do Grupo Montiel. Acho que você já ouviu falar.
Minha boca secou instantaneamente. O Grupo Montiel era dono de metade do Rio de Janeiro. Hospitais, construtoras, redes de hotéis, empresas de tecnologia. Eles eram a realeza intocável da cidade. E eu estava sentada ao lado do príncipe herdeiro.
— O que… o que o senhor quer comigo, Sr. Montiel? — gaguejei, sentindo-me minúscula diante daquela presença avassaladora.
Gabriel abriu uma pasta de couro preto que estava no banco entre nós e retirou um documento grosso, encadernado. Ele folheou as páginas com indiferença.
— Vamos pular o drama e as cortesias, Elisa. Eu sou um homem ocupado e você é uma mulher sem opções. — Ele jogou o documento no meu colo. O peso do papel parecia chumbo. — Sua mãe tem uma insuficiência cardíaca grave, estágio quatro. A cirurgia custa quinhentos mil reais. O pós-operatório e os medicamentos, mais duzentos mil. Você ganha um salário mínimo e meio, tem o nome sujo no Serasa e nenhuma perspectiva de crédito.
Cada palavra dele era um tapa na minha cara. A precisão cirúrgica com que ele descrevia minha desgraça era humilhante. Ele falava da minha vida como se fosse um relatório financeiro ruim.
— Você está me investigando? Isso é ilegal! — tentei soar corajosa, erguendo o queixo, mas minha voz falhou miseravelmente.
— Isso é due diligence, Elisa — ele retrucou, impassível, sem nem piscar. — Antes de fazer um investimento, eu analiso os riscos. E você é um investimento de alto risco, mas necessário. Eu preciso de uma esposa. Você precisa de dinheiro. É uma troca simples. Oferta e demanda.
Arregalei os olhos, o choque paralisando meus pulmões por um instante. O ar parecia ter sumido do carro. — Uma… esposa? O senhor está brincando?
— Eu nunca brinco com negócios. Não se iluda achando que isso é um conto de fadas. Não estou procurando amor, nem uma companheira de vida. Preciso de uma esposa no papel para cumprir uma cláusula arcaica do testamento do meu avô. Se eu não me casar até o final deste mês, perco o controle acionário da empresa para o meu tio. Preciso de alguém discreta, desesperada, sem conexões poderosas e que não faça perguntas. Alguém exatamente como você.
Ele tirou uma caneta tinteiro de ouro maciço do bolso interno do paletó e a ofereceu para mim, segurando-a como se fosse uma arma.
— O contrato é válido por um ano. Eu pago a cirurgia da sua mãe hoje mesmo, à vista. Transfiro a melhor equipe de cardiologia do país para o caso dela. Você terá uma mesada generosa, roupas, motorista. Em troca, você se casa comigo, mora na minha casa e finge ser a Sra. Montiel perfeita em eventos sociais e jantares de família.
Ele fez uma pausa dramática, e seus olhos percorreram meu corpo com um desdém calculado, como se avaliasse se eu valia o preço.
— Mas há uma regra inquebrável, Elisa. Está na página três, Cláusula 5. Leia com atenção. Você nunca, em hipótese alguma, pode se apaixonar por mim. No momento em que você desenvolver sentimentos românticos ou tentar tornar este casamento real, o contrato é anulado imediatamente e você sai sem nada. Sem dinheiro, sem tratamento para sua mãe.
Olhei para o papel. As letras pareciam dançar na minha frente, zombando de mim. Era loucura. Era uma venda. Era prostituição legalizada com um anel no dedo. Mas era a única chance de salvar a minha mãe.
— E se eu recusar? — perguntei, sentindo as lágrimas quentes queimarem meus olhos, lutando para não chorar na frente dele.
Gabriel olhou para o relógio de pulso novamente, com uma indiferença que gelou meu sangue. — Então você pode descer do carro agora mesmo. A porta está destrancada. Mas lembre-se: o banco fecha em quinze minutos. E o coração da sua mãe não vai esperar muito mais do que isso. Talvez ela dure uma semana. Talvez dois dias. Você quer pagar para ver?
Ele destravou a porta com um clique seco. O som abafado do trânsito lá fora invadiu o carro, um lembrete cruel do mundo real que me esperava, onde eu era pobre e impotente.
Olhei para a caneta de ouro brilhando na mão dele. Olhei para a porta aberta e a liberdade que ela oferecia. Minha mãe ou minha dignidade? A resposta era óbvia, mas o gosto era amargo como veneno.
Com a mão trêmula, peguei a caneta. O metal estava frio, assim como o coração do homem ao meu lado.
— Onde eu assino? — perguntei, selando meu destino.







